Áreas ociosas em estações ferroviárias podem virar zonas verdes?
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- há 14 horas
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Texto por: Alan Santana.
Revisão: Fijó.
*Nota do Editor: Nesta produção textual, serão utilizados os nomes Comendador Soares e Morro Agudo para se referirem ao mesmo bairro do município de Nova Iguaçu, devido à disputa de narrativas ainda existente na região. Fonte: DUTRA, 2014 (referência completa ao final do texto.)
Terrenos degradados dentro da faixa de domínio das estações de trem, afastados dos trilhos por segurança, podem virar zonas de amortecimento arborizadas. A estação de Comendador Soares, em Morro Agudo (Ramal Japeri, Nova Iguaçu), é o ponto de partida: o entorno tem espaço de sobra para o plantio de árvores nativas e um sistema de drenagem ecológico, como jardins de chuva e florestas de bolso.
Por que essas faixas ferroviárias importam
Grande parte da malha ferroviária metropolitana do Rio de Janeiro atravessa bairros que sofrem com ilhas de calor: pouca cobertura vegetal, solo impermeabilizado e temperaturas altas. Os terrenos ociosos ao lado das linhas, hoje degradados, ficam justamente nesses pontos e raramente são aproveitados.



O que é uma zona de amortecimento e como funcionaria neste caso?
Zona de amortecimento é o termo usado, na ecologia e no planejamento ambiental, para uma faixa de transição que filtra os impactos entre duas áreas diferentes, geralmente aplicada ao redor de unidades de conservação. Aqui, a lógica se repete em escala menor: uma faixa vegetada entre os trilhos e a cidade, absorvendo calor, poluição e parte da água da chuva antes que cheguem às ruas.
Uma faixa arborizada ao longo do terreno poderia reunir o plantio de árvores nativas com técnicas agroecológicas, gerando alimento enquanto as mudas crescem; além de dispositivos de infiltração (valas, jardins de chuva, calçamento permeável) para reduzir o escoamento superficial da água da chuva; e ainda distância mínima de segurança em relação aos trilhos, já prevista pela própria faixa de domínio.

Ganhos para a população e para a TrensRJ
Esta intervenção atenderia a quatro frentes ao mesmo tempo: O bem-estar da população, com menos calor, mais sombra e ar mais limpo no entorno das estações; o aumento da infiltração das águas da chuva, com menos água escoando pelos trilhos reduz o risco de alagamentos no entorno; a compensação ambiental com o uso de terrenos ociosos para cumprir obrigações de reflorestamento e gestão hídrica; e a construção/manutenção da reputação da nova operadora, percebendo que o consórcio Nova Via Mobilidade, que assumiu a operação dos trens metropolitanos do Rio em maio de 2026 no lugar da SuperVia, ganha uma ação concreta de impacto social logo no início da nova concessão.
Um exemplo premiado: os jardins de chuva da CPTM
Nem toda estação tem espaço para uma faixa arborizada completa. Para esses casos, existe uma alternativa mais pontual e já testada no Brasil: os jardins de chuva. Jardins de chuva são canteiros com relevo rebaixado e solo preparado em camadas, com plantas que absorvem e retêm a água como uma esponja, reduzindo enchentes e enviando água mais limpa para o lençol freático.
A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, do Governo do Estado de São Paulo) ficou em segundo lugar no Prêmio Melhores Práticas 2021 da Associação Internacional de Transporte Público (UITP Latin America), com o projeto de jardins de chuva como infraestrutura de drenagem nas estações. A primeira a receber a intervenção foi a Estação Jaraguá, na Linha 7-Rubi, que sofria com alagamentos no acesso principal.

Uma ação que pode ser por todo o ramal
Vale levantar, estação por estação, quais trechos da faixa de domínio têm espaço e viabilidade técnica para esse tipo de intervenção. Morro Agudo pode servir de piloto: um projeto pequeno, mensurável, com resultado visível em poucos meses de crescimento das mudas. Além da estação de Comendador Soares, em Morro Agudo, outras estações têm terrenos ociosos com potencial semelhante: Austin, na Baixada Fluminense e Prefeito Bento Ribeiro, na Zona Norte, que já conta com algumas árvores, mas ainda carece de dispositivos de infiltração.

Parcerias com instituições acadêmicas e sociedade civil
Essa ação pode ser feita em parceria com instituições e coletivos tanto da sociedade civil, quanto da academia. Tal organização faria com que estudantes e formandos de engenharia ambiental, biologia e áreas relacionadas, além de praticantes de permacultura e agroecologia, poderiam aplicar esses conceitos na prática.
Bem planejadas, essas faixas também podem funcionar como pequenas ilhas verdes, pontos de passagem para pássaros que dispersam sementes entre fragmentos florestais maiores. Como os locais onde seriam feitas as intervenções recebem pouca circulação de pessoas, diferente de parques e áreas de reflorestamento mais movimentadas, esses trechos também servem como um protótipo de baixo custo: um lugar para observar, ao longo do tempo, como as mudas crescem com o mínimo de intervenção humana.
Por que agir agora?
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) já monitora a formação de um novo El Niño para o segundo semestre de 2026, com chance superior a 80% de se tornar um dos mais fortes já registrados. Na Baixada Fluminense, a previsão inclui calor intenso, baixa umidade e chuvas mais fortes — o mesmo padrão de rajadas de vento e ar seco que moradores da região já começam a sentir. A estação chuvosa se aproxima, e as políticas de adaptação climática não podem esperar.
Essa urgência não é nova, Há anos, a Coalizão O Clima é de Mudança, que reúne organizações periféricas no enfrentamento ao racismo ambiental e na pauta da adaptação climática, cobra resposta do poder público. Em 2024, a coalizão reuniu diversos coletivos do estado em um ciclo formativo que resultou na cartilha “O Que Queremos no Plano de Adaptação Antes do Próximo Verão”, voltada à incidência junto a gestores públicos.
Essas áreas vegetadas precisam ser criadas, e Morro Agudo pode ser o ponto de partida: um piloto pequeno e mensurável para uma Baixada Fluminense que já sofre com a crise climática.
Refs de Cria:
TrensRJ (Nova Via Mobilidade) assume a operação dos trens urbanos do Rio de Janeiro no lugar da SuperVia - Governo do Estado do Rio de Janeiro, 30 de maio de 2026. https://www.rj.gov.br/transporte/node/1007.
Estação Comendador Soares - TrensRJ, Ramal Japeri (Nova Iguaçu). https://www.supervia.com.br/sua-viagem-e-servicos/conheca-as-estacoes/comendador-soares/.
El Niño de 2026 pode ser um dos mais fortes da história e acende alerta na Baixada Fluminense — Site da Baixada, 22 de julho de 2026. https://sitedabaixada.com.br/geral/2026/07/22/el-nino-de-2026-pode-ser-um-dos-mais-fortes-da-historia-e-acende-alerta-na-baixada-fluminense.
Lei nº 9.985/2000 (institui o SNUC), art. 2º, inciso XVIII — define zona de amortecimento. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm.
Jardim de chuva na Estação Jaraguá é premiado por reduzir impacto das chuvas e melhorar conforto ambiental — Folha Noroeste. https://folhanoroeste.com.br/regional/jardim-de-chuva-na-estacao-jaragua-e-premiado-por-reduzir-impacto-das-chuvas-melhorar-o-conforto-ambiental-e-fomentar-a-biodiversidade/.
Os jardins que podem aumentar a resiliência climática e reduzir alagamentos em São Paulo — ((o))eco. https://oeco.org.br/reportagens/os-jardins-que-podem-aumentar-a-resiliencia-climatica-e-reduzir-ala gamentos-em-sao-paulo/.
Coalizão O Clima é de Mudança — cartilha “O Que Queremos no Plano de Adaptação Antes do Próximo Verão”, via RioOnWatch, 2024. https://rioonwatch.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Plano-Verao-de-Ada/.
DUTRA, Amanda Nogueira. Morro Agudo ou Comendador Soares? O conflito de memória em relação ao nome de um bairro de Nova Iguaçu 2014. 42 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História)–Instituto Multidisciplinar, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, 2014. Disponível em: https://centrodemoriagitaldenovaiguacu.wordpress.com/wp-content/uploads/2018/02/dutra-amanda-nogueira-2014.pdf. Acesso em: 12 ago. 2026.

Alan Santana é nascido em Queimados, graduando no 8° periodo de licenciatura em Biologia, Pesquisador de Soluções Baseadas na Natureza e Tecnologias Sociais, Artesão de Plástico do tipo PEAD (Polietileno de Alta densidade), Produtor Cultural formado pelo CPPEC no Quilombo Enraizados e filho de uma Recifense. Co-fundador do Horto do São Miguel, também em Queimados, uma iniciativa agroecológica e de reciclagem criativa que é seu laboratório de quintal onde cria e testa Tecnologias pensadas por e para ajudar a periferia a resistir as mudanças climáticas.




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