Leucenas: O perigo oculto no Horto de Queimados.
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Texto por: Alan Santana. Revisão: Fijó.

Durante uma breve caminhada pelo Horto Municipal Luiz Gonzaga de Macedo, a APA (Área de Proteção Ambiental) que fica na Baixada Fluminense e ocupa mais de 73 mil m² de mata e trilhas dá para notar, além das mudas nativas e do muito verde, um problema que já vinha aparecendo nos terrenos ao redor: as leucenas (Leucaena leucocephala).
É uma planta de fora do nosso Bioma da Mata Atlântica que cresce de um jeito assustador, aguenta condições bem hostis e se espalha numa velocidade impressionante. Não é à toa que ela está entre as 100 piores espécies invasoras do mundo, segundo a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza), uma lista que reúne espécies com histórico comprovado de causar estrago fora do lugar onde nasceram.
Uma ideia bem-intencionada, décadas atrás
A leucena veio da América Central e do México e chegou ao Brasil na década de 1940, trazida como opção de alimento para o gado. Ela aguenta solo pobre e clima difícil, se regenera fácil e cresce rápido, características que fizeram dela uma aposta atraente para pecuária, principalmente no semiárido nordestino.
Ela é uma leguminosa da família (Fabaceae), a mesma do feijão preto, tão presente na casa de qualquer brasileiro. Como toda leguminosa, ela enriquece o solo com nitrogênio, nutriente essencial para as plantas graças a uma parceria natural com bactérias do solo. Estudos mostram que ela pode fixar até 400 kg desse nutriente por hectare por ano. Por isso, além da pecuária, ela também virou opção usada por décadas em projetos de recuperação de terrenos degradados.

O problema é que o conhecimento acumulado nas décadas seguintes mostrou o outro lado dessa aposta: parte da literatura especializada hoje trata a introdução da leucena no país como uma decisão precipitada, tomada sem considerar o risco de ela se tornar uma invasora fora do seu ambiente original.
Uma “chuva de sementes” literalmente
O que torna a leucena especialmente perigosa é sua capacidade de se reproduzir. Uma única planta, ainda nova, já produz milhões de sementes guardadas em vagens, o que especialistas chamam de uma verdadeira “chuva de sementes” quando essas vagens se abrem.
Essas sementes têm uma casca resistente que atrasa a germinação logo depois de caírem no chão. Na prática, isso significa que elas não brotam todas de uma vez, ficam acumuladas no solo, guardadas, prontas pra brotar por anos, mesmo depois que as árvores adultas já foram cortadas. E a dispersão não é só por gravidade: aves e formigas carregam essas sementes pra bem longe da árvore original.

O que se observa dentro da APA
No Horto, além de plantas isoladas que nasceram por conta própria, existe uma verdadeira floresta dessa espécie bem perto do galpão de coleta seletiva, dentro dos limites da própria APA.
Isso preocupa, porque a Lei Municipal nº 1.042/11 de 27 de maio de 2011, que criou a APA Horto Municipal Luiz Gonzaga de Macedo, tem como objetivo proteger a mata e a qualidade da água que abastece a Bacia de Sepetiba. Uma população densa dessa invasora forma um bloco fechado de árvores que empobrece a biodiversidade ao redor e sufoca o crescimento de outras espécies, indo direto contra a razão de a APA existir. E isso numa área que já abriga espécies nativas da Mata Atlântica, como Ipê, Sibipiruna e Aroeira, plantadas ali há anos.
Outras cidades já estão agindo
Em junho de 2025, Campo Grande (MS) sancionou lei própria criando um Plano de Erradicação e Substituição da Leucena, proibindo até o plantio, comércio e transporte da espécie em todo o município, com multa para quem descumprir. O diagnóstico da própria prefeitura mostra a gravidade do problema: a leucena já ocupa praticamente todas as margens de córregos da capital, podendo reduzir em até 70% a diversidade de plantas nativas nas áreas onde se instala, além de liberar substâncias que atrapalham o crescimento de outras plantas ao redor.
Itapira (SP) também desenvolveu e documentou uma forma própria de erradicar a espécie em área protegida, hoje usada como referência por outros municípios com o mesmo problema.

Isto não é uma denúncia, é um alerta
O objetivo deste texto não é apontar culpados. É chamar atenção pra um risco real que espécies invasoras trazem pra um ambiente protegido: a leucena toma conta do espaço, sufoca plantas nativas que estão ali há anos e impede que novas mudas cresçam, tudo isso silenciosamente, enquanto o Horto segue cumprindo, aos olhos de quem passeia por ele, sua função de lazer e contato com a natureza.
É importante que isso entre no radar de quem cuida da APA, com um plano de manejo que inclua, aos poucos uma troca gradual da leucena por mudas nativas, técnicas para reter melhor a água da chuva, reduzindo a erosão do solo e promove um aumento da água que recarrega o subsolo, ajudando a recuperar a área.
Quanto antes esse cuidado começar, menor o esforço e o custo ambiental para reverter o problema.
Fontes e leituras recomendadas:
Prefeitura de Campo Grande (CGNotícias) — “Prefeitura sanciona plano para a erradicação e substituição da Leucena”;
Alves et al., “Redução da biodiversidade pela proliferação de Leucaena leucocephala e formas de contenção e controle desenvolvidos no município de Itapira-SP”,Brazilian Journal of Technology.

Alan Santana é nascido em Queimados, graduando no 8° periodo de licenciatura em Biologia, Pesquisador de Soluções Baseadas na Natureza e Tecnologias Sociais, Artesão de Plástico do tipo PEAD (Polietileno de Alta densidade), Produtor Cultural formado pelo CPPEC no Quilombo Enraizados e filho de uma Recifense. Co-fundador do Horto do São Miguel, também em Queimados, uma iniciativa agroecológica e de reciclagem criativa que é seu laboratório de quintal onde cria e testa Tecnologias pensadas por e para ajudar a periferia a resistir as mudanças climáticas.

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