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Feiras livres, culturas vivas.

Atualizado: há 4 dias

Texto por: Jéz.

Revisão: Fijó.


Feira de Areia Branca, Belford Roxo. Foto: Acervo - Jéz.
Feira de Areia Branca, Belford Roxo. Foto: Acervo - Jéz.

Certa vez, conversando com Heraldo HB, um dos fundadores do Cineclube Mate com Angu, bem em frente ao Espaço Cultural BXD IN CENA, comentei sobre uma coincidência que nunca saiu da minha cabeça: quase todo espaço cultural da Baixada Fluminense parece ter uma feira livre por perto. Desde então, passei a enxergar as feiras como um dos maiores movimentos populares de encontro e troca cultural que existem por aqui.


Todo domingo eu tenho um ritual: vou à feira. E não é só por causa do pastel, do caldo de cana ou dos garimpos de vinis, CDs, fitas K7 e objetos antigos. A feira, para mim, tem algo de ancestral. É um espaço onde gosto de caminhar sem pressa, observando os detalhes: a alegria de quem vende, o jeito de anunciar os preços em voz alta, a criatividade das barracas, as cores, os cheiros e os sons. Tudo ali parece formar uma grande orquestra popular.


E não fico preso a uma feira só. Gosto de conhecer as feiras da BXD como quem visita diferentes centros culturais. Às vezes vou à Feira de Areia Branca, em Belford Roxo. Outras vezes estou na tradicional Feira de Caxias, que praticamente se divide em três. Também frequento a Feira do Jardim Metrópole, em São João de Meriti, que fica pertinho da minha casa, já visitei a de Nilópolis e ainda quero conhecer muitas outras espalhadas pelos municípios da nossa região.


Voltando à conversa sobre os espaços culturais, comecei a perceber que essa relação entre cultura e feira talvez não seja coincidência. Perto do Gomeia Galpão Criativo está um dos melhores lugares para garimpar antiguidades: a Feira de Caxias. Ao lado do Espaço BiC acontece, todas as quintas-feiras, a Feira de Coelho da Rocha. Próximo ao Instituto Enraizados está a Feira de Morro Agudo. E perto do Centro Cultural Donana encontramos a feira de Areia Branca que, por causa das obras na região, tem mudado de lugar algumas vezes, mas continua fazendo parte da paisagem e da vida daquele território.


Quando a gente pensa em feira livre, normalmente lembra das frutas, das verduras, do pastel e da conversa com o feirante. Mas elas são muito mais do que isso.


Feira de Duque de Caxias. Foto: Acervo - Jéz.
Feira de Duque de Caxias. Foto: Acervo - Jéz.

As feiras da Baixada Fluminense fazem parte da nossa história. Movimentam a economia dos bairros, ajudam pequenos produtores e comerciantes a garantirem sua renda e criam um espaço onde as pessoas se encontram, trocam experiências e mantêm vivas tradições que atravessam gerações.


Mesmo com o crescimento dos supermercados e das grandes redes varejistas, as feiras continuam resistindo. Elas fortalecem a agricultura familiar, valorizam o comércio local e mostram que existe outra forma de consumir: mais próxima de quem produz, mais próxima do território e das pessoas.


Na Baixada, a feira também é um espaço de memória. É o jeito de falar, os pregões dos vendedores, os cheiros das comidas, as receitas, os encontros de domingo e as histórias contadas entre uma barraca e outra. Tudo isso ajuda a construir a identidade baixadense.

Talvez seja justamente por isso que tantas feiras e tantos espaços culturais caminhem lado a lado. Ambos são lugares onde a cultura acontece de forma espontânea. Onde as pessoas se encontram, criam vínculos, compartilham saberes e mantêm viva a memória do nosso povo.


Defender uma feira livre é, de certa forma, defender também a cultura da Baixada Fluminense.


Feira do Jardim Metrópole, São João de Meriti. Foto: Acervo - Jéz.
Feira do Jardim Metrópole, São João de Meriti. Foto: Acervo - Jéz.
Jéz BXD.

Cria da Vila Ruth, em São João de Meriti (RJ), Jéz é produtor cultural, artista, músico e pesquisador entusiasta da Baixada Fluminense. Está à frente do BXD IN CENA, projeto do qual é diretor, além de atuar como gestor do Espaço BXD IN CENA e diretor do Prêmio BXD IN CENA. Também articulou, ao lado de outros coletivos da região, a iniciativa Baixada [R]existe, fortalecendo redes de colaboração e valorização da produção cultural baixadense. Seu trabalho é dedicado à preservação da memória, ao fortalecimento da cultura popular e à criação de espaços de encontro para artistas e fazedores de cultura da Baixada Fluminense.


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