Se deus não existe, quem escreve pra mim?
- fijobxd
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Como o baixadense se enxerga? - pt. 8.
Texto por: Fijó. Revisão: Jéz; Josué Matheus.
Sabe aquela voz que aparece quando você tá sozinho, na calmaria que vem depois da tempestade, e que parece vir de fora mas também de dentro? Não é um pensamento, não é uma lembrança — é uma ordem. Ela não pede, não sugere, não explica. Ela só diz: "confia", e a gente nunca sabe de onde ela vem.
O Hashi, cria de Mesquita, lançou em 2021 uma música que muito cedo virou um hino para mim, pessoalmente. Acreditar no meu trabalho não por ouvir o que vem de fora; acreditar no meu trabalho por entender o que vem de dentro. Junto com Black, ele lançou a música "Confia".
Amor, o rap vai acabar me deixando rico
A cerveja deixando pobre
E eu te deixando leve, mina
Foda é que tu me lembra Lilith, do tipo que só fode comigo e sai por cima
Bolando um beck e bolando um plano pra roubar a cena que os cara' não desconfia, mano
Às vezes, penso em desistir, só que parece que o destino olha pra mim e diz 'confia, mano'
Hashi expõe uma confissão que parece despretensiosa, mas já carrega o peso de quem vive entre três forças que não se alinham. Três direções: a arte que promete sustento, o vício que consome e o afeto que não se fixa. Não existe equilíbrio, mas existe muita tensão. E é nesse campo minado que Lilith vem à memória, como alguém que não se apega e, ao mesmo tempo, alguém que não se curva.
Nesse cenário de caos, a voz aparece. O destino não parece ser uma força abstrata; ele olha. Ele diz. A voz tem presença, tem rosto, e profere uma única palavra: "Confia". Não é um consolo, uma sugestão ou uma possibilidade. É uma ordem. Quem narra essa história não "escolhe" confiar; é "convocado" a isso. A Baixada, vista por esse ângulo, é uma eterna negociação com uma entidade - ou coleção de fatos inevitáveis - que exige obediência antes de qualquer outra coisa. O "confia" é o mandamento que não explica, não justifica. Só manda.

Daria um filme, os cana' de Corolla
E o Laranjinha ter que ir no presídio visitar o Acerola
E pros Macaulay Culkin mal de Coca-Cola
Quando eu digo 'saudade, MD', eu não falo de droga
Aqui, o Hashi mistura cinema, tráfico, cultura pop, saudade, memória afetiva. É um gesto de autonomia sobre sua arte, como se dissesse "não sou o que você pensa que eu sou, minha letra não é o seu clichê vazio". Por essa ótica, a pergunta "quem escreve?" é, no fundo, uma pergunta sobre legitimidade: quem autoriza essa voz a existir? Se for Deus, a voz é sagrada. Se for o rap, a voz é arte. Se for a rua, a voz é testemunho. Mas se for "só" o Hashi ou o Black... Aí a voz precisa se sustentar sozinha. E isso é assustador.
Pai, eu sei que tudo que vai volta,
Mas na real eu não sei se isso me assusta ou me motiva
A afirmação não traz certeza, e a incerteza, na periferia, é para poucos. Na nossa realidade hesitar é parar, e parar é morrer. Mesmo assim, o artista hesita no verso, sendo talvez o ato mais corajoso da música: dizer "não sei" em voz alta, sem a proteção de uma resposta pronta.
Vou ganhar o mundo e depois lavar a louça
E por mão na massa pra ter pão na mesa
Bota minha tropa no flyer, que teu evento lota
Se Deus não existe, quem escreve minhas letra'?
No refrão, a promessa de "ganhar o mundo" é imediatamente seguida pela volta pra casa - ou "lavar a louça". Não existe fuga atrelada à melhoria, existe permanência. O mundo que ele vai ganhar é um mundo que cabe na pia da cozinha de casa. A louça é um ponto fixo: é ela que o artista usa pra se recusar à narrativa do "favela, venceu, saiu". O sujeito quer ganhar o mundo, mas o que mede o começo do mundo é a louça, é o cotidiano, o trabalho, a família, a mesa (farta, de preferência, e) posta. Nosso território é a base de onde se parte e a casa para onde se volta. "Ser baixadense" não se define pela saída, mas pela capacidade de retorno.
E, no meio dessa negociação entre o sonho e o corre, a pergunta que rasga o ouvinte: se o deus (provedor) não existe, de onde vêm o dom? Claramente não é uma pergunta sobre teologia, é uma pergunta sobre autoria. Se a voz que diz "confia" não vem de Deus, vem de onde? Do rap? Da rua? Da memória de quem já morreu? Do próprio Hashi, que duvida tanto quanto acredita? A ordem "confia" exige obediência, mas o sujeito que obedece não sabe nem quem está mandando. Ele só sabe que algo o impulsiona, o faz seguir em frente.
Black traz, depois do primeiro refrão, sua visão da mesma situação.
Amor, o rap já me deixou forte
Cerveja pra mim é lixo
Agora vou trazer os cria' comigo
Nós somos forte', não porque queremo', e sim porque é preciso
Se eu miro, acerto, porque sou preciso
A força aqui não é escolha; é necessidade. Black não é forte simplesmente porque acredita, ele é forte porque a realidade exige. É a resposta mais sóbria ao comando do destino: se o Hashi recebe a ordem "confia" e pergunta quem escreve, o Black diz: "escreve quem precisa sobreviver". A autoria, pra ele, é uma consequência da falta, não um dom vindo da abundância.
Pra variar, fui frio e calculista
Não descarreguei pro céu, guardei pra largar nesses cara'
Que pra me alcançar, vão ter que gastar a sola da Kenner
Enquanto Hashi atira pro céu, derruba anjos e paga o preço no inferno astral no primeiro bloco da letra, Black guarda as balas pra quem está na terra igual a ele. Um briga com o divino, o outro briga com o terreno, mas os dois compartilham a mesma vontade de ganhar o mundo e lavar a louça. O que fica na minha cabeça é que existe, ao mesmo tempo, um enfrentamento com o invisível e a resistência com o visível. Nenhuma vale mais que a outra, só são respostas diferentes à mesma ordem: "confia".
Garota, eu lembro das promessa' de pra sempre junto'
Mas hoje eu nem faço mais questão do teu contato salvo
Artigo 33, Cidade de Cristo
Fala! O que era crime, hoje é poesia
Nesse sentido, se deus não existe, quem escreve é a vivência do território. A mão que segura o microfone é a mesma que segurou o pente, no entanto a diferença está no destino que a música dá à violência. Essa transformação é a prova de que a autoria é um fenômeno real e perceptível: o crime não deixou de existir; ele foi reescrito. A poesia não apaga a violência, só a transforma em outra coisa.

Conclusão:
No fim das contas, o "confia" não é uma ordem pra acreditar em Deus. É uma ordem pra acreditar no processo. Confia que a repetição vai te levar a algum lugar. Confia que, se você continuar escrevendo, a autoria vai se revelar. Confia que, mesmo sem saber quem escreve, você pode ser o que está sendo escrito. Porque, na Baixada, a pergunta não é "Deus existe?". A pergunta é: se não existir, quem vai ocupar o lugar dele? A música do Hashi responde: a poesia. O verso. A voz que se recusa a calar, mesmo quando o destino ordena silêncio. Quem escreve? A gente escreve. A gente que ouve a ordem e, ao obedecer, se torna autor.
Marisa Vorraber Costa (2000) nos lembra que a arte também ensina com gestos, repetições e perguntas que ficam no ar. E "Confia" ensina algo que escola nenhuma ensina: perguntar. O refrão não resolve a dúvida sobre a autoria, ele a repete como um eco que passa de um verso pro outro, do Hashi pro Black, do Black pro ouvinte. E, ao repetir a pergunta, a música vai formando uma identidade que não aceita respostas prontas. Porque, na Baixada, as respostas prontas são as que matam — a do crime, a do destino, a do silêncio. A música ensina a desconfiar delas e a ocupar o lugar vazio da autoria com a própria voz. O "confia", nesse sentido, não é um mandamento; é uma provocação pedagógica: confia que a pergunta vale mais que a resposta.
Refs de Cria:
COSTA, Marisa Vorraber (Org.). Estudos culturais em educação: mídia, arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, cinema.... 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000.




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