Das ondas do mar no Leblon às ondas de calor na BXD: sobre El Niño e racismo ambiental.
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Há meses os noticiários anunciam a chegada do fenômeno climático “El Niño” no segundo semestre de 2026, podendo se estender até o começo de 2027. O fenômeno pode ter como consequência tanto o aumento das ondas de calor quanto a expectativa para chuvas fortes no centro-sul do Brasil. Dentre os locais possivelmente afetados, os 13 municípios presentes na Baixada Fluminense podem sofrer os impactos de forma mais agravada pela falta de preparo governamental. Por isso, é importante questionar como as cúpulas municipais têm se preparado para mitigar os efeitos do fenômeno avisado há meses. Quais são as estratégias? Elas existem?
O El Niño é um fenômeno climático que ocorre naturalmente e consiste no aquecimento das águas marítimas superficiais do oceano Pacífico equatorial, provocando mudanças gerais no clima do Brasil. Sua previsão de chegada é entre julho e agosto (inverno brasileiro) e pode permanecer até o verão, época já conhecida por suas chuvas de verão na região Sudeste. As chuvas de verão, ou de convecção, ocorrem quando o sol esquenta intensamente o solo e o ar próximo a ele se torna menos denso e sobe. A partir disso, ele se resfria e forma nuvens carregadas que se transformam em chuvas fortes em pouco tempo. Esse acúmulo de grande quantidade de chuva em um período curto gera desdobramentos como bolsões d’água, inundações, desabamentos etc. Com o El Niño, a tendência é que essas precipitações possam acontecer de forma mais intensa na região Sudeste, assim como as chamadas “ondas de calor”, fenômeno em que a temperatura fica mais de 5ºC acima da média histórica mensal durante mais de 5 dias e leva a desidratação, mal estar coletivo etc. O fenômeno vai gerar mudanças em todo o país e a população sentirá os efeitos na pele, entretanto, alguns lugares serão mais afetados que outros. Por quê?
Quando pegamos um metrô na Pavuna para chegarmos à feira da Glória no domingo ou quando vamos à praia no Leme em um dia de sol, notamos a mudança da paisagem entre Baixada e Zona Sul. Seja no Leme, na Glória, no Leblon, as ruas planejadas e arborizadas contrastam com o asfalto duro presente na Zona Norte, Oeste e na Baixada Fluminense. O planejamento urbano é, também, qualidade de vida e se reflete no lazer, na saúde e, nesse ponto, em como as consequências de um fenômeno natural chegarão a cada um desses bairros. Quando as ondas de calor chegarem ao Rio de Janeiro, a população do Flamengo terá uma área de amortecimento climático, ou seja, as árvores farão com que o impacto da temperatura seja menos intenso.

Mas as ruas da Cerâmica, em Nova Iguaçu, não contam com a mesma sorte. O asfalto mantém o calor por mais tempo, a ausência de sombra projetada aumenta a sensação de calor e, assim, 40 °C parecem 45 °C nesse ponto do Estado. Isso é um reflexo do que o teórico Benjamin Franklin Chavis Jr. (1980) cunhou como racismo ambiental, que se refere à desproporcionalidade entre a exposição de populações racializadas a situações de injustiça climática. Claro que as mudanças climáticas afetam todas as pessoas, mas é notório que elas afetam de formas desproporcionais quem mora no Leblon e quem mora em Belford Roxo, por exemplo. E essa diferença se dá por uma questão de raça e classe, pois quem decide sobre o futuro do Estado não é quem vive a periferia dele. Ou seja, quem possui o poder de mitigar os efeitos climáticos na Baixada Fluminense nem conhece as ruas desses municípios.

Para além do calor excessivo, outro ponto agravado pelo El Niño são as fortes chuvas que ocorrem durante o verão fluminense. Todo ano, entre dezembro e março, a população da Baixada passa por meses de agonia com medo de perder sua casa, seus móveis, sua vida. Se esse é um retrato de algo que ocorre cotidianamente, como os municípios não possuem planos de manejo para prevenção das inundações? Entre 2021 e 2026, aconteceram diversas enchentes nas cidades da Baixada em que a população perdeu o que levou anos para conseguir comprar.
O estado de normalidade se torna a tensão, a angústia em dias de chuva já que os rios poluídos não são desassoreados, não há mata ciliar para absorver parte da água das precipitações, a coleta não é feita da maneira correta. As decisões tomadas – ou a falta delas– pelo Estado, colocam em risco populações inteiras, seja por doenças, por afogamento, por desabamento. E não é coincidência que as partes mais afetadas por essas inundações sejam espaços com maior quantidade de população pobre e negra, isso é exatamente o que o conceito de Racismo Ambiental tenta alertar. Há uma escolha sendo feita, a de que vidas importam mais. De quais locais merecem mais investimento. Não é coincidência que não haja planejamento urbano na Baixada Fluminense e a tentativa de culpabilizar a população não isenta a responsabilidade de quem tem a caneta para assinar projetos de mudanças reais na vida cotidiana.
Com a chegada do El Niño, é importante que nos perguntemos o que políticos eleitos pela população tem feito para melhorar a vida de quem votou neles. Se o Projeto Iguaçu, que visa a drenagem e recuperação ambiental dos rios Iguaçu-Botas e Sarapuí, será colocado em prática. Os municípios da Baixada possuem uma cartografia que contabilize as áreas de risco e as necessidades de manejo atuais? Para além de coleta de resíduos e desassoreamento, quais são as práticas de mitigação que as prefeituras e o Governo do Estado têm tido visando a melhora ambiental? Quais são os planos para áreas de amortecimento climáticos?
É necessário que a população cobre dos representantes do povo para que as necessidades dos municípios sejam atendidas. Não se pode esperar que as inundações cheguem e que, após isso, o Estado libere verba para os afetados, pois sabemos que a quantia em dinheiro não paga o sofrimento emocional, a dignidade e nem mesmo os bens materiais que foram perdidos nas chuvas. As eleições chegam esse ano e nós, que somos da Baixada, devemos pensar quem representa os nossos interesses seja na Câmara, no Governo ou na Presidência. Qual político tomará decisões que diminuirão as injustiças ambientais vividas pela nossa população.

Refs de Cria:
BRASIL. Instituto Nacional de Meteorologia. El niño está de volta: as condições do fenômeno El Niño já estão presentes e espera-se que o fenômeno persista até o final do verão austral 2026/2027. Ministério da Agricultura e Pecuária, 2026. Disponível em: https://portal.inmet.gov.br/noticias/el-ni%C3%B1o-est%C3%A1-de-volta
Acesso em: 11 de junho de 2026.
Chuvas de verão: por que acontecem e como entender o fenômeno. RPC, Rede Globo. 04 de fevereiro de 2026. Disponível em: https://redeglobo.globo.com/rpc/verao-rpc/noticia/chuvas-de-verao-por-que-acontecem-e-como-entender-o-fenomeno.ghtml
Acesso em: 11 de junho de 2026.
ONU alerta para retorno do El Niño e aumento do risco de eventos climáticos extremos. Redação G1, 02 de junho de 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/06/02/onu-alerta-para-retorno-do-el-nino-e-aumento-do-risco-de-eventos-climaticos-extremos.ghtml
Acesso em: 11 de junho de 2026.

Ana Beatriz Bilheiro é moradora de Nova Iguaçu, formada como Guia de Turismo Regional e cursa bacharelado e licenciatura em Artes Visuais. Na prática artística, desenvolve trabalhos sobre os rastros que permanecem após desastres ambientais na Baixada e a paisagem local.

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