top of page

Um homem morto.

Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó.


Estação de metrô na Pavuna é uma das divisórias entre a cidade do Rio de Janeiro e a Baixada Fluminense por meio de São João de Meriti. Foto: Reprodução // MetrôRio.
Foto: Reprodução // MetrôRio.

Na segunda-feira, dia 8 de junho, enquanto eu descia as escadas do metrô na Pavuna, voltando do trabalho, percebi uma movimentação mais agitada e acelerada. Eram aproximadamente 20h10. A movimentação não parecia atrapalhar quem estava querendo fazer o mesmo que eu: voltar para casa. Ninguém que estava descendo as escadas pareceu entender o contrafluxo de pessoas. Seguindo até o ponto, no meio da divisa entre São João e Pavuna, encontro uma mulher desesperada, gritando pelo seu acompanhante que acabara de morrer ali no local. Ele estava com um pano tampando a cabeça, casaco azul-escuro e bermuda jeans. Não fiquei para saber a causa da morte.


Ele morreu, ela gritava pedindo ajuda. Não fiquei nem para ajudar, para saber se podia fazer algo, ou se alguém já havia ligado para a ambulância. A conversa que rolava por alto era de que ele tinha sido morto a tiros, com disparos na cabeça. Minha pressa toda era para chegar em casa.


Eu pego o ônibus às 20h40 para chegar, no mínimo, às 21h20 em casa. Atrasar 5 minutos é perder 1h. Mas eu não fiquei para saber por que um morador da Baixada morreu violentamente. Nem o instinto jornalístico veio; era a minha vontade de ir para casa falando que, para mim, já deu.


Eu passei por um corpo, de um homem que parecia ter entre 28 e 32 anos, e agi como se a minha pressa fosse mais importante que saber e ajudar. Eu não sou apático. Não sou indiferente. Mas a minha "cidade-dormitório" exigia meu descanso. Não era justo o meu descanso também? Eu poderia saber o que aconteceu depois. Pois bem, pesquisei depois. Não achei informações. Será que eu me tornei insensível? Na verdade, acho que foi só a correria mesmo.


O fato de morar a quase 2h de distância do trabalho, sempre esperar mais de 30 minutos para pegar um transporte em uma região que está até cogitando acabar com linhas de ônibus essenciais para a locomoção... A Baixada é cruel. Ela massifica muitas informações, muitos atos e muitas coisas que você achava que eram inconcebíveis. Talvez isso tenha me feito passar direto e não saber nem a causa da morte.


Não posso ignorar que, morando na Baixada, se eu ficasse e a causa da morte fosse realmente por disparos, todas as interrogações viriam à mente e você não quer ficar para saber. Não há necessidade de explicar quais perguntas vinham à mente, mas elas apareceram para confrontar uma verdade absoluta também:


Não temos tempo para os nossos.


"Eu sou do relógio da Central, eu mermo', de Saracuruna", trecho de "Cidade Cemitério", pelos artistas NATÖ e Rojão. Foto: Reprodução // Severino Silva / Agência O Dia.
"Eu sou do relógio da Central, eu mermo', de Saracuruna", trecho de "Cidade Cemitério", pelos artistas NATÖ e Rojão. Foto: Reprodução // Severino Silva / Agência O Dia.

Eu não conhecia aquele homem que estava jogado no chão, nem a mulher dele que estava pedindo ajuda. Mas ele deveria ser da Baixada. É um dos nossos. Quantas vezes deixamos de ter tempo para os nossos só porque vivemos no trabalho e voltamos com pressa para as "cidades-dormitório", que é a nossa BXD?


Pensei sobre o meu próprio distanciamento, percebi que o que vivi ali não foi um lapso de caráter ou uma insensibilidade egoísta. Foi a materialização viva do que Milton Santos[1] conceitua como a "espoliação do tempo" e as "cidadanias mutiladas". Como geógrafo e pensador do nosso território, Milton Santos nos ensina que o espaço urbano não é neutro: ele é desenhado para segregar. A Baixada Fluminense, como cidade-dormitório, funciona como uma engrenagem que reduz o indivíduo à sua mera força de trabalho. Nós somos empurrados para as margens e obrigados a viver distantes. O tempo gasto no transporte, essas três ou quatro horas diárias trancadas em transportes precários, é, na verdade, um tempo alienado. Um tempo que nos é roubado


E quando digo tempo, também quero reforçar a empatia e a assistência com o próximo. Isso, talvez, seja um problema geral das sociedades. Mas nós, da Baixada, somos vítimas pelo depósito de uma mão de obra que mora e trabalha distante. Não foi somente eu que não ajudei aquela mulher. Várias pessoas passaram e não ajudaram. Mas prefiro trazer essa discussão em primeira pessoa, justamente para não trazer sempre a responsabilidade para um “alguém” que não sabemos se vai aparecer. 


Refs de Cria:

[1] SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. 5. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2005.






Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.






Comentários


rodape bxd in cena
  • Instagram
  • Twitter
  • Youtube
  • TikTok
bottom of page