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Em junho.

Poema por: Mariana Belize.


Jardim Olavo Bilac, Duque de Caxias. Foto: Acervo - BXD IN CENA.
Jardim Olavo Bilac, Duque de Caxias. Foto: Acervo - BXD IN CENA.

é a verdade tudo o que eu

sonho:

ontem apontei pra igreja de

São João de Meriti

e assumi a cidade inteira

como estado de emergência

meu estado de emergência

nascimento e morte

um estado de emergência

do berço ao túmulo

é do luxo ao lixo

é do trapo ao pó

pó de poesia com que teço

essa mortalha tessitura dinâmica

complexo de versos

eu gritei

que a baixada fluminense é uma coisa que

vai invadindo a gente

aos poucos e nascer aqui

não é ser aqui

não é estar aqui

e é preciso sobretudo

estar aqui

sendo aqui, falando daqui

amando aqui

guerreando aqui também

sim, acima de tudo

a baixada fluminense é uma

parada

que vai rolando na gente

pedra de Sísifo feliz

dentro da gente uma pedra

que se desdobra em ametistas

na montanha interior, na procedência

duvidosa, na existência calamitosa

aos poucos você deixa essa pedra rolar

as rochas, minérios

rolam as pedras, deixa rolar

essa pedra no meio do caminho 

do teu afeto

as pedras no meio do caminho

entre meu Belford Roxo

e Nova Iguaçu essa montanha 

de vulcão que nunca assoma

só dentro do nosso peito, do nosso peito

E São João de Meriti, onde nasci

E Nilópolis onde me escondo

e tudo e tal, onde sambei e sambarei com asas de beija-flor

uns que esta terra pariu

estão longe

engatilhados nos doutoramentos

que os possuem

possuídos pela vergonha de seu Japeri

empurrando queimados com a barriga

uma Seropédica real

impossivelmente real

um rei na barriga da classe média

rei nu

com vergonha de onde nasceu

cresceu

apareceu

aprendeu da vida.

a baixada fluminense é meu coração em brasa

a baixada fluminense não é meu dormitório

é território de suor e orgasmo

de cansaço e prazer

de alegria e solidão

de tudo e de nada

de tudo que a vida me der

pra viver

e foi assim que larguei mão dele:

meu desejo ridículo de ser

leblonense, alemã, criatura média, lisboeta

de praia, classe média que vomita starbucks e que se afunda

em botafogos e urcas perdidas

classe alta que se camufla na barra

classe ridícula que se renega zona oeste

ou zona norte

tijuca sulacap realengo mil nomes pro mesmo lugar

a classe cosmopolitan

logo eu, que nem sei andar de salto

sobrevivo de saltar sobre as estatísticas

que me querem morta

pelas mãos masculinas que me rodeiam.

mas larguei isso tudo

era uma fuga

larguei tudo na avenida nossa senhora de copacabana

suas ruas todas iguais de velhos endinheirados

e mesmo que a urca brilhasse lá longe

naquela fáustica desgraça teus olhos

viratempo de agonia na ponte rio-niterói

o teu sorriso de trapaça e quizila e quebranto

afinando o meu desespero de subir e te amar

longamente nos meus

sonhos absurdos com mares salgados

quanto do teu sal são lágrimas brasileiras, ó portugal

de misérias

mesmo que a urca brilhasse nas ondas do teu violão

e na minha desarmonia, eu me desviasse

das notas de qualquer tom. era amor, afinal.

os olhos tiranos do meu desejo traído

teu nome é uma falácia e uma algema

tuas músicas de ameaça e jorge de lima

diamantes de sangue, beijo de fel

o bom filho pródigo ao lar

retorna cansado de tudo ter visto

e renasce do ventre de outras águas

cabeça em são joão de meriti

pernas de rio guandu

braços abertos sobre a via Luz, quanta Luz

coração num baobá ancestral

bandeira branca de Tempo

olhos de amendoeira da rua da Matriz

e na rua hilda lima eu aprendi a ler o mundo

passagem estrada na rua santa teresa

eu aprendi a rezar

pra meio-mundo

rua tempo estrada encruza

templo ao Ogum-dará

de onde bradei ao universo:

a baixada fluminense é meu espírito santo

que desce em mim e me toma por completo

um coração de sabiá, um peito de aço

que me guia 

nas avenidas de Joca

nas ruas dos xavantes

nas encruzilhadas de Tranca Rua das Almas

de onde bradei:

nada de ti me devora

nem essa saudade estranha

de onde colhi meu dicionário de

memórias

de onde inventei minha narrativa extática

conquistando a história do meu sangue

através destes versos desesperados

nada de príncipes no meu mundo

só há pais, mães, avós, vizinhos

todos da minha raiz de guiné

dançando virado em Joãozinho

que ensina: de um Duque à Gomeia é um salto quântico

São João de Meriti é

meu divino estado de

emergência

meu tamanho estado de

emergência

meu sinistro estado de

emergência

minha carapaça, minha 

terra território

cama, mesa, banho e alegria 

meu céu estrelado

campanário lunar

meus galpões de sonho

meu som e minha fúria

Emergi, olhei pra frente

encarnando os vitrais 

flamejantes de são joão de miriti

os olhos de Gaia, a explosão áurea da tarde

my sleeping sun

que esfacela paredes e muros

a indiferença pós-moderna

aqui não tem vez

liberdade e responsabilidades são os Ibeji eternizados

eu grito vir-a-ser e ao nada que posso

um raio partiu brasília em duas

crateras brutais

minha veia pulsa de múltiplos lamentos

e sei que mulheres não só afundam navios

como derrubam déspotas e

salvam crianças

mesmo que não sejam

seus filhos.

não há sequer um príncipe

um rei, um presidente

nesse mundo.

mundo de terras devastadas

mulheres que lutam

pela comida de cada dia

e deusas que sangram

alimentando a terra

com suas lágrimas.

Salve, meu São João menino

costurado em miriti.

Saravá, meu pai Xangô!

Misericórdia de nós, 

nesse turbilhão de país,

onde tem gente com fome

tem gente com fome

tem gente com fome

de mundo.

de mundo.

de mundo.

de mundos.

A minha fome

é misteriosa e delirante.

Sonhada e entretecida

com palavras e dores

de um rosário entre imensidões

e memórias.

Mais do que tudo que tentei

Mais do que tudo que amei

Mais do que todos que odiei

Mais do que tudo que me matou

Mais do que tudo que me ressuscitou

Mais do que eu

Maior que qualquer desígnio divino

Maior que a fome

são os ares de Maria.

As dores do percalço me perseguem

vindo pelas linhas do trem.

Ao Ogum-dará eu sobrevivi

e nenhuma fome me matou.

Eu sei de onde vim:

BF. Baixada Fluminense…

BF. Baixada Fluminense…

BF. Baixada Fluminense…


Éden, São João de Meriti. Foto: Acervo - BXD IN CENA.
Éden, São João de Meriti. Foto: Acervo - BXD IN CENA.

Mariana Belize é doutora em Literatura Brasileira (UFRJ). Nascida em São João de Meriti, moradora de Belford Roxo durante sete anos. Atualmente mora na cidade natal, São João de Meriti e faz trabalho voluntário na Rede Emancipa, em Santa Maria, na cidade de Belford Roxo. Criou o Projeto Literário Olho de Belize em 2015. O projeto está em processo de reformulação.

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