Como se tornar uma PhD se você nasceu na Baixada Fluminense: um relato de experiência.
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Texto por: Mariana Belize. Revisão: Fijó.
"Catástrofes.
Somos feitos delas."
Ronaldo Lima Lins

Em primeiro lugar, você precisa encarar a sua família. A mãe que deseja para você "um futuro melhor" desde que envolva riqueza e poder. O pai que só te vê de 15 em 15 dias porque foi forçado pela decisão de um juiz, mas acha que você deveria ser militar "porque te daria estabilidade mesmo que você não seja tão inteligente" e tenha que passar a vida inteira batendo continência para homens corruptos que causam o atraso do país diariamente. Os avós que querem que você, já que nasceu mulher infelizmente, pelo menos aprenda a cozinhar, se case e tenha filhos. Muitos. E que seu currículo seja um pano de prato no ombro.
Logo depois, você vai ter que virar as costas para eles. De vez. Pagar o preço de não aceitar a sabotagem dos seus planos através de manipulações emocionais e pressão psicológica. Ser a mal falada, sempre considerada a "arrogante" por exercer seu direito de discordar das tradições da família, ser taxada de ser "do contra" por escolher caminhar na contramão da família. A bruxa que abandonou a Igreja Católica e resolveu ser da umbanda. A p*t4 que foi parida. O fantasma da família. Você será aquela que ninguém vai ligar pra saber se está viva. Mas ligarão para avisar dos enterros e sutilmente fazer com que você se sinta culpada por algo que aconteceu há dez anos atrás.
Você vai ter que estudar mais do que a escola exigir. Vai ter que pesquisar e ler mais do que a escola, pública ou particular, vai te dar como conteúdo. Isso inclui ser diferente dos outros, sofrer bullying, ser isolado da turma e ser chamado de nerd, como se isso fosse uma ofensa. Você não terá namorados, não será popular, não será chamada para as festas, e vai ser considerada feia. Que ótimo. Agora você não tem vida social, mas tem tempo para ler e estudar mais.
Após anos de solidão e incompreensão, passe no Enem de primeira e não seja reconhecida. Escolha uma universidade da sua região, não uma que seja mais famosa. Escolha o curso que você quer fazer e não o que a sua mãe disse que ficaria orgulhosa: Direito. Pague com a alma. Não vá às choppadas, concentre-se, apaixone-se pelo seu curso, continue estudando. Veja suas companheiras de curso se casarem e abandonarem a universidade, veja as inimigas se casarem também e largarem seus sonhos pelo caminho. Veja os homens de todos os cursos criarem um grupo no Facebook com as calouras e dividi-las entre si antes do ano letivo começar. Seja feminista e contra o trote vexatório. Isso vai te isolar ainda mais. Você será vista como uma mulher agressiva e perigosa. As moças se afastarão de você. Os homens debocharão da sua militância. Você continuará sozinha se não abrir mão dos seus princípios. E novamente pagará o preço.
Estude mais. Escolha o caminho intelectual mais difícil. Veja seus professores simplificarem as aulas, inferindo que alunos da Baixada "não conseguiriam compreender a profundidade filosófica do assunto x". Não aceite ser tratada dessa forma. Estude mais. Leia mais. Escreva mais. Deseje ser mais do que os professores te dizem que você pode ser. Vá além. Leia o que eles leem. Faça perguntas. Entre para um grupo de pesquisa. Desenvolva um projeto ambicioso. Tenha grandes sonhos.
E seja sabotada pelo seu primeiro orientador.
Administre os problemas em casa estudando ainda mais. Veja como os professores desprezam seu pensamento, seu poder de invenção e sua indignação. Veja a universidade desprezar os Centros Acadêmicos que sejam combativos. Veja os alunos mais indignados serem desprezados solenemente. Veja a universidade favorecer os quietos, os falsos e os puxa-sacos. Continue estudando, mesmo que a sua saúde mental decline e se torne ainda pior a cada dia. Perca a fome. Emagreça mais ainda e seja parabenizada. Veja os caras dos outros cursos competindo religiosamente, a cada semestre, para abusar de calouras durante todos os seus anos de estudo. Veja as calouras desistirem de seus respectivos cursos, destruídas emocional e fisicamente. Veja os vídeos íntimos delas se espalharem pela universidade. Veja-as voltarem para casa e não retornarem ao curso. Veja outras irem parar no hospital. Veja todas elas serem transformadas em menos que seres humanos. Veja os homens se formarem e ensinar aos novos alunos as suas táticas. Tente avisar às calouras todos os semestres e seja sumariamente ignorada. Se apaixone. Seja enganada e passe vergonha em público.
Escreva seu TCC sozinha em meio ao barulho das discussões familiares. Seja sabotada por outro orientador. Talvez seja culpa sua dessa vez. Veja colocarem a culpa na sua personalidade difícil, seja chamada de louca pelas costas. Veja sua revolta ser tratada com condescendência ou pior, com desprezo. Entregue seu TCC sem a presença do seu orientador. Às pressas. Se forme depois do prazo. Sem festa de formatura. Seja desprezado pela própria instituição que nunca ofereceu suporte eficiente para que você permanecesse de forma saudável na universidade.
Vá à caçada de uma vaga no mestrado de uma instituição bastante elitista. Sim, é uma espécie de caçada. Ache um outro orientador. Seja testada nas aulas. Seja testada por todos. Sofra preconceito por morar na Baixada. Seja comparada a uma barata. Seja comparada a um rato. Receba uma bolsa que não arca com todos os custos da sua pesquisa. Escreva. Pesquise. Leia. Passe mais tempo na universidade do que na sua casa. Faça relatórios. Assista às aulas. Mantenha a bolsa. Tire apenas A. Não discuta com os professores que fazem comentários preconceituosos. Comporte-se. Tente se vestir melhor. Escreva. Revise. Leia. Escreva mais. Sorria ou seja taxada de ranzinza. Não fale de forma assertiva ou vão dizer que você é grossa. Se atualize na área. Tente fazer contatos com pessoas que vivem uma vida completamente diferente da sua.
Tente conversar com quem não sabe onde fica Belford Roxo. Tente conversar numa boa com quem acha que a Baixada Fluminense é um bairro só. Veja seu ônibus vir de uma em uma hora. Veja o Copacabana passar de cinco em cinco minutos. Leia mais. Escreva. Faça relatórios. Congressos. Fóruns. Simpósios. Organizações. Contas a pagar. Casa para manter. Talvez a essa altura você já tenha um casamento falido com um cônjuge que te chama de "palestrinha" e que mina a sua auto-estima diariamente. Seja usada e desprezada enquanto você escreve, pesquisa, revisa e lê.
E veja seu esforço não ser considerado um trabalho sério.
Separe do cônjuge e seja mal falada por sua família. Por seus amigos. Pegue seu diploma. E agora vá à caçada de uma vaga no doutorado. Tenha um projeto inédito no Brasil. Seja sabotada pela banca. Fique em quarto lugar e veja a bolsa ir para o aluno que é medíocre, mas bem relacionado. Novamente assista os puxa-sacos abrirem mão de opiniões e personalidades para conseguirem um espaço aqui e ali. Seja sabotada nas etapas do doutorado. Entre, mas em último lugar. Entre, mas sem bolsa. Entre, mas não conte com o seu orientador. Entre, mas sem sobrenome. Seja tratada como inferior pelos outros. Pegue três ônibus e um trem lotado. Carregue livros da biblioteca na mochila pesada para casa por não ter dinheiro para comprá-los. Seja humilhada pelos filhos de Ipanema e seus cargos sem mérito. Seja escorraçada pelos filhos do Leblon e suas viagens de intercâmbio, seus certificados do Goethe Institut e Aliança Francesa. Seus Toefls e anos sábaticos em Paris.
Estude mais. Escreva, pesquise. É o mesmo roteiro. Mas agora viva uma crise mundial sem precedentes. Uma pandemia. Quatro anos de governo de extrema-direita. Nesse meio tempo, cultive sua consciência política. Cultive ainda mais sua consciência de classe. Mas isso não vai te salvar. Faça terapia. Talvez ajude, mas apenas se a sua terapeuta também tiver consciência de classe.
E não se esqueça de que, morando em Belford Roxo, você deve levantar os móveis, os livros, o armário, o colchão. Porque você ainda vai ter que sobreviver às enchentes e a um prefeito que, ao perder a eleição, vai depenar a sua cidade como a um frango. Mas persista. Veja os seus vizinhos fazerem pilhas de móveis e geladeiras e fogões perdidos nas enchentes. Veja as pessoas com água no pescoço, doentes após as enchentes e sem atendimento de qualidade. Veja os números horríveis da criminalidade. Veja os homens e mulheres dormindo na rua, solitários e famintos, porque o prefeito da sua cidade não acredita em Direitos Humanos. Mas persista. Escreva, pesquise, releia. Revise seu texto. Leia 768 páginas de O ser e o nada. E depois, veja a desconfiança no olhar das pessoas na universidade que desacreditam na sua capacidade de reflexão e crítica só por causa do local onde você mora. Não faça perguntas. Perceba quem são os enfeites da instituição. Persista mesmo sozinha. Sozinha num casamento. Sozinha na família. Siga nem que seja por pura teimosia.
Quatro anos depois, marque a defesa da tese e sobreviva até lá. E, no dia da defesa, tire forças de onde não tem mais, defenda a sua tese com unhas e dentes. Seja a banca de si mesma.
Depois de quatro horas de defesa, exausta, se lembre: parabéns, você é uma doutora. Mas sem sobrenome. Sem herança. Sem contatos. Morando no fim do mundo. Uma mulher exausta desde os quinze anos. Olhe ao seu redor e veja as ruínas. Prepare-se. O julgamento não irá acabar:
"Por que não arrumou um emprego de verdade…?"

Mariana Belize - Doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Nascida em São João de Meriti, moradora de Belford Roxo durante sete anos. Atualmente mora na cidade natal, São João de Meriti e faz trabalho voluntário na Rede Emancipa, em Santa Maria, na cidade de Belford Roxo. Criou o Projeto Literário Olho de Belize em 2015. O projeto está em processo de reformulação.

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