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- Se deus não existe, quem escreve pra mim?
Como o baixadense se enxerga? - pt. 8. Texto por: Fijó. Revisão: Jéz; Josué Matheus. Fonte: FED Ent./ YouTube. Sabe aquela voz que aparece quando você tá sozinho, na calmaria que vem depois da tempestade, e que parece vir de fora mas também de dentro? Não é um pensamento, não é uma lembrança — é uma ordem. Ela não pede, não sugere, não explica. Ela só diz: "confia", e a gente nunca sabe de onde ela vem. O Hashi, cria de Mesquita, lançou em 2021 uma música que muito cedo virou um hino para mim, pessoalmente. Acreditar no meu trabalho não por ouvir o que vem de fora; acreditar no meu trabalho por entender o que vem de dentro. Junto com Black, ele lançou a música "Confia". Amor, o rap vai acabar me deixando rico A cerveja deixando pobre E eu te deixando leve, mina Foda é que tu me lembra Lilith, do tipo que só fode comigo e sai por cima Bolando um beck e bolando um plano pra roubar a cena que os cara' não desconfia, mano Às vezes, penso em desistir, só que parece que o destino olha pra mim e diz 'confia, mano' Hashi expõe uma confissão que parece despretensiosa, mas já carrega o peso de quem vive entre três forças que não se alinham. Três direções: a arte que promete sustento, o vício que consome e o afeto que não se fixa. Não existe equilíbrio, mas existe muita tensão. E é nesse campo minado que Lilith vem à memória, como alguém que não se apega e, ao mesmo tempo, alguém que não se curva. Nesse cenário de caos, a voz aparece. O destino não parece ser uma força abstrata; ele olha. Ele diz. A voz tem presença, tem rosto, e profere uma única palavra: "Confia". Não é um consolo, uma sugestão ou uma possibilidade. É uma ordem. Quem narra essa história não "escolhe" confiar; é "convocado" a isso. A Baixada, vista por esse ângulo, é uma eterna negociação com uma entidade - ou coleção de fatos inevitáveis - que exige obediência antes de qualquer outra coisa. O "confia" é o mandamento que não explica, não justifica. Só manda. Daria um filme, os cana' de Corolla E o Laranjinha ter que ir no presídio visitar o Acerola E pros Macaulay Culkin mal de Coca-Cola Quando eu digo 'saudade, MD', eu não falo de droga Aqui, o Hashi mistura cinema, tráfico, cultura pop, saudade, memória afetiva. É um gesto de autonomia sobre sua arte, como se dissesse "não sou o que você pensa que eu sou, minha letra não é o seu clichê vazio". Por essa ótica, a pergunta "quem escreve?" é, no fundo, uma pergunta sobre legitimidade: quem autoriza essa voz a existir? Se for Deus, a voz é sagrada. Se for o rap, a voz é arte. Se for a rua, a voz é testemunho. Mas se for "só" o Hashi ou o Black... Aí a voz precisa se sustentar sozinha. E isso é assustador. Pai, eu sei que tudo que vai volta, Mas na real eu não sei se isso me assusta ou me motiva A afirmação não traz certeza, e a incerteza, na periferia, é para poucos. Na nossa realidade hesitar é parar, e parar é morrer. Mesmo assim, o artista hesita no verso, sendo talvez o ato mais corajoso da música: dizer "não sei" em voz alta, sem a proteção de uma resposta pronta. Vou ganhar o mundo e depois lavar a louça E por mão na massa pra ter pão na mesa Bota minha tropa no flyer, que teu evento lota Se Deus não existe, quem escreve minhas letra'? No refrão, a promessa de "ganhar o mundo" é imediatamente seguida pela volta pra casa - ou "lavar a louça". Não existe fuga atrelada à melhoria, existe permanência. O mundo que ele vai ganhar é um mundo que cabe na pia da cozinha de casa. A louça é um ponto fixo: é ela que o artista usa pra se recusar à narrativa do "favela, venceu, saiu". O sujeito quer ganhar o mundo, mas o que mede o começo do mundo é a louça, é o cotidiano, o trabalho, a família, a mesa (farta, de preferência, e) posta. Nosso território é a base de onde se parte e a casa para onde se volta. "Ser baixadense" não se define pela saída, mas pela capacidade de retorno. E, no meio dessa negociação entre o sonho e o corre, a pergunta que rasga o ouvinte: se o deus (provedor) não existe, de onde vêm o dom? Claramente não é uma pergunta sobre teologia, é uma pergunta sobre autoria. Se a voz que diz "confia" não vem de Deus, vem de onde? Do rap? Da rua? Da memória de quem já morreu? Do próprio Hashi, que duvida tanto quanto acredita? A ordem "confia" exige obediência, mas o sujeito que obedece não sabe nem quem está mandando. Ele só sabe que algo o impulsiona, o faz seguir em frente. Black traz, depois do primeiro refrão, sua visão da mesma situação. Amor, o rap já me deixou forte Cerveja pra mim é lixo Agora vou trazer os cria' comigo Nós somos forte', não porque queremo', e sim porque é preciso Se eu miro, acerto, porque sou preciso A força aqui não é escolha; é necessidade. Black não é forte simplesmente porque acredita, ele é forte porque a realidade exige. É a resposta mais sóbria ao comando do destino: se o Hashi recebe a ordem "confia" e pergunta quem escreve, o Black diz: "escreve quem precisa sobreviver". A autoria, pra ele, é uma consequência da falta, não um dom vindo da abundância. Pra variar, fui frio e calculista Não descarreguei pro céu, guardei pra largar nesses cara' Que pra me alcançar, vão ter que gastar a sola da Kenner Enquanto Hashi atira pro céu, derruba anjos e paga o preço no inferno astral no primeiro bloco da letra, Black guarda as balas pra quem está na terra igual a ele. Um briga com o divino, o outro briga com o terreno, mas os dois compartilham a mesma vontade de ganhar o mundo e lavar a louça. O que fica na minha cabeça é que existe, ao mesmo tempo, um enfrentamento com o invisível e a resistência com o visível. Nenhuma vale mais que a outra, só são respostas diferentes à mesma ordem: "confia". Garota, eu lembro das promessa' de pra sempre junto' Mas hoje eu nem faço mais questão do teu contato salvo Artigo 33, Cidade de Cristo Fala! O que era crime, hoje é poesia Nesse sentido, se deus não existe, quem escreve é a vivência do território. A mão que segura o microfone é a mesma que segurou o pente, no entanto a diferença está no destino que a música dá à violência. Essa transformação é a prova de que a autoria é um fenômeno real e perceptível: o crime não deixou de existir; ele foi reescrito. A poesia não apaga a violência, só a transforma em outra coisa. Clipe de "Confia", por Hashi e Black. Direção: Max Chagas. Foto: Reprodução / YouTube. Conclusão: No fim das contas, o "confia" não é uma ordem pra acreditar em Deus. É uma ordem pra acreditar no processo. Confia que a repetição vai te levar a algum lugar. Confia que, se você continuar escrevendo, a autoria vai se revelar. Confia que, mesmo sem saber quem escreve, você pode ser o que está sendo escrito. Porque, na Baixada, a pergunta não é "Deus existe?". A pergunta é: se não existir, quem vai ocupar o lugar dele? A música do Hashi responde: a poesia. O verso. A voz que se recusa a calar, mesmo quando o destino ordena silêncio. Quem escreve? A gente escreve. A gente que ouve a ordem e, ao obedecer, se torna autor. Marisa Vorraber Costa (2000) nos lembra que a arte também ensina com gestos, repetições e perguntas que ficam no ar. E "Confia" ensina algo que escola nenhuma ensina: perguntar. O refrão não resolve a dúvida sobre a autoria, ele a repete como um eco que passa de um verso pro outro, do Hashi pro Black, do Black pro ouvinte. E, ao repetir a pergunta, a música vai formando uma identidade que não aceita respostas prontas. Porque, na Baixada, as respostas prontas são as que matam — a do crime, a do destino, a do silêncio. A música ensina a desconfiar delas e a ocupar o lugar vazio da autoria com a própria voz. O "confia", nesse sentido, não é um mandamento; é uma provocação pedagógica: confia que a pergunta vale mais que a resposta. Refs de Cria: COSTA, Marisa Vorraber (Org.). Estudos culturais em educação: mídia, arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, cinema.... 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000.
- O cinema da Baixada Fluminense e sua potência invisível: estética, território e insurgência narrativa.
Texto por: Cíntia Lima. Revisão: Fijó. Em "Sobre Amor", Mariana e Érica tiveram um relacionamento amoroso que marcou a vida de ambas, porém pressões familiares e da sociedade a fizeram se afastar uma da outra apesar do desejo de ficarem juntas. Dez anos depois elas se reencontram, enquanto desabafos, desejos e frustrações vêm à tona durante uma conversa sobre amor. Imagem: Reprodução / Malice Produções Culturais. Falar sobre o cinema feito na Baixada Fluminense é, antes de tudo, falar sobre disputa de imaginários. Durante décadas, a região foi retratada majoritariamente a partir de uma ótica externa: território da violência, da carência, da ausência. No noticiário televisivo, a Baixada aparece como estatística; no discurso oficial, como problema; no cinema hegemônico, muitas vezes, como cenário exótico ou espaço de brutalidade. Mas o cinema realizado por cineastas da própria região desloca esse eixo. Ele não apenas responde a essas representações, ele as desmonta. O que está em jogo não é somente produzir filmes na periferia metropolitana do Rio de Janeiro, trata-se de produzir imagens a partir da Baixada, com seus corpos, suas memórias, seus sotaques, seus modos de circulação e afeto. Isso muda tudo, muda a câmera, muda o ritmo, muda a ética do olhar. O cinema brasileiro sempre foi plural, diverso e inventivo, mas ainda resiste a um centro nervoso hegemônico que privilegia roteiros, olhares e trajetórias vindas de grandes metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. Nesse cenário, o cinema feito na Baixada Fluminense ocupa uma posição simultaneamente periférica e essencial: periférica para o circuito comercial e industrial do audiovisual, essencial para entender as narrativas contemporâneas brasileiras. A Baixada é, para além de um território geográfico, um lugar de intensa vida cultural marcada por histórias de resistência, criatividade e afirmação de identidade. Apesar disso, os filmes que emergem dessa região, sejam curtas, médias ou longas-metragens, seguem lutando por visibilidade e estrutura. É comum que produções locais enfrentem dificuldades de financiamento, ausência de políticas públicas consistentes e uma rede de exibição precária. Essa realidade não é apenas um entrave logístico, ela revela como olhares periféricos ainda são frequentemente subestimados no mapa maior do cinema nacional. Mas é justamente desse lugar de resistência que surgem algumas das narrativas mais originais e urgentes do Brasil. Cineastas da Baixada Fluminense têm explorado, com sensibilidade e coragem, temas como violência urbana, desigualdades sociais, memória comunitária, juventude negra e família, criando obras que respiram autenticidade por dialogarem diretamente com as experiências de quem vive ali. Essas narrativas não apenas enriquecem o cinema brasileiro, elas reconfiguram nossa compreensão sobre quem somos e como contamos nossas histórias. O cinema da Baixada não usa o território como pano de fundo; ele o assume como linguagem. As ruas, os trens, os quintais, os campos de várzea, as casas geminadas, os muros grafitados e as igrejas de esquina são mais do que locações, são dispositivos narrativos. Eles estruturam o tempo das histórias, determinam deslocamentos e modulam a experiência sensorial dos filmes. Há uma dimensão de realismo que emerge dessa proximidade com o cotidiano, mas não se trata de um realismo naturalista ou ilustrativo. Muitas produções tensionam a fronteira entre documentário e ficção, explorando uma estética híbrida que dialoga com a urgência das experiências vividas. Essa escolha formal revela algo importante: a Baixada não é objeto de observação distante; é espaço de elaboração subjetiva. Quando moradores se tornam personagens de si mesmos, quando histórias familiares atravessam roteiros, quando memórias comunitárias organizam a estrutura narrativa, o cinema deixa de ser apenas representação e passa a ser também gesto político, sendo potente por brotar de uma prática comunitária. Festivais locais, exibições em praças, cineclubes e parcerias com coletivos culturais contribuem para que essas produções circulem dentro de suas próprias comunidades, gerando pertencimento e inspirando novas gerações a se tornarem autoras de suas próprias narrativas. Essa democratização do fazer cinematográfico desafia a lógica tradicional de que o cinema “só existe” quando passa por grandes eventos ou plataformas mainstream. Mães Solo é um documentário em curta-metragem que busca através da escuta afetuosa entender o lugar dessas mães que criam seus filhos sozinha no cenário da Baixada Fluminense e na luta por uma vida digna. Imagem: Reprodução / Malice Produções Culturais. Para que o cinema da Baixada Fluminense alcance seu pleno potencial, é urgente que haja políticas públicas que vão além de editais pontuais. É necessário um ecossistema de apoio sustentável à produção audiovisual, com formação técnica acessível, incentivo à distribuição, salas de exibição comunitárias e redes de apoio entre realizadores. Sem isso, corre-se o risco de que talentos brilhantes continuem sendo subestimados ou migrando para outras regiões em busca de meios de produção. O estigma histórico associado à Baixada Fluminense produziu uma imagem homogênea da região, como se ela fosse um bloco único de precariedade. O cinema local, no entanto, evidencia a pluralidade de vivências que coexistem ali. Histórias de juventudes criativas, de mulheres que sustentam redes de cuidado, de artistas que constroem cenas culturais vibrantes, de trabalhadores que atravessam longas distâncias diariamente, de famílias que reinventam estratégias de sobrevivência. Essa complexidade raramente interessa à lógica comercial dominante, que tende a simplificar narrativas periféricas em arquétipos facilmente consumíveis. O cinema da Baixada, ao contrário, insiste na ambiguidade, na contradição e na nuance; ele não nega os conflitos sociais, violência, desigualdade, ausência do Estado, mas recusa reduzi-los a espetáculo e essa recusa é profundamente política. Ao deslocar o foco do sensacionalismo para a experiência humana, os realizadores da região reivindicam o direito à própria narrativa. Dizemos, em imagem e som: não somos apenas o que vocês veem de fora. Apesar dos entraves, o que se vê é uma estética da resistência que se reinventa constantemente. A juventude da Baixada tem ocupado o audiovisual como ferramenta de expressão e denúncia, mas também como espaço de fabulação. Há espaço para o drama social, mas também para o humor, para o experimental, para o cinema de gênero, para narrativas afetivas e intimistas. Essa diversidade desafia a expectativa de que o cinema periférico deva falar apenas de dor. Ele fala de amor, de amizade, de desejo, de sonho. Ele imagina futuros possíveis. E imaginar é, por si só, um gesto transformador. Ao colocar corpos historicamente marginalizados no centro do enquadramento, esses filmes produzem deslocamentos simbólicos importantes. A câmera, que por tanto tempo foi instrumento de vigilância e exotização, torna-se ferramenta de autoinscrição. E apesar de desafios estruturais persistentes, o cinema da Baixada já prova que sua importância não está apenas no que produz, mas no modo como produz, com coragem, escuta, participação e compromisso com as comunidades às quais pertence. Esses filmes não querem apenas ser vistos, eles querem ser ouvidos e sentidos. E isso é, sem dúvida, uma das maiores contribuições que o cinema brasileiro pode oferecer hoje. "Casa, Fraternidade e Fé" é um documentário em curta-metragem que faz uma narrativa através de memórias com depoimentos de Ialorixás do candomblé da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro. Conta um pouco da história da religião, de seus terreiros, seus rituais e da fraternidade entre seus membros no intuito de desmistificar certas discriminações contra a fé e o axé. Imagem: Reprodução / Malice Produções Culturais. Defender o cinema da Baixada Fluminense não é defender um nicho; é defender o direito à pluralidade de vozes no espaço público. Quando uma região inteira é representada majoritariamente por discursos externos, há um empobrecimento do debate cultural. O audiovisual tem poder de moldar percepções, consolidar estigmas ou ampliá-los. Investir em formação audiovisual nas escolas, fortalecer cineclubes, garantir editais descentralizados e fomentar redes de exibição locais não é apenas política cultural, é política de cidadania. Significa reconhecer que contar histórias é parte fundamental do exercício democrático. O cinema feito na Baixada Fluminense já demonstrou que tem vigor estético, densidade temática e relevância social. O que falta não é talento; é estrutura. Não é criatividade; é acesso. Não é público; é distribuição. Talvez o maior equívoco seja continuar tratando a Baixada como margem. O que se produz aqui está no centro das questões mais urgentes do país: desigualdade, mobilidade urbana, racismo estrutural, memória, pertencimento, juventude, cultura popular. Ignorar esse cinema é ignorar uma parte vital do Brasil contemporâneo. O cinema da Baixada Fluminense não pede concessão; ele reivindica reconhecimento. Não almeja ser exceção exótica no circuito cultural; quer ser parte orgânica da paisagem audiovisual nacional. Resta que as estruturas de poder cultural, festivais, políticas públicas, crítica especializada, distribuidoras, reconheçam aquilo que os filmes da região já afirmam há tempos: há um Brasil pulsando fora do eixo tradicional. E ele está filmando a si mesmo. Cíntia Lima escreve, roteiriza, produz e pesquisa em travessia. Idealizadora e Produtora Executiva da Malice Produções Culturais, é doutoranda em Linguística (UERJ) e mestra em Cultura e Territorialidades (UFF). Atua no setor cultural desde 2010, com experiência em produção, editais, emenda parlamentar, leis de incentivo, gestão cultural, equipamentos públicos e desenvolvimento de projetos culturais. Está Gestora Cultural da Companhia Ensaio Aberto no Armazém da Utopia e é integrante da APAN, da ABRA e do BXD Filma.
- Os nós que já faziam políticas culturais na Baixada.
Texto por: Bruno Lima. Revisão: Fijó. Reunião do Conselho Municipal de Política Cultural de Duque de Caxias, em fevereiro de 2025. Foto: Reprodução // Secretaria Municipal de Cultura e Turismo - SMCT/PMDC. Ainda que a Lei Aldir Blanc, seguida pelos editais da Lei Paulo Gustavo e pela Política Nacional Aldir Blanc, tenha inaugurado um ciclo de investimentos massivos na cultura dos municípios da Baixada Fluminense, a política cultural local sempre foi exercida, moldada e conduzida pelos próprios agentes culturais do território. A ocupação da Baixada Fluminense, ampliada ao longo do século XX, foi impulsionada pelas reformas urbanas no Rio de Janeiro, que expulsaram grandes parcelas da população para as periferias. Negros libertos, migrantes de diversas regiões, sobretudo nordestinos, e trabalhadores de baixa renda foram ocupando o território de forma desordenada em busca de condições mínimas de sobrevivência (Simões, 2007). Esse movimento consolidou, por décadas, a imagem das cidades baixadenses como meros dormitórios [1] para a mão de obra da cidade do Rio de Janeiro. O Instituto Mirindiba de Ação Climática Popular reuniu a população no II Fórum Climático de Magé, com o tema "Territórios e Maretórios por Soberania Alimentar". Foto: Reprodução // Instagram: Instituto Mirindiba. A pesquisadora Luciana Lago (2010), porém, mostrou que essa história de cidade‑dormitório já vinha mudando nos últimos vinte anos do século passado. Os censos demográficos revelaram que, em 1980, 48% dos moradores da periferia metropolitana trabalhavam no próprio município onde viviam. Vinte anos depois, em 2000, esse número tinha subido para 63%. Isso significa que muita gente deixou de pegar condução todo dia para trabalhar na capital e passou a encontrar serviço mais perto de casa. Falando dessa forma a mudança parece até ser positiva, porém, quando olhamos com cuidado, o que impulsionou esse crescimento foi a expansão de uma economia informal e precária. Muitos trabalhadores ficaram nos seus municípios não por opção, mas porque não tinham qualificação ou dinheiro para bancar o transporte até os mercados de trabalho mais dinâmicos da capital. Por outro lado, também houve sim um certo crescimento econômico em alguns centros da Baixada, que ampliaram o mercado formal e conseguiram absorver parte da mão de obra local (Lago, 2010). Além disso, segundo a autora, a Baixada ficou mais desigual internamente. Em cidades como Duque de Caxias e Nova Iguaçu, por exemplo, aparecem áreas com perfil social mais elevado, outras com diversificação econômica e ainda outras onde a precarização só se aprofundou. Essa heterogeneidade mostra que esses municípios não podem mais ser reduzidos à velha ideia de cidades-dormitório. Eles se consolidaram como cidades-plenas, com suas próprias centralidades e dinâmicas internas, que vão muito além da antiga subordinação à capital. Ainda assim, quando pegamos um trem na Baixada sentimos no dia a dia as marcas dessa subordinação que não se apagou por completo, já que as linhas ferroviárias e as rodovias foram pensadas para levar a população até o Rio de Janeiro com mais facilidade do que para conectar um município baixadense ao outro. Seguindo, mesmo que antes fossem consideradas cidades-dormitório, a Baixada Fluminense nunca representou um vazio cultural. Como mencionamos, pensar a história do território é pensar em deslocamentos. Pessoas que chegaram, povos que se moveram dentro da própria região, trazendo consigo modos de vida, crenças e práticas culturais. Esses diferentes grupos se influenciaram mutuamente, suas culturas se chocaram e se rearranjaram no espaço geográfico, e o território foi ganhando aquilo que Bruno Carvalho (2018) chama de porosidade. O autor usa esse conceito para falar da cidade do Rio e sua capacidade de absorver elementos das mais variadas tradições, mesmo em meio a profundas desigualdades e segregação espacial. Esse mesmo sentido pode servir para lermos a Baixada, visto que o território baixadense também foi atravessado por múltiplas diásporas e, apesar da distribuição desigual de recursos, seguiu incorporando referências diversas com a mesma habilidade. O pensamento de Luiz Antônio Simas (2016) caminha na mesma direção quando fala que o Rio de Janeiro é feito de várias pequenas áfricas, relacionando o surgimento do samba aos fluxos da população negra na cidade. Se esticarmos esse olhar para fora da capital, a Baixada Fluminense aparece como um desses territórios de diáspora. A região periférica foi palco de redes de solidariedade que se expressaram na união dos moradores para resolver as necessidades mais urgentes. Abrir ruas, construir valas de esgoto, buscar água, criar áreas de lazer em terrenos baldios, tudo isso resultou de mutirões populares voltados ao bem comum. Esse esforço gera uma cultura local que vai se tecendo no dia a dia, passando saberes de uma geração a outra e forjando um jeito próprio de viver em sociedade, um jeito baixadense. A poetisa Natrália BXD foi campeã da edição do "Três Slams Demais", que reuniu, em Seropédica, uma edição conjunta dos movimentos "Slam da Rampa", "Slam da Seda" e "Slam Afro-afeto". Foto: Reprodução // Instagram. Portanto, mesmo diante desse ciclo de precariedade e da ausência histórica de políticas públicas, mesmo sendo consideradas cidades apenas para chegar do trabalho, dormir e acordar para pegar a condução de volta ao trabalho, a Baixada Fluminense - ou sua população - conseguia tempo livre para vivenciar e praticar cultura. O vazio deixado pelo Estado foi ocupado pelos próprios fazedores de cultura, que assumiram a bronca de formular, executar e tocar a política cultural com as próprias mãos. Mas, afinal, o que é que estou chamando de política cultural? Podemos partir da definição dada pelo antropólogo argentino García Canclini (2019), quando ele afirma que ela é mais do que uma ação governamental, ela é todo o “conjunto de intervenções realizadas [...] pelas instituições civis e pelos grupos comunitários organizados". Ou seja, as rodas de samba, os saraus nas praças, as estratégias de sobrevivência dos agentes locais, as rimas nos trens são políticas culturais na prática e nas ruas. Digo nas ruas, porque as manifestações dessa política formulada a partir da base são diversas. Por exemplo, diante da escassez de equipamentos culturais formais, uma das principais estratégias na Baixada foi a apropriação de espaços alternativos, como ruas, praças, bares e centros comunitários. Essa ação deliberada de criar locais para a prática e a fruição cultural, seja um canto específico onde todo mundo tem um conhecimento de que ali rola algo, deu origem ao que Simões (2020) denomina “aglomerados de diversão”, agrupamento de pessoas (uma rodinha) que funcionam como fluxos autônomos de produção e difusão cultural. Além dessa tática mais informal, essa movimentação também se desdobrou na criação de uma institucionalidade própria. Enne (2012) aponta que as décadas de 1980 e 1990 viram o surgimento de organizações não governamentais e centros culturais criados pelos próprios agentes para garantir a sustentabilidade de suas produções, já que muitos municípios não possuíam secretarias voltadas à cultura. Um exemplo dessas articulações é a criação do Instituto (Quilombo) Enraizados, organização da sociedade civil sem fins lucrativos que se destaca como um importante espaço cultural no bairro de Morro Agudo. O Enraizados, ao longo dos anos expandiu seu campo de atuação e se tornou um polo de diversidade cultural, acolhendo diversas manifestações culturais para além da cultura hip-hop, seu mote inicial. Dudu de Morro Agudo, rapper, MC e fundador do Quilombo Enraizados, e Juliana França, atriz, mestra em Filosofia e coordenadora do Grupo Código, de Japeri. Foto: Acervo - Festival Caleidoscópio: Mylena Braga. Muitos desses coletivos, como mostram Aguiar e Schaun (2010), funcionam numa lógica que mistura o local e o global. Eles estão ao mesmo tempo conectados com o mundo inteiro e fincados nas questões do seu próprio território. O Quilombo Enraizados continua sendo um bom exemplo, pois utiliza as redes sociais para trocar ideias com artistas e movimentos de vários países, o que se ampliou no pós pandemia, mas sua produção cultural segue profundamente ligada às vivências e à realidade da Baixada Fluminense. Em suma, o que se desenhou nos últimos anos foi um cenário em que a experiência acumulada pelos agentes culturais locais encontrou finalmente o amparo do Estado. Como vivenciamos enquanto baixadenses, a política cultural aqui não começou com a Lei Aldir Blanc em 2020. Aqueles que cansaram de se deslocar até o centro do Rio, cansados de gastar horas em trem e ônibus para ter acesso à produção cultural, contribuíram para o fazer das políticas culturais no território, criando seus próprios espaços e eventos nas frestas da Baixada. O que começou naquele ano foi uma atuação mais efetiva das prefeituras - para além da promoção de eventos isolados - que pode ter contribuído ou não para impulsionar o que já vinha sendo tecido há décadas. O “Nós” do título deste texto refere-se aos laços comunitários, às redes de solidariedade e às articulações informais que foram as amarras que sustentaram a cultura no território. Também diz muito sobre os agentes culturais, os “é nós” da vida, que acima de qualquer edital, sempre estiveram no centro da cena com sua inventividade para saídas onde o poder público não chegava. Evento gratuito debateu políticas culturais da Baixada Fluminense, em 2024. Foto: Reprodução // Hora H. Agora que o Estado começou a aparecer nos últimos cinco ou seis anos, o grande nó a ser desatado é como fazer com que os investimentos públicos potencializem os laços já existentes sem rompê-los, e garantir que os agentes culturais, enquanto sociedade civil, continuem no comando, seja através das participações nos conselhos, nas escutas ativas e também no recebimento dos recursos. A Baixada já mostrou que sabe fazer cultura na adversidade, agora os trabalhadores da cultura precisam participar das formulações, junto ao poder público, para que a política pública de cultura seja feita com a diversidade que marca os caminhos da BXD. [1] Praticamente todas os municípios da Baixada em dado momento serviram, tipicamente, de moradia a trabalhadores/as da cidade do Rio de Janeiro, porém tal conceito, hoje, não é mais utilizado, pois esvazia as cidades de sentido, como se nelas nada ocorresse além do descanso; e com as demandas históricas por saneamento começando a ser atendidas no final do século XX, a periferia se complexificou, passando a ser habitada por outras classes e a possuir uma dinâmica interna de bens e serviços. Refs de Cria: AGUIAR, Leonel.; SCHAUN, Angela. Híbrido glocal, ciberativismo e tecnologias da informação. Polêm!Ca, [S. l.], v. 9, n. 4, p. 130 a 147, 2010. CARVALHO, Bruno. Cidade porosa: dois séculos de história cultural do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2019. ENNE, Ana Lucia. Em “busca de dias melhores”: cultura e política como práticas institucionais na Baixada Fluminense. Rumores, ed.12, ano 6, N. 2, p. 170-193, julho dezembro, 2012. GARCÍA CANCLINI, Néstor. Políticas culturais e crise de desenvolvimento: um balanço latino-americano. In: ROCHA, R.; BRIZUELA, J. I. (org.). Política cultural: conceito, trajetória e reflexões - Néstor García Canclini. Salvador: EDUFBA, p. 45-86, 2019. LAGO, Luciana Corrêa do. A "periferia" metropolitana como lugar do trabalho: da cidade-dormitório à cidade plena. In: LAGO, Luciana Corrêa do (Org.). Economia, sociedade e território: olhares sobre a metrópole do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2010. SIMAS, Luiz Antônio. Dos arredores da Praça Onze aos terreiros de Oswaldo Cruz: uma cidade de Pequenas Áfricas. Revista Z Cultural, Rio de Janeiro, ano XI, n. 1, 2016. SIMÕES, Manoel Ricardo. A Cidade Estilhaçada: reestruturação econômica e emancipações municipais na Baixada Fluminense. Mesquita: Entorno, 2007. SIMÕES, Manoel Ricardo. Uso do tempo livre e distribuição espacial dos equipamentos e manifestações culturais na metrópole carioca. Em: ROCHA, A. S. (Org.). Baixada Fluminense: estudos contemporâneos e (re)descobertas histórico-geográficas. Duque de Caxias: ASAMIH, 2020. Bruno Lima é japeriense, vascaíno, doutorando em Economia pela UFF e mestre pela PUC-SP, com bolsa da CAPES. Membro do Observatório Baixada Cultural (OBAC), pesquisa políticas públicas de cultura, Lei Aldir Blanc, economia criativa, carnaval e cultura popular na Baixada. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa e professor substituto na UFRRJ.
- NOTA PÚBLICA DA EQUIPE DE COLUNISTAS DO COLETIVO BXD IN CENA.
A equipe de colunistas do BXD IN CENA repudia o descaso das distribuidoras de energia elétrica nos bairros e municípios da Baixada Fluminense após o vendaval da última quarta-feira (29/07). Moradores da BXD chegaram a ficar sem energia até o domingo, dia 2 de agosto, totalizando quase 70 horas sem luz. Estamos prestes a viver uma emergência climática com o super El Niño. Quando outras ondas fortes de vento e calor atingirem a Baixada, seremos sempre os últimos a ser atendidos? Um trabalhador da Zona Sul ou da Zona Norte tem mais importância do que os nossos? Imagem: Reprodução // Instagram: Nova Iguaçu da Depressão. Imagem: Reprodução // Instagram: Belford Roxo: Um Grito de Socorro. A falta de arborização e manutenção dos poucos espaços arborizados que temos, o calor intenso durante o verão com sensações térmicas acima da capacidade humanamente suportável, a insuficiência da capacidade do saneamento básico e a poluição em nossas ruas e rios deixam claro que não será a primeira nem a última vez que sofreremos consequências prolongadas de desastres já previstos meteorologicamente. Margens do Rio Botas, Comendador Soares. Foto: Acervo - Ana Beatriz Bilheiro. Queremos deixar claro que nosso repúdio não é aos funcionários na rua, mas sim ao tratamento desigual que a Baixada sempre recebe - especialmente se compararmos o tratamento dado à zona sul do RJ e o descaso com a Baixada. Não é normal nem aceitável deixar pessoas mais de 70 horas sem luz, como aconteceu em São João de Meriti. Imagem: Reprodução // Instagram: Nova Iguaçu da Depressão. Imagem: Reprodução // Instagram: AGORA MERITI. Poderíamos listar todos os problemas básicos ou lembrar que muitos nem previsão de retorno tinham, mas o que nos revolta é o descaso e a forma como relativizam todo o caos que acontece na Baixada. E a obrigatoriedade de que as pessoas do nosso território apenas “sigam a vida” e continuem trabalhando como se não fossem afetadas financeira e emocionalmente. É da saúde física e mental de nossos companheiros de território que estamos falando aqui. Pessoas que têm famílias para sustentar, uma vida para dar conta e precisam lidar não só com os efeitos desse caos recente, mas dos problemas diários que assolam nosso território. Matéria sobre os impactos das alterações climáticas, ressaltando para além do físico os impactos na saúde mental. Imagem: Reprodução // O Tempo - Saúde e Bem-estar. Não é só ficar no escuro. É perder comida comprada com sacrifício, remédio estragando porque precisa da geladeira funcionando, idosos e pessoas acamadas sofrendo no calor. É o comércio local amargando um sério prejuízo, os problemas de (in)segurança pública para o povo que, além de depender do transporte público escasso para voltar para casa, ainda precisa andar no escuro pelas ruas, sujeito à todo tipo de violência. Esperamos que, agora com a situação resolvida, as equipes se preparem para casos assim e não deixem a BXD às escuras novamente e abandonados no meio de todos os problemas. EQUIPE DE COLUNISTAS DO COLETIVO BXD IN CENA.
- E se a BXD entrasse em greve?
Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Saída da Rodovia Presidente Dutra para Agostinho Porto, São João de Meriti. Foto: Reprodução // Wikipedia. No penúltimo dia de junho, segunda-feira, 29, os motoristas de ônibus da cidade do Rio de Janeiro iniciaram uma greve reivindicando melhores condições de trabalho, salários mais justos e o fim de contratos temporários para a transição ao regime CLT. Todo apoio aos grevistas. Essa movimentação é importante até para entendermos como o transporte está sucateado, inclusive para os seus colaboradores. Para os que não lembram, também era dia de jogo da Seleção Brasileira contra o Japão pelos 16-avos de final da Copa do Mundo. Decidi assistir à partida com duas pessoas próximas, pela energia e pela alegria do momento. Uma delas mora em Queimados; a outra, em Olaria. Eu, que moro em São João de Meriti, não senti dificuldades para chegar ao local marcado, em Del Castilho. A pessoa que mora em Queimados também não teve a sua rota atrapalhada. Mas a que mora em Olaria teve o trajeto totalmente comprometido. É claro que, quando digo que não senti dificuldades, é porque já estou acostumado a andar 10 minutos até o ponto de ônibus mais próximo, esperar 20 minutos ou mais para pegar a primeira condução e andar mais 10 minutos até a estação de metrô mais próxima: a Pavuna. A pessoa de Queimados também enfrentou os percalços de pegar a van, a demora para sair, a chegada à Central e a volta em sentido a Del Castilho. Mas nada que estivesse fora da nossa rotina. A Baixada Fluminense abriga aproximadamente 22% da população total do Estado do Rio de Janeiro. Seis de suas cidades possuem índices de pessoas que trabalham fora de seu município de origem próximos ou superiores a 50% de acordo com dados do último Censo do IBGE (2022). Rodovia Washington Luís, na altura de Duque de Caxias. Foto: Reprodução // Estefan Radovicz. É justo pontuar que, nessa porcentagem de pessoas que trabalham fora da BXD, nem todas vão diretamente para a capital. No entanto, os mesmos dados mostram a porcentagem por município de quem trabalha especificamente no Rio e, mesmo assim, a Baixada lidera. Enquanto comemorava a vitória do Brasil de virada contra o Japão, me peguei pensando: e se a BXD parasse em greve? E se cruzássemos os braços pelas condições precárias dos trens, pela superlotação do metrô, pelos ônibus cheios e com intervalos imprevisíveis, pela falta de banheiros decentes nas principais estações, pelo preço absurdo da passagem e pelo tempo de deslocamento? Nossas condições para chegar ao Centro, por exemplo, já são sofríveis. Talvez quem veja de fora pense que a solução seria apenas trabalhar na própria BXD, não sair do município e se manter circulando pela região. Essa poderia ser uma boa alternativa se o mercado não fosse tão centralizado, atraindo para a cidade do Rio de Janeiro a maior parte da mão de obra e dos empregos com condições mais dignas. Mas nós não queremos nos isolar; queremos integrar e participar. Como os empregos estão concentrados no Rio, a Baixada inteira se desloca nos mesmos horários. O resultado? Trens e estradas entupidos na hora de ir trabalhar. Um sistema caro, ineficiente e que cobra o preço na saúde física e mental da população (Silva; Melo, 2020). E se a BXD reivindicar sua condição, não apenas como cidade-dormitório, mas pela dignidade que merecemos? O metrô na Baixada que nunca saiu do papel, ramais ferroviários em melhores condições e com intervalos menores, e até mesmo uma integração real com o Corredor TransBrasil do BRT. Chega de fazer com que nossa mão de obra seja necessária na Capital, enquanto somos penalizados com o cansaço diário de uma mobilidade distante. Uma greve na BXD não seria apenas cruzar os braços; seria desligar os motores da Capital. Se os 24,2% de representação que temos na ALERJ passassem uma única semana dependendo do ramal de Gramacho ou cruzando a passarela de Sarapuí em dia de chuva, o metrô da Baixada já teria saído do papel há décadas. A pré-campanha já começou. Eles vão vir aqui pedir o seu voto. Mas e se tivessem que negociar com a gente, nos atenderiam? Todo apoio aos camaradas motoristas. Início das obras do Trevo das Margaridas no começo de agosto de 2025. Foto: Rafael Catarcione/Prefeitura do Rio de Janeiro. Refs de Cria: [1] Censo IBGE 2022. https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/index.html?localidade=BR. Acesso em: 07 jul. 2026. [2] DA SILVA, Carlos Daniel Santos; MELO, Thadeu André. Mobilidade urbana: perspectivas, avanços e desafios na Baixada Fluminense. ANTP-Associação Nacional de Transportes Públicos, 2020. Disponível em: https://files.antp.org.br/2019/10/11/2019.10.10_comunicaotecnica_thadeu-andre-e-carlos-daniel_modif.pdf. Acesso em: 07 jul. 2026. Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.
- Feiras livres, culturas vivas.
Texto por: Jéz. Revisão: Fijó. Feira de Areia Branca, Belford Roxo. Foto: Acervo - Jéz. Certa vez, conversando com Heraldo HB, um dos fundadores do Cineclube Mate com Angu, bem em frente ao Espaço Cultural BXD IN CENA, comentei sobre uma coincidência que nunca saiu da minha cabeça: quase todo espaço cultural da Baixada Fluminense parece ter uma feira livre por perto. Desde então, passei a enxergar as feiras como um dos maiores movimentos populares de encontro e troca cultural que existem por aqui. Todo domingo eu tenho um ritual: vou à feira. E não é só por causa do pastel, do caldo de cana ou dos garimpos de vinis, CDs, fitas K7 e objetos antigos. A feira, para mim, tem algo de ancestral. É um espaço onde gosto de caminhar sem pressa, observando os detalhes: a alegria de quem vende, o jeito de anunciar os preços em voz alta, a criatividade das barracas, as cores, os cheiros e os sons. Tudo ali parece formar uma grande orquestra popular. E não fico preso a uma feira só. Gosto de conhecer as feiras da BXD como quem visita diferentes centros culturais. Às vezes vou à Feira de Areia Branca, em Belford Roxo. Outras vezes estou na tradicional Feira de Caxias, que praticamente se divide em três. Também frequento a Feira do Jardim Metrópole, em São João de Meriti, que fica pertinho da minha casa, já visitei a de Nilópolis e ainda quero conhecer muitas outras espalhadas pelos municípios da nossa região. Voltando à conversa sobre os espaços culturais, comecei a perceber que essa relação entre cultura e feira talvez não seja coincidência. Perto do Gomeia Galpão Criativo está um dos melhores lugares para garimpar antiguidades: a Feira de Caxias. Ao lado do Espaço BiC acontece, todas as quintas-feiras, a Feira de Coelho da Rocha. Próximo ao Instituto Enraizados está a Feira de Morro Agudo. E perto do Centro Cultural Donana encontramos a feira de Areia Branca que, por causa das obras na região, tem mudado de lugar algumas vezes, mas continua fazendo parte da paisagem e da vida daquele território. Quando a gente pensa em feira livre, normalmente lembra das frutas, das verduras, do pastel e da conversa com o feirante. Mas elas são muito mais do que isso. Feira de Duque de Caxias. Foto: Acervo - Jéz. As feiras da Baixada Fluminense fazem parte da nossa história. Movimentam a economia dos bairros, ajudam pequenos produtores e comerciantes a garantirem sua renda e criam um espaço onde as pessoas se encontram, trocam experiências e mantêm vivas tradições que atravessam gerações. Mesmo com o crescimento dos supermercados e das grandes redes varejistas, as feiras continuam resistindo. Elas fortalecem a agricultura familiar, valorizam o comércio local e mostram que existe outra forma de consumir: mais próxima de quem produz, mais próxima do território e das pessoas. Na Baixada, a feira também é um espaço de memória. É o jeito de falar, os pregões dos vendedores, os cheiros das comidas, as receitas, os encontros de domingo e as histórias contadas entre uma barraca e outra. Tudo isso ajuda a construir a identidade baixadense. Talvez seja justamente por isso que tantas feiras e tantos espaços culturais caminhem lado a lado. Ambos são lugares onde a cultura acontece de forma espontânea. Onde as pessoas se encontram, criam vínculos, compartilham saberes e mantêm viva a memória do nosso povo. Defender uma feira livre é, de certa forma, defender também a cultura da Baixada Fluminense. Feira do Jardim Metrópole, São João de Meriti. Foto: Acervo - Jéz. Cria da Vila Ruth, em São João de Meriti (RJ), Jéz é produtor cultural, artista, músico e pesquisador entusiasta da Baixada Fluminense. Está à frente do BXD IN CENA, projeto do qual é diretor, além de atuar como gestor do Espaço BXD IN CENA e diretor do Prêmio BXD IN CENA. Também articulou, ao lado de outros coletivos da região, a iniciativa Baixada [R]existe, fortalecendo redes de colaboração e valorização da produção cultural baixadense. Seu trabalho é dedicado à preservação da memória, ao fortalecimento da cultura popular e à criação de espaços de encontro para artistas e fazedores de cultura da Baixada Fluminense.
- Das ondas do mar no Leblon às ondas de calor na BXD: sobre El Niño e racismo ambiental.
Texto por: Anabia. Revisão: Fijó. Modelos climáticos indicam possível Super El Niño no final de 2026. Foto: Reprodução // UFMG. Há meses os noticiários anunciam a chegada do fenômeno climático “El Niño” no segundo semestre de 2026, podendo se estender até o começo de 2027. O fenômeno pode ter como consequência tanto o aumento das ondas de calor quanto a expectativa para chuvas fortes no centro-sul do Brasil. Dentre os locais possivelmente afetados, os 13 municípios presentes na Baixada Fluminense podem sofrer os impactos de forma mais agravada pela falta de preparo governamental. Por isso, é importante questionar como as cúpulas municipais têm se preparado para mitigar os efeitos do fenômeno avisado há meses. Quais são as estratégias? Elas existem? O El Niño é um fenômeno climático que ocorre naturalmente e consiste no aquecimento das águas marítimas superficiais do oceano Pacífico equatorial, provocando mudanças gerais no clima do Brasil. Sua previsão de chegada é entre julho e agosto (inverno brasileiro) e pode permanecer até o verão, época já conhecida por suas chuvas de verão na região Sudeste. As chuvas de verão, ou de convecção, ocorrem quando o sol esquenta intensamente o solo e o ar próximo a ele se torna menos denso e sobe. A partir disso, ele se resfria e forma nuvens carregadas que se transformam em chuvas fortes em pouco tempo. Esse acúmulo de grande quantidade de chuva em um período curto gera desdobramentos como bolsões d’água, inundações, desabamentos etc. Com o El Niño, a tendência é que essas precipitações possam acontecer de forma mais intensa na região Sudeste, assim como as chamadas “ondas de calor”, fenômeno em que a temperatura fica mais de 5ºC acima da média histórica mensal durante mais de 5 dias e leva a desidratação, mal estar coletivo etc. O fenômeno vai gerar mudanças em todo o país e a população sentirá os efeitos na pele, entretanto, alguns lugares serão mais afetados que outros. Por quê? Quando pegamos um metrô na Pavuna para chegarmos à feira da Glória no domingo ou quando vamos à praia no Leme em um dia de sol, notamos a mudança da paisagem entre Baixada e Zona Sul. Seja no Leme, na Glória, no Leblon, as ruas planejadas e arborizadas contrastam com o asfalto duro presente na Zona Norte, Oeste e na Baixada Fluminense. O planejamento urbano é, também, qualidade de vida e se reflete no lazer, na saúde e, nesse ponto, em como as consequências de um fenômeno natural chegarão a cada um desses bairros. Quando as ondas de calor chegarem ao Rio de Janeiro, a população do Flamengo terá uma área de amortecimento climático, ou seja, as árvores farão com que o impacto da temperatura seja menos intenso. Cerâmica, Nova Iguaçu. 2026. Foto: Acervo - Ana Beatriz Bilheiro. Mas as ruas da Cerâmica, em Nova Iguaçu, não contam com a mesma sorte. O asfalto mantém o calor por mais tempo, a ausência de sombra projetada aumenta a sensação de calor e, assim, 40 °C parecem 45 °C nesse ponto do Estado. Isso é um reflexo do que o teórico Benjamin Franklin Chavis Jr. (1980) cunhou como racismo ambiental, que se refere à desproporcionalidade entre a exposição de populações racializadas a situações de injustiça climática. Claro que as mudanças climáticas afetam todas as pessoas, mas é notório que elas afetam de formas desproporcionais quem mora no Leblon e quem mora em Belford Roxo, por exemplo. E essa diferença se dá por uma questão de raça e classe, pois quem decide sobre o futuro do Estado não é quem vive a periferia dele. Ou seja, quem possui o poder de mitigar os efeitos climáticos na Baixada Fluminense nem conhece as ruas desses municípios. Morro Agudo, Nova Iguaçu (margens do Rio Botas). 2025. Foto: Acervo - Ana Beatriz Bilheiro. Para além do calor excessivo, outro ponto agravado pelo El Niño são as fortes chuvas que ocorrem durante o verão fluminense. Todo ano, entre dezembro e março, a população da Baixada passa por meses de agonia com medo de perder sua casa, seus móveis, sua vida. Se esse é um retrato de algo que ocorre cotidianamente, como os municípios não possuem planos de manejo para prevenção das inundações? Entre 2021 e 2026, aconteceram diversas enchentes nas cidades da Baixada em que a população perdeu o que levou anos para conseguir comprar. O estado de normalidade se torna a tensão, a angústia em dias de chuva já que os rios poluídos não são desassoreados, não há mata ciliar para absorver parte da água das precipitações, a coleta não é feita da maneira correta. As decisões tomadas – ou a falta delas– pelo Estado, colocam em risco populações inteiras, seja por doenças, por afogamento, por desabamento. E não é coincidência que as partes mais afetadas por essas inundações sejam espaços com maior quantidade de população pobre e negra, isso é exatamente o que o conceito de Racismo Ambiental tenta alertar. Há uma escolha sendo feita, a de que vidas importam mais. De quais locais merecem mais investimento. Não é coincidência que não haja planejamento urbano na Baixada Fluminense e a tentativa de culpabilizar a população não isenta a responsabilidade de quem tem a caneta para assinar projetos de mudanças reais na vida cotidiana. Com a chegada do El Niño, é importante que nos perguntemos o que políticos eleitos pela população tem feito para melhorar a vida de quem votou neles. Se o Projeto Iguaçu, que visa a drenagem e recuperação ambiental dos rios Iguaçu-Botas e Sarapuí, será colocado em prática. Os municípios da Baixada possuem uma cartografia que contabilize as áreas de risco e as necessidades de manejo atuais? Para além de coleta de resíduos e desassoreamento, quais são as práticas de mitigação que as prefeituras e o Governo do Estado têm tido visando a melhora ambiental? Quais são os planos para áreas de amortecimento climáticos? É necessário que a população cobre dos representantes do povo para que as necessidades dos municípios sejam atendidas. Não se pode esperar que as inundações cheguem e que, após isso, o Estado libere verba para os afetados, pois sabemos que a quantia em dinheiro não paga o sofrimento emocional, a dignidade e nem mesmo os bens materiais que foram perdidos nas chuvas. As eleições chegam esse ano e nós, que somos da Baixada, devemos pensar quem representa os nossos interesses seja na Câmara, no Governo ou na Presidência. Qual político tomará decisões que diminuirão as injustiças ambientais vividas pela nossa população. Laranjeiras, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, 2025. Foto: Acervo - Ana Beatriz Bilheiro. Refs de Cria: BRASIL. Instituto Nacional de Meteorologia. El niño está de volta: as condições do fenômeno El Niño já estão presentes e espera-se que o fenômeno persista até o final do verão austral 2026/2027. Ministério da Agricultura e Pecuária, 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-ni%C3%B1o-est%C3%A1-de-volta Acesso em: 11 de junho de 2026. Chuvas de verão: por que acontecem e como entender o fenômeno. RPC, Rede Globo. 04 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://redeglobo.globo.com/rpc/verao-rpc/noticia/chuvas-de-verao-por-que-acontecem-e-como-entender-o-fenomeno.ghtml Acesso em: 11 de junho de 2026. ONU alerta para retorno do El Niño e aumento do risco de eventos climáticos extremos. Redação G1, 02 de junho de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/06/02/onu-alerta-para-retorno-do-el-nino-e-aumento-do-risco-de-eventos-climaticos-extremos.ghtml Acesso em: 11 de junho de 2026. Ana Beatriz Bilheiro é moradora de Nova Iguaçu, formada como Guia de Turismo Regional e cursa bacharelado e licenciatura em Artes Visuais. Na prática artística, desenvolve trabalhos sobre os rastros que permanecem após desastres ambientais na Baixada e a paisagem local.
- Como se tornar uma PhD se você nasceu na Baixada Fluminense: um relato de experiência.
Texto por: Mariana Belize. Revisão: Fijó. "Catástrofes. Somos feitos delas." Ronaldo Lima Lins Ponto de ônibus em Belford Roxo, conhecida como "a cidade do Amor". Foto: Reprodução // Cléber Júnior - Agência O Globo. Em primeiro lugar, você precisa encarar a sua família. A mãe que deseja para você "um futuro melhor" desde que envolva riqueza e poder. O pai que só te vê de 15 em 15 dias porque foi forçado pela decisão de um juiz, mas acha que você deveria ser militar "porque te daria estabilidade mesmo que você não seja tão inteligente" e tenha que passar a vida inteira batendo continência para homens corruptos que causam o atraso do país diariamente. Os avós que querem que você, já que nasceu mulher infelizmente, pelo menos aprenda a cozinhar, se case e tenha filhos. Muitos. E que seu currículo seja um pano de prato no ombro. Logo depois, você vai ter que virar as costas para eles. De vez. Pagar o preço de não aceitar a sabotagem dos seus planos através de manipulações emocionais e pressão psicológica. Ser a mal falada, sempre considerada a "arrogante" por exercer seu direito de discordar das tradições da família, ser taxada de ser "do contra" por escolher caminhar na contramão da família. A bruxa que abandonou a Igreja Católica e resolveu ser da umbanda. A p*t4 que foi parida. O fantasma da família. Você será aquela que ninguém vai ligar pra saber se está viva. Mas ligarão para avisar dos enterros e sutilmente fazer com que você se sinta culpada por algo que aconteceu há dez anos atrás. Você vai ter que estudar mais do que a escola exigir. Vai ter que pesquisar e ler mais do que a escola, pública ou particular, vai te dar como conteúdo. Isso inclui ser diferente dos outros, sofrer bullying, ser isolado da turma e ser chamado de nerd, como se isso fosse uma ofensa. Você não terá namorados, não será popular, não será chamada para as festas, e vai ser considerada feia. Que ótimo. Agora você não tem vida social, mas tem tempo para ler e estudar mais. Após anos de solidão e incompreensão, passe no Enem de primeira e não seja reconhecida. Escolha uma universidade da sua região, não uma que seja mais famosa. Escolha o curso que você quer fazer e não o que a sua mãe disse que ficaria orgulhosa: Direito. Pague com a alma. Não vá às choppadas, concentre-se, apaixone-se pelo seu curso, continue estudando. Veja suas companheiras de curso se casarem e abandonarem a universidade, veja as inimigas se casarem também e largarem seus sonhos pelo caminho. Veja os homens de todos os cursos criarem um grupo no Facebook com as calouras e dividi-las entre si antes do ano letivo começar. Seja feminista e contra o trote vexatório. Isso vai te isolar ainda mais. Você será vista como uma mulher agressiva e perigosa. As moças se afastarão de você. Os homens debocharão da sua militância. Você continuará sozinha se não abrir mão dos seus princípios. E novamente pagará o preço. Estude mais. Escolha o caminho intelectual mais difícil. Veja seus professores simplificarem as aulas, inferindo que alunos da Baixada "não conseguiriam compreender a profundidade filosófica do assunto x". Não aceite ser tratada dessa forma. Estude mais. Leia mais. Escreva mais. Deseje ser mais do que os professores te dizem que você pode ser. Vá além. Leia o que eles leem. Faça perguntas. Entre para um grupo de pesquisa. Desenvolva um projeto ambicioso. Tenha grandes sonhos. E seja sabotada por um homem pela primeira vez. Administre os problemas em casa estudando ainda mais. Veja como alguns professores desprezam seu pensamento, seu poder de invenção e sua indignação. Veja a universidade desprezar os Centros Acadêmicos que sejam combativos. Veja os alunos mais indignados serem desprezados solenemente. Veja a universidade favorecer os quietos, os falsos e os puxa-sacos. Continue estudando, mesmo que a sua saúde mental decline e se torne ainda pior a cada dia. Perca a fome. Emagreça mais ainda e seja parabenizada. Veja os caras dos outros cursos competindo religiosamente, a cada semestre, para abusar de calouras durante todos os seus anos de estudo. Veja as calouras desistirem de seus respectivos cursos, destruídas emocional e fisicamente. Veja os vídeos íntimos delas se espalharem pela universidade. Veja-as voltarem para casa e não retornarem ao curso. Veja outras irem parar no hospital. Veja todas elas serem transformadas em menos que seres humanos. Veja os homens se formarem e ensinar aos novos alunos as suas táticas. Tente avisar às calouras todos os semestres e seja sumariamente ignorada. Se apaixone. Seja enganada e passe vergonha em público. Escreva seu TCC sozinha em meio ao barulho das discussões familiares. Seja sabotada, mais uma vez, por um homem. Talvez seja culpa sua dessa vez. Veja colocarem a culpa na sua personalidade difícil, seja chamada de louca pelas costas. Veja sua revolta ser tratada com condescendência ou pior, com desprezo. Entregue seu TCC sozinha. Às pressas. Se forme depois do prazo. Sem festa de formatura. Seja desprezado pela própria instituição que nunca ofereceu suporte eficiente para que você permanecesse de forma saudável na universidade. Vá à caçada de uma vaga no mestrado de uma instituição bastante elitista. Sim, é uma espécie de caçada. Ache um outro orientador. Seja testada nas aulas. Seja testada por todos. Sofra preconceito por morar na Baixada. Seja comparada a uma barata. Seja comparada a um rato. Receba uma bolsa que não arca com todos os custos da sua pesquisa. Escreva. Pesquise. Leia. Passe mais tempo na universidade do que na sua casa. Faça relatórios. Assista às aulas. Mantenha a bolsa. Tire apenas A. Não discuta com os professores que fazem comentários preconceituosos. Comporte-se. Tente se vestir melhor. Escreva. Revise. Leia. Escreva mais. Sorria ou seja taxada de ranzinza. Não fale de forma assertiva ou vão dizer que você é grossa. Se atualize na área. Tente fazer contatos com pessoas que vivem uma vida completamente diferente da sua. Tente conversar com quem não sabe onde fica Belford Roxo. Tente conversar numa boa com quem acha que a Baixada Fluminense é um bairro só. Veja seu ônibus vir de uma em uma hora. Veja o Copacabana passar de cinco em cinco minutos. Leia mais. Escreva. Faça relatórios. Congressos. Fóruns. Simpósios. Organizações. Contas a pagar. Casa para manter. Talvez a essa altura você já tenha um casamento falido com um cônjuge que te chama de "palestrinha" e que mina a sua auto-estima diariamente. Seja usada e desprezada enquanto você escreve, pesquisa, revisa e lê. E veja seu esforço não ser considerado um trabalho sério. Separe do cônjuge e seja mal falada por sua família. Por seus amigos. Pegue seu diploma. E agora vá à caçada de uma vaga no doutorado. Tenha um projeto inédito no Brasil. Seja sabotada pela banca. Fique em quarto lugar e veja a bolsa ir para o aluno que é medíocre, mas bem relacionado. Novamente assista os puxa-sacos abrirem mão de opiniões e personalidades para conseguirem um espaço aqui e ali. Seja sabotada nas etapas do doutorado. Entre, mas em último lugar. Entre, mas sem bolsa. Entre, mas saiba que , mais uma vez, sozinha. Entre, mas sem sobrenome. Seja tratada como inferior pelos outros. Pegue três ônibus e um trem lotado. Carregue livros da biblioteca na mochila pesada para casa por não ter dinheiro para comprá-los. Seja humilhada pelos filhos de Ipanema e seus cargos sem mérito. Seja escorraçada pelos filhos do Leblon e suas viagens de intercâmbio, seus certificados do Goethe Institut e Aliança Francesa. Seus Toefls e anos sábaticos em Paris. Estude mais. Escreva, pesquise. É o mesmo roteiro. Mas agora viva uma crise mundial sem precedentes. Uma pandemia. Quatro anos de governo de extrema-direita. Nesse meio tempo, cultive sua consciência política. Cultive ainda mais sua consciência de classe. Mas isso não vai te salvar. Faça terapia. Talvez ajude, mas apenas se a sua terapeuta também tiver consciência de classe. E não se esqueça de que, morando em Belford Roxo, você deve levantar os móveis, os livros, o armário, o colchão. Porque você ainda vai ter que sobreviver às enchentes e a um prefeito que, ao perder a eleição, vai depenar a sua cidade como a um frango. Mas persista. Veja os seus vizinhos fazerem pilhas de móveis e geladeiras e fogões perdidos nas enchentes. Veja as pessoas com água no pescoço, doentes após as enchentes e sem atendimento de qualidade. Veja os números horríveis da criminalidade. Veja os homens e mulheres dormindo na rua, solitários e famintos, porque o prefeito da sua cidade não acredita em Direitos Humanos. Mas persista. Escreva, pesquise, releia. Revise seu texto. Leia 768 páginas de O ser e o nada. E depois, veja a desconfiança no olhar das pessoas na universidade que desacreditam na sua capacidade de reflexão e crítica só por causa do local onde você mora. Não faça perguntas. Perceba quem são os enfeites da instituição. Persista mesmo sozinha. Sozinha num casamento. Sozinha na família. Siga nem que seja por pura teimosia. Quatro anos depois, marque a defesa da tese e sobreviva até lá. E, no dia da defesa, tire forças de onde não tem mais, defenda a sua tese com unhas e dentes. Seja a banca de si mesma. Depois de quatro horas de defesa, exausta, se lembre: parabéns, você é uma doutora. Mas sem sobrenome. Sem herança. Sem contatos. Morando no fim do mundo. Uma mulher exausta desde os quinze anos. Olhe ao seu redor e veja as ruínas. Prepare-se. O julgamento não irá acabar: "Por que não arrumou um emprego de verdade…?" Mariana Belize é doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Nascida em São João de Meriti, moradora de Belford Roxo durante sete anos. Atualmente mora na cidade natal, São João de Meriti e faz trabalho voluntário na Rede Emancipa, em Santa Maria, na cidade de Belford Roxo. Criou o Projeto Literário Olho de Belize em 2015. O projeto está em processo de reformulação.
- Leucenas: O perigo oculto no Horto de Queimados.
Texto por: Alan Santana. Revisão: Fijó. O Horto Municipal Luiz Gonzaga de Macedo foi criado em 2011 como Área de Proteção Ambiental para preservar a Mata Atlântica e os mananciais da região. Foto: Acervo — Alan Santana. Durante uma breve caminhada pelo Horto Municipal Luiz Gonzaga de Macedo, a APA (Área de Proteção Ambiental) que fica na Baixada Fluminense e ocupa mais de 73 mil m² de mata e trilhas dá para notar, além das mudas nativas e do muito verde, um problema que já vinha aparecendo nos terrenos ao redor: as leucenas (Leucaena leucocephala). É uma planta de fora do nosso Bioma da Mata Atlântica que cresce de um jeito assustador, aguenta condições bem hostis e se espalha numa velocidade impressionante. Não é à toa que ela está entre as 100 piores espécies invasoras do mundo, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), uma lista que reúne espécies com histórico comprovado de causar estrago fora do lugar onde nasceram. Uma ideia bem-intencionada, décadas atrás A leucena veio da América Central e do México e chegou ao Brasil na década de 1940, trazida como opção de alimento para o gado. Ela aguenta solo pobre e clima difícil, se regenera fácil e cresce rápido, características que fizeram dela uma aposta atraente para pecuária, principalmente no semiárido nordestino. Ela é uma leguminosa da família (Fabaceae), a mesma do feijão preto, tão presente na casa de qualquer brasileiro. Como toda leguminosa, ela enriquece o solo com nitrogênio, nutriente essencial para as plantas graças a uma parceria natural com bactérias do solo. Estudos mostram que ela pode fixar até 400 kg desse nutriente por hectare por ano. Por isso, além da pecuária, ela também virou opção usada por décadas em projetos de recuperação de terrenos degradados. A leucena, espécie invasora que ameaça a Mata Atlântica, foi trazida ao Brasil na década de 1940 para alimentar o gado. Hoje, cresce rápido e se espalha pelo Horto Municipal de Queimados, onde compromete a vegetação nativa. Foto: Acervo — Alan Santana. O problema é que o conhecimento acumulado nas décadas seguintes mostrou o outro lado dessa aposta: parte da literatura especializada hoje trata a introdução da leucena no país como uma decisão precipitada, tomada sem considerar o risco de ela se tornar uma invasora fora do seu ambiente original. Uma “chuva de sementes” literalmente O que torna a leucena especialmente perigosa é sua capacidade de se reproduzir. Uma única planta, ainda nova, já produz milhões de sementes guardadas em vagens, o que especialistas chamam de uma verdadeira “chuva de sementes” quando essas vagens se abrem. Essas sementes têm uma casca resistente que atrasa a germinação logo depois de caírem no chão. Na prática, isso significa que elas não brotam todas de uma vez, ficam acumuladas no solo, guardadas, prontas pra brotar por anos, mesmo depois que as árvores adultas já foram cortadas. E a dispersão não é só por gravidade: aves e formigas carregam essas sementes pra bem longe da árvore original. A leucena se reproduz com milhões de sementes, que se acumulam no solo e são dispersas por aves e formigas. O que era solução virou problema: hoje a espécie ameaça a vegetação nativa da Baixada. Foto: Acervo — Alan Santana. O que se observa dentro da APA No Horto, além de plantas isoladas que nasceram por conta própria, existe uma verdadeira floresta dessa espécie bem perto do galpão de coleta seletiva, dentro dos limites da própria APA. Isso preocupa, porque a Lei Municipal nº 1.042/11 de 27 de maio de 2011, que criou a APA Horto Municipal Luiz Gonzaga de Macedo, tem como objetivo proteger a mata e a qualidade da água que abastece a Bacia de Sepetiba. Uma população densa dessa invasora forma um bloco fechado de árvores que empobrece a biodiversidade ao redor e sufoca o crescimento de outras espécies, indo direto contra a razão de a APA existir. E isso numa área que já abriga espécies nativas da Mata Atlântica, como Ipê, Sibipiruna e Aroeira, plantadas ali há anos. Outras cidades já estão agindo Em junho de 2025, Campo Grande (MS) sancionou lei própria criando um Plano de Erradicação e Substituição da Leucena, proibindo até o plantio, comércio e transporte da espécie em todo o município, com multa para quem descumprir. O diagnóstico da própria prefeitura mostra a gravidade do problema: a leucena já ocupa praticamente todas as margens de córregos da capital, podendo reduzir em até 70% a diversidade de plantas nativas nas áreas onde se instala, além de liberar substâncias que atrapalham o crescimento de outras plantas ao redor. Itapira (SP) também desenvolveu e documentou uma forma própria de erradicar a espécie em área protegida, hoje usada como referência por outros municípios com o mesmo problema. O Horto Municipal de Queimados abriga a leucena, espécie invasora que sufoca a vegetação nativa. O alerta pede manejo gradual para conter o avanço e recuperar a área. Foto: Acervo — Alan Santana. Isto não é uma denúncia, é um alerta O objetivo deste texto não é apontar culpados. É chamar atenção pra um risco real que espécies invasoras trazem pra um ambiente protegido: a leucena toma conta do espaço, sufoca plantas nativas que estão ali há anos e impede que novas mudas cresçam, tudo isso silenciosamente, enquanto o Horto segue cumprindo, aos olhos de quem passeia por ele, sua função de lazer e contato com a natureza. É importante que isso entre no radar de quem cuida da APA, com um plano de manejo que inclua, aos poucos uma troca gradual da leucena por mudas nativas, técnicas para reter melhor a água da chuva, reduzindo a erosão do solo e promove um aumento da água que recarrega o subsolo, ajudando a recuperar a área. Quanto antes esse cuidado começar, menor o esforço e o custo ambiental para reverter o problema. Fontes e leituras recomendadas: IUCN Global Invasive Species Database; Lei Municipal nº 1.042/11 (Queimados); Revista Cultivar, “Leucena: quem realmente é você?”; Publicações técnicas da Embrapa sobre Leucaena leucocephala no semiárido brasileiro e banco de sementes na Caatinga; Prefeitura de Campo Grande (CGNotícias) — “Prefeitura sanciona plano para a erradicação e substituição da Leucena”; Alves et al., “Redução da biodiversidade pela proliferação de Leucaena leucocephala e formas de contenção e controle desenvolvidos no município de Itapira-SP”,Brazilian Journal of Technology. Alan Santana é nascido em Queimados, graduando no 8° periodo de licenciatura em Biologia, Pesquisador de Soluções Baseadas na Natureza e Tecnologias Sociais, Artesão de Plástico do tipo PEAD (Polietileno de Alta densidade), Produtor Cultural formado pelo CPPEC no Quilombo Enraizados e filho de uma Recifense. Co-fundador do Horto do São Miguel, também em Queimados, uma iniciativa agroecológica e de reciclagem criativa que é seu laboratório de quintal onde cria e testa Tecnologias pensadas por e para ajudar a periferia a resistir as mudanças climáticas.
- Em junho.
Poema por: Mariana Belize. Jardim Olavo Bilac, Duque de Caxias. Foto: Acervo - BXD IN CENA. é a verdade tudo o que eu sonho: ontem apontei pra igreja de São João de Meriti e assumi a cidade inteira como estado de emergência meu estado de emergência nascimento e morte um estado de emergência do berço ao túmulo é do luxo ao lixo é do trapo ao pó pó de poesia com que teço essa mortalha tessitura dinâmica complexo de versos eu gritei que a baixada fluminense é uma coisa que vai invadindo a gente aos poucos e nascer aqui não é ser aqui não é estar aqui e é preciso sobretudo estar aqui sendo aqui, falando daqui amando aqui guerreando aqui também sim, acima de tudo a baixada fluminense é uma parada que vai rolando na gente pedra de Sísifo feliz dentro da gente uma pedra que se desdobra em ametistas na montanha interior, na procedência duvidosa, na existência calamitosa aos poucos você deixa essa pedra rolar as rochas, minérios rolam as pedras, deixa rolar essa pedra no meio do caminho do teu afeto as pedras no meio do caminho entre meu Belford Roxo e Nova Iguaçu essa montanha de vulcão que nunca assoma só dentro do nosso peito, do nosso peito E São João de Meriti, onde nasci E Nilópolis onde me escondo e tudo e tal, onde sambei e sambarei com asas de beija-flor uns que esta terra pariu estão longe engatilhados nos doutoramentos que os possuem possuídos pela vergonha de seu Japeri empurrando queimados com a barriga uma Seropédica real impossivelmente real um rei na barriga da classe média rei nu com vergonha de onde nasceu cresceu apareceu aprendeu da vida. a baixada fluminense é meu coração em brasa a baixada fluminense não é meu dormitório é território de suor e orgasmo de cansaço e prazer de alegria e solidão de tudo e de nada de tudo que a vida me der pra viver e foi assim que larguei mão dele: meu desejo ridículo de ser leblonense, alemã, criatura média, lisboeta de praia, classe média que vomita starbucks e que se afunda em botafogos e urcas perdidas classe alta que se camufla na barra classe ridícula que se renega zona oeste ou zona norte tijuca sulacap realengo mil nomes pro mesmo lugar a classe cosmopolitan logo eu, que nem sei andar de salto sobrevivo de saltar sobre as estatísticas que me querem morta pelas mãos masculinas que me rodeiam. mas larguei isso tudo era uma fuga larguei tudo na avenida nossa senhora de copacabana suas ruas todas iguais de velhos endinheirados e mesmo que a urca brilhasse lá longe naquela fáustica desgraça teus olhos viratempo de agonia na ponte rio-niterói o teu sorriso de trapaça e quizila e quebranto afinando o meu desespero de subir e te amar longamente nos meus sonhos absurdos com mares salgados quanto do teu sal são lágrimas brasileiras, ó portugal de misérias mesmo que a urca brilhasse nas ondas do teu violão e na minha desarmonia, eu me desviasse das notas de qualquer tom. era amor, afinal. os olhos tiranos do meu desejo traído teu nome é uma falácia e uma algema tuas músicas de ameaça e jorge de lima diamantes de sangue, beijo de fel o bom filho pródigo ao lar retorna cansado de tudo ter visto e renasce do ventre de outras águas cabeça em são joão de meriti pernas de rio guandu braços abertos sobre a via Luz, quanta Luz coração num baobá ancestral bandeira branca de Tempo olhos de amendoeira da rua da Matriz e na rua hilda lima eu aprendi a ler o mundo passagem estrada na rua santa teresa eu aprendi a rezar pra meio-mundo rua tempo estrada encruza templo ao Ogum-dará de onde bradei ao universo: a baixada fluminense é meu espírito santo que desce em mim e me toma por completo um coração de sabiá, um peito de aço que me guia nas avenidas de Joca nas ruas dos xavantes nas encruzilhadas de Tranca Rua das Almas de onde bradei: nada de ti me devora nem essa saudade estranha de onde colhi meu dicionário de memórias de onde inventei minha narrativa extática conquistando a história do meu sangue através destes versos desesperados nada de príncipes no meu mundo só há pais, mães, avós, vizinhos todos da minha raiz de guiné dançando virado em Joãozinho que ensina: de um Duque à Gomeia é um salto quântico São João de Meriti é meu divino estado de emergência meu tamanho estado de emergência meu sinistro estado de emergência minha carapaça, minha terra território cama, mesa, banho e alegria meu céu estrelado campanário lunar meus galpões de sonho meu som e minha fúria Emergi, olhei pra frente encarnando os vitrais flamejantes de são joão de miriti os olhos de Gaia, a explosão áurea da tarde my sleeping sun que esfacela paredes e muros a indiferença pós-moderna aqui não tem vez liberdade e responsabilidades são os Ibeji eternizados eu grito vir-a-ser e ao nada que posso um raio partiu brasília em duas crateras brutais minha veia pulsa de múltiplos lamentos e sei que mulheres não só afundam navios como derrubam déspotas e salvam crianças mesmo que não sejam seus filhos. não há sequer um príncipe um rei, um presidente nesse mundo. mundo de terras devastadas mulheres que lutam pela comida de cada dia e deusas que sangram alimentando a terra com suas lágrimas. Salve, meu São João menino costurado em miriti. Saravá, meu pai Xangô! Misericórdia de nós, nesse turbilhão de país, onde tem gente com fome tem gente com fome tem gente com fome de mundo. de mundo. de mundo. de mundos. A minha fome é misteriosa e delirante. Sonhada e entretecida com palavras e dores de um rosário entre imensidões e memórias. Mais do que tudo que tentei Mais do que tudo que amei Mais do que todos que odiei Mais do que tudo que me matou Mais do que tudo que me ressuscitou Mais do que eu Maior que qualquer desígnio divino Maior que a fome são os ares de Maria. As dores do percalço me perseguem vindo pelas linhas do trem. Ao Ogum-dará eu sobrevivi e nenhuma fome me matou. Eu sei de onde vim: BF. Baixada Fluminense… BF. Baixada Fluminense… BF. Baixada Fluminense… Éden, São João de Meriti. Foto: Acervo - BXD IN CENA. Mariana Belize é doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Nascida em São João de Meriti, moradora de Belford Roxo durante sete anos. Atualmente mora na cidade natal, São João de Meriti e faz trabalho voluntário na Rede Emancipa, em Santa Maria, na cidade de Belford Roxo. Criou o Projeto Literário Olho de Belize em 2015. O projeto está em processo de reformulação.
- Quem te representa, BXD?
Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Está cedo demais para não falar de quem vai representar nosso futuro estadual nos próximos 4 anos. E é quem pensa em políticas públicas para os nossos. Na primeira semana de maio de 2026, o deputado estadual e presidente da Alerj, Douglas Ruas (PL), esteve presente na nossa BXD, cumprindo sua agenda pré-campanha. Esse período pré-eleitoral, é propício para aparições e um reforço político nas áreas com bastante eleitores, como é o caso da Baixada Fluminense. Foto: Divulgação // Douglas Ruas. Douglas Ruas tem sua base eleitoral e popular em São Gonçalo. É cotado para ser governador do Rio pelo Partido Liberal (PL), sendo sucessor do ex-governador Claudio Castro. A presença dele na Baixada Fluminense é a tentativa de uma conquista de público forte e com peso. Além disso, é tentar reforçar que apareceu “antes” das eleições começarem. Nas eleições de 2022, com base nos dados declarados do próprio TSE, dos 70 deputados estaduais eleitos na Alerj, apenas 14 nasceram oficialmente na Baixada Fluminense (Confira ao final do texto). Ainda dos 70 deputados eleitos em 2022, retirando os 14 que nasceram na Baixada, 3 deles tiveram maioria dos votos na Baixada Fluminense. Ou seja, no critério representação e base eleitoral(50% ou mais dos votos desses candidatos estavam na Baixada), somos 17 na Alerj. É possível afirmar que a Baixada, em teoria, representa 24.2% da Alerj. Essa representação numérica, por mais que seja relativamente alta, não tem nos apresentado resultados no dia a dia. Para melhor exemplificar, basta lembrar que a integração dos transportes para a Capital, como o BRT, não veio de iniciativa da Alerj, mas sim da prefeitura do Rio. O Governo do Estado ainda tentou barrar a aplicação dessa integração e houve pouquíssima mobilização da Assembleia para fazer permanecer a integração. Este caso nos relembra que, apesar de terem números e votos nossos, ainda não somos bem representados. Foto: Reprodução // Daniel Martins/Diário do Rio. Mobilidade urbana, para quem mora na Baixada é sempre um problema nunca solucionável. Nossa vida, em questão de trabalho e até áreas de lazer, acabou se ventilando e preso na Capital. Seja para ir num samba, visitar museus e conhecer locais novos, o deslocamento é sempre imprevisível. A ida ao trabalho é desgastante. A volta é cansativa. Mas eu e você sabemos disso. Mas quem elegemos, será que sabe? Representação eleitoral é saber quem passa mais de duas horas do seu dia em deslocamento. No Censo de 2022, a Baixada Fluminense teve 5 municípios com os piores índices de demora no deslocamento urbano ao trabalho. E ainda assim, a única modalidade essencialmente modificada para atender a demanda da região, não veio da Assembleia com 24.2% de representação. Tipicamente, pontuar só mobilidade é reforçar um problema urbano que compete ao Estado e suas leis. A Baixada ainda sofre com saneamento básico e segurança, além dos índices de educação menores. Mas ainda assim, somos 24.2% na Alerj. Afinal, quem nos representa ainda pensa em nós nos próximos 4 anos? Relação dos deputados da Alerj que nasceram oficialmente em municípios da Baixada Fluminense: Nascidos em Duque de Caxias Rosenverg Reis (MDB) Valdecy da Saúde (PL) Arthur Monteiro (SDD) Sarah Poncio (Solidariedade) Nascidos em Belford Roxo Felipinho Ravis (PP) Nascidos em Nova Iguaçu Carlinhos BNH (PP) Anderson Moraes (PL) Delegado Carlos Augusto (PL) Nascidos em São João de Meriti Marcelo Dino (União Brasil) Carlos Macedo (Republicanos) Giovanni Ratinho (MDB) Nascidos em Nilópolis Rafael Nobre (União Brasil) Renato Miranda (PL) Nascidos em Magé Vinicius Cozzolino (PSD) Dados do IBGE - Censo 2022 E aí? Quem te representa, Baixada? Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.
- Os condenados da Baixada.
Texto: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Foto: Acervo - Josué Matheus. Neste segundo fim de semana de maio, no sábado (16), decidi assistir a “Fanon”, filme que conta uma parte da história do psiquiatra e revolucionário Frantz Fanon durante sua estadia na Argélia. A exibição do filme iniciou no dia 14 de maio nos cinemas da Estação Net de Cinema, na Gávea e em Botafogo. É uma obra que toda pessoa, esteja estudando Fanon ou não, seja baixadense ou não, deveria assistir. A frase inicial, baseada em um trecho de Os Condenados da Terra, livro de Fanon, já faz valer o ingresso: “Cada geração deve, em uma relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la.” Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra, 1961. A minha geração, hoje, tornou-se muito interligada ao termo “militância”. E, sendo bem sincero, espero não fugir disso. Ser baixadense não me deixa fugir disso. Posso começar pelo fato de que, como a distribuição do filme se concentrou em uma região majoritariamente branca e de classe alta, na minha sessão, de pessoas negras, só estavam minha amiga Beatriz e mais uma mulher. Quando terminamos a sessão, iniciava outra e, na fila, havia pouquíssimas pessoas negras (não direi que não vi nenhuma, pois pode ser que houvesse alguma) para assistir ao filme. Estação Net de Cinema, entenda: sabemos que não é culpa de vocês. A obra de Jean-Claude Barny, diretor do filme, utiliza recursos que o próprio Fanon debate em seus livros, como a análise psicanalítica e a desenvoltura com que o racismo afeta o mente e o corpo, sempre sob uma visão anticolonial. Mas calma, aqui é sem spoiler. Além da questão racial da sala, quero trazer duas verdades: consumir cinema e cultura é caro e distante para quem é baixadense. Um filme como este, que trata de reflexões e conceitos críticos sobre o combate ao racismo, a luta anticolonial e o processo de descolonização da Argélia, nunca chegará a uma rede de cinema como as localizadas em Duque de Caxias e em São João de Meriti. Eu, saindo de SJM, esperando ônibus e caminhando até a Estação de Metrô Pavuna para chegar à Estação de Botafogo, demorei uma hora e cinquenta minutos, no total. Um deslocamento inviável. Obviamente, para chegar rápido, nos adaptamos a pegar mototáxi, porque a espera pelo ônibus é quase incerta. E quando digo “caro”, não me refiro à questão de valores financeiros. Falo de tempo. Tempo que poderíamos poupar, mas nossa região não é vista como receptora cultural de obras desse nível. Uma pessoa que trabalha na escala 6x1, dificilmente irá querer perder quase 2h da sua ida, sem contar a volta, para ir ao cinema em Botafogo. Movimentos múltiplos na Baixada Fluminense discutem a democratização do acesso ao cinema, como é o caso do BaixadaCine. Foto: Reprodução // Instagram - BaixadaCine. Talvez por estar em francês e não ter dublagem, não o tenham remanejado para outros cinemas. Porém, me questiono: eu, como baixadense, não lembro de ter assistido a um filme sequer legendado nos cinemas da Baixada Fluminense. Para quem conhece cinema, a imersão, o apoio e as cargas emocionais na voz dos atores trazem uma mudança significativa na experiência. Apesar de eu apoiar, e seguir apoiando, a dublagem nacional. E isso não é apenas uma impressão minha. Os mapas de desigualdade cultural da Casa Fluminense e os dados da ANCINE mostram ano após ano o óbvio: as salas de cinema de rua e os circuitos de arte estão concentrados na Zona Sul do Rio, criando verdadeiros 'desertos culturais' na Baixada. Nós somos confinados aos blockbusters dublados dos shoppings, sob a falsa justificativa de que 'o povo não consome cultura cult'. Pode parecer algo meio “frágil”, mas hoje você não encontra cinema, teatro e livraria tão fácil na Baixada. E quantas daquelas pessoas naquela sessão sairiam para ver um filme na Baixada? Os nossos não têm a mesma capacidade de ver um filme legendado ou obras consideradas mais cults? Provavelmente, o argumento que vem à sua cabeça é que o povo da Baixada não consome ou não gosta. Mas não consome porque não tem ou porque nunca foi ofertado como cultura? Apenas direcionado para pessoas de alta classe, sempre brancas e em regiões mais “caras”? Olhar para o passado e presente de nossas movimentações culturais nos fazem questionar o agora e vislumbrar possibilidades futuras de mais acesso, mais conteúdo e mais ações. Foto: Reprodução // Instagram - Mate com Angu. Cinema é cultura, é arte e é desenvolvimento social. Ideias podem surgir de filmes. Um profissional pode surgir ao assistir a um filme. Um sonho real de uma Baixada mais cultural pode surgir de um filme. Então, por que apenas afastar a cultura do povo? Esta é apenas uma reflexão visando à Baixada, mas sei que ela pode se refletir em vários subúrbios e no interior do Rio de Janeiro. Não somos, hoje, condenados da Terra? Então, porque quem consome são os outros? Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.












