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Manual do voto baixadense: vote pelo território.

Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó.


Território: o espaço geográfico transformado pela ação humana, atravessado por relações de poder, técnicas e vida social. Essa definição é de Milton Santos[1] para o que é território. Quando leio essa definição, me parece que pode ser muito raso o entendimento que um território como a BXD esteja sempre associado aos votos de candidatos contrários às políticas públicas que estruturam nosso ambiente. 


Não só essa definição como toda, mas especificamente "relações de poder", para a BXD, significa muitos conceitos.

Poder paralelo como as milícias e o tráfico.

Poder evangélico.

Monopólio familiar de poder político.

Na Baixada Fluminense, ou em qualquer território sucateado no RJ, temos um fenômeno de votos mais distantes da realidade que queremos, com melhorias de infraestrutura. Isso porque somos levados a votar em conjunto pelas relações de poder


Falar que há lugares no nosso território que há imposição de voto é mais do mesmo. Todos sabemos que há essa imposição e persuasão. Alguns lugares mais explícitos do que outros. Ainda assim, há uma sequência e, consequentemente, quebra dessa sequência que podemos fazer: votar no nosso território.


Mantendo com as palavras de Milton Santos: 

"O território não é apenas o conjunto dos meios naturais e dos meios construídos de que uma sociedade dispõe. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, a identidade pertencente à realidade e ao sentimento de pertencer ao que nos cerca." (SANTOS, 2002)[2].

Quando você pensa em quem votar, você também pensa em identidade sobre as pautas que mais se alinham com seu posicionamento ideológico, certo? Sendo assim:


Por que não pensamos em um voto mais identitário com a nossa BXD?

O baixadense precisa ver os seus não só como número representativo, mas com ações distributivas, efetivas e construtivas. Um ponto de partida é enxergar os candidatos que se posicionam no território para além do período eleitoral. E isso também é enxergar o passado desse pessoal. Eles carregam e ocupam o mesmo espaço que a gente no transporte diário, na ausência de saneamento na tua área e, principalmente, se esses candidatos não estão ligados ao poder político familiar que vende nosso território para o poder paralelo.  


Voto político é muito simples. Você escolhe com quem mais simpatiza ou quem a igreja pede voto. Ou quem fala que vai fazer uma obra na região. E isso faz um cara com esquemas ligados a ex-parlamentares presos, investigados e cassados ter repertório para ganhar espaço no nosso território. Não só ganhar espaço, mas também ganhar eleitorado com forte rejeição de quem realmente quer construir uma Baixada Fluminense melhor. 


"Fundamento", de Eufena e R.Diop, discute as prioridades do Estado em relação à juventude negra periférica. Fonte: YouTube / Eufena - Topic.

Nosso território não é convite de passagem.

É espaço para a nossa ocupação, nossas lutas e nossas disposições para sonhos reais. Queremos infraestrutura, mas também feiras artísticas. Queremos trabalhar sem demorar 2h no transporte. Queremos o avanço na materialização das Unidades de Saúde. Queremos espaços e ruas seguras, pensadas por quem sabe como é morar em um lugar marginalizado. Queremos estar tranquilos com um transporte menos sucateado e, além das ruas asfaltadas, ter o nosso lazer por aqui.


Não é por acaso que, mesmo representando cerca de 25% de todo o eleitorado do Estado do Rio de Janeiro, a Baixada ainda abriga municípios entre os piores do Brasil em tratamento de esgoto[3] e onde a classe trabalhadora perde mais de 2 horas por dia em trens e ônibus sucateados. As "relações de poder" usam nosso voto, mas não devolvem dignidade. Mesmo concentrando 1 em cada 4 votos do estado, nosso território continua refém de propostas assistencialistas em vez de projetos orçamentários estruturantes de longo prazo.


"Somos um povo novo que nasce da desorganização de matrizes tantas, mas que se inventa na dor e na resistência para criar uma civilização própria no tropico." (RIBEIRO, 1995)[4].

Charge abordando a situação dos trabalhadores da Baixada Fluminense no fim dos anos 1970. Fonte: Reprodução / Jornal da Baixada.
Charge abordando a situação dos trabalhadores da Baixada Fluminense no fim dos anos 1970. Fonte: Repositório / Jornal da Baixada.

Quem sou eu para falar com você em quem deve votar em 2026. Não tenho nem repertório político o suficiente para isso. Tenho 24 anos, participei de 3 eleições, podendo votar para Estadual e Federal. Estudo Ciência Política, mas sei que a teoria acaba sendo ultrapassando a prática. E a prática ainda acaba sendo avaliada por território


Refs de Cria:

[1] SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 2006.


[2] SANTOS, Milton. O chão e a população. SANTOS, Milton. O País Distorcido: ensaios de cidadania e territorialidade. São Paulo: Publifolha, 2002.


[3] BRASIL DE FATO. Baixada Fluminense tem os piores índices de saneamento entre os 100 maiores municípios do país. Brasil de Fato, Rio de Janeiro, 22 mar. 2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/03/22/baixada-fluminense-tem-os-piores-indices-de-saneamento-entre-os-100-maiores-municipios-do-pais. Acesso em: 28 ago. 2026.


[4] RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.




Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.



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