Minha liberdade satisfaz o meu prazer.
Como o baixadense se enxerga - pt. 9.
Mudanças bruscas, normalmente, não se explicam, a gente simplesmente faz. Geralmente, quando elas se fazem necessárias, é porque o silêncio ou a inércia já causaram consequências irreversíveis. Akascagrossa, cria do Complexo de Mali, pegou essa sensação e jogou na faixa "Magia", lançada em 2024. Ela parece só mais uma música triste de término, mas quem sente a música sabe que ali se canta outra coisa: a decisão de não ser mais definido pelo passado. E essa decisão acaba virando um jogo, uma brincadeira, uma negociação entre o que se era e o que se pode vir a ser.
Me desapegar, confesso foi difícil
Minha abstinência, você sempre foi meu vício
Tanto tempo junto, mas nunca quis compromisso
Como acreditar nesse seu amor fictício?
A palavra "abstinência" não está ali por acaso, ela carrega o peso de quem sabe que o que parecia sustentar também era o que fazia mal. A pessoa amada é tratada como uma substância, ou ao menos o corpo respondia como se fosse. O vício não é a droga, o compromisso nunca veio, e o amor era fictício. Mesmo com isso tudo, ainda doeu largar.
Se pensar em me ligar,
Sabe, eu não vou atender
O nosso lance terminou
Eu não quero mais saber de
Nada que vem de você
Baby, o que passou ficou pra' trás
"Não vou atender" não é uma ameaça, é uma sentença. A música, nesse ponto, já não pede mais nada, só atesta, porque o que vem depois não é vingança, não é rancor, é o silêncio de quem já não precisa responder.
Tô levando a vida
E já faz tempo que eu nunca senti
Mudei meu endereço, CEP, chip, telefone aqui
Cortei todos os laços que me levavam até você
Não me interessa nada que 'cê pretende fazer
Essa estrofe fala sobre se tornar outro. Trocar o chip, o número, o endereço... Cada um desses gestos é uma camada que se desprende, dando a impressão de que é preciso uma reconfiguração, mas que vem de dentro pra fora. O corte dos laços não é violência, e pouco interessa o que vai ser feito:
Seu feitiço não me pega,
Sua magia já não faz efeito
Eu não caio nessa
De ficar sendo só seu brinquedo
Me valorizei
Eu acho que deu certo
De tudo o que já passei, esse é o melhor momento
Truque só funciona enquanto a gente acredita, enquanto a gente não vê a mão que faz o feitiço. O eu-lírico, ao entender o que está acontecendo, diz que se valorizou, como quem precisava ver para crer, e crer em si mesmo(a).
Me esquivando da sua lábia e também do seu golpe
Não me espere em casa, porque talvez eu não volte
Guarda na memória todas as vezes que eu já te amei
Ninguém vai te tratar da maneira que eu te tratei
Aqui, depois de entender o jogo de quem se aproxima sem se entregar, o eu-lírico demonstra sua escolha: talvez não volte, e talvez seja bom guardar na memória os momentos bons, pois ninguém vai agir como ele(a) agiu com você. Isso reforça a ideia de que o que foi entregue que não vai ser novamente.
Sigo meu destino (Hmmm)
Não preciso mais do seu sorriso pra' viver
Não morro iludido (Não)
Minha liberdade satisfaz o meu prazer
O destino não é o que acontece, são as escolhas que a gente toma. A liberdade, aqui, é pura e simplesmente o prazer da autossuficiência. Saber que não precisa de mais nada nem ninguém além de si faz com que a ilusão não mate mais. A realidade sou eu, e eu sou suficiente.

O deslocamento do eu-lírico é o que Stuart Hall[1] chamaria de reposicionamento narrativo: a identidade não é uma essência que se carrega, mas uma história que se reconta a partir de onde a gente está.
Partindo deste ponto, cada repetição do refrão parece ser um gesto que vai constituindo o sujeito livre, sem essência, e sim por um efeito de atos repetidos. O eu-lírico não descreve a liberdade, mas a torna real cada vez que canta o refrão. Em Butler[2], podemos dizer que aqui o gesto, ou a repetição deles, cria aquilo que nomeia.
E, pensando numa terceira nuance, ao cantar, Akascagrossa embaralha tudo: não se sabe mais se ela canta sobre si ou sobre a história de quem está ouvindo. O "eu" da música é tão específico que parece autobiográfico mas, ao mesmo tempo, é também tão aberto que qualquer pessoa que já tenha precisado recomeçar pode se reconhecer ali. Essa identificação vem da empatia de saber o que aquela situação significa.
É nesse ponto que, para Maria José de Abreu[3], a performance é uma "terra de ninguém", um espaço onde as fronteiras entre o íntimo e o público, entre o eu e o outro, se dissolvem. A artista, ao cantar, oferece um gesto, uma situação, uma dor... um lugar que pode ser habitado por qualquer um. A especificidade da experiência não a torna fechada, a torna um lugar de passagem, fazendo com que quem ouve esteja tanto testemunhando uma história alheia quanto encontrando a própria. Nessa comunhão entre o particular e o coletivo, o sujeito baixadense se expande. A "terra de ninguém" deixa de ser um vazio para virar um campo de possibilidades onde a experiência pessoal se torna matéria de encontro.

Akascagrossa canta no singular, mas sua voz se espalha como se fosse plural. O que começa como um desabafo íntimo termina como um gesto coletivo: a liberdade que satisfaz o prazer não é só dela, é de quem ouve e se reconhece.
A música não entrega uma resposta, entrega uma escolha. Trocar o chip, cortar os laços, dizer "não vou atender"... Tudo isso é reescrever a própria história a partir de um lugar novo. A Baixada, território de recomeços, é o cenário onde essa escolha faz mais sentido porque, aqui, a gente aprende que a única magia que não se desfaz é a que a gente faz com a própria vida.
O refrão se repete como quem confirma a decisão.
O que passou ficou pra trás.
O que vem agora é da conta de quem escolheu.
Refs de Cria: [1] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
[2] BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
[3] ABREU, Maria José A. de. Pessoalidade ou a terra de ninguém da performance. In: A terra do não-lugar: Diálogos entre antropologia e performance. Florianópolis: EDUFSC, 2013. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002470112. Acesso em: 24 ago. 2026.

Fijó é comunicador social, músico e produtor cultural. Idealizador do Ideias de Hermes Podcast/O Hermes da Baixada e do Shuffle BXD, criador da camisa "SARAPUÍ", integrante dos coletivos Instituto BXD e BXD IN CENA e coordenador/revisor do BXDISSE. Tecladista dos artistas Capelloni, Tabita Infinito, CAYÚ e Mtzyn ¿. Constrói no site do BXD IN CENA os estudos "Como o baixadense se enxerga?", buscando discutir obras musicais de artistas baixadenses e como funciona a representação do que é ser baixadense para essas pessoas.




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