E se a BXD entrasse em greve?
- BXD IN CENA
- há 1 dia
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Texto por: Josué Matheus.
Revisão: Fijó.

No penúltimo dia de junho, segunda-feira, 29, os motoristas de ônibus da cidade do Rio de Janeiro iniciaram uma greve reivindicando melhores condições de trabalho, salários mais justos e o fim de contratos temporários para a transição ao regime CLT. Todo apoio aos grevistas. Essa movimentação é importante até para entendermos como o transporte está sucateado, inclusive para os seus colaboradores.
Para os que não lembram, também era dia de jogo da Seleção Brasileira contra o Japão pelos 16-avos de final da Copa do Mundo. Decidi assistir à partida com duas pessoas próximas, pela energia e pela alegria do momento. Uma delas mora em Queimados; a outra, em Olaria. Eu, que moro em São João de Meriti, não senti dificuldades para chegar ao local marcado, em Del Castilho. A pessoa que mora em Queimados também não teve a sua rota atrapalhada. Mas a que mora em Olaria teve o trajeto totalmente comprometido.
É claro que, quando digo que não senti dificuldades, é porque já estou acostumado a andar 10 minutos até o ponto de ônibus mais próximo, esperar 20 minutos ou mais para pegar a primeira condução e andar mais 10 minutos até a estação de metrô mais próxima: a Pavuna. A pessoa de Queimados também enfrentou os percalços de pegar a van, a demora para sair, a chegada à Central e a volta em sentido a Del Castilho. Mas nada que estivesse fora da nossa rotina.
A Baixada Fluminense abriga aproximadamente 22% da população total do Estado do Rio de Janeiro. Seis de suas cidades possuem índices de pessoas que trabalham fora de seu município de origem próximos ou superiores a 50% de acordo com dados do último Censo do IBGE (2022).

É justo pontuar que, nessa porcentagem de pessoas que trabalham fora da BXD, nem todas vão diretamente para a capital. No entanto, os mesmos dados mostram a porcentagem por município de quem trabalha especificamente no Rio e, mesmo assim, a Baixada lidera.
Enquanto comemorava a vitória do Brasil de virada contra o Japão, me peguei pensando: e se a BXD parasse em greve? E se cruzássemos os braços pelas condições precárias dos trens, pela superlotação do metrô, pelos ônibus cheios e com intervalos imprevisíveis, pela falta de banheiros decentes nas principais estações, pelo preço absurdo da passagem e pelo tempo de deslocamento?
Nossas condições para chegar ao Centro, por exemplo, já são sofríveis. Talvez quem veja de fora pense que a solução seria apenas trabalhar na própria BXD, não sair do município e se manter circulando pela região. Essa poderia ser uma boa alternativa se o mercado não fosse tão centralizado, atraindo para a cidade do Rio de Janeiro a maior parte da mão de obra e dos empregos com condições mais dignas. Mas nós não queremos nos isolar; queremos integrar e participar.
Como os empregos estão concentrados no Rio, a Baixada inteira se desloca nos mesmos horários. O resultado? Trens e estradas entupidos na hora de ir trabalhar. Um sistema caro, ineficiente e que cobra o preço na saúde física e mental da população (Silva; Melo, 2020).
E se a BXD reivindicar sua condição, não apenas como cidade-dormitório, mas pela dignidade que merecemos? O metrô na Baixada que nunca saiu do papel, ramais ferroviários em melhores condições e com intervalos menores, e até mesmo uma integração real com o Corredor TransBrasil do BRT. Chega de fazer com que nossa mão de obra seja necessária na Capital, enquanto somos penalizados com o cansaço diário de uma mobilidade distante.
Uma greve na BXD não seria apenas cruzar os braços; seria desligar os motores da Capital. Se os 24,2% de representação que temos na ALERJ passassem uma única semana dependendo do ramal de Gramacho ou cruzando a passarela de Sarapuí em dia de chuva, o metrô da Baixada já teria saído do papel há décadas. A pré-campanha já começou. Eles vão vir aqui pedir o seu voto.
Mas e se tivessem que negociar com a gente, nos atenderiam?
Todo apoio aos camaradas motoristas.

Refs de Cria: [1] Censo IBGE 2022. https://censo2022.ibge.gov.br/panorama/index.html?localidade=BR. Acesso em: 07 jul. 2026.
[2] DA SILVA, Carlos Daniel Santos; MELO, Thadeu André. Mobilidade urbana: perspectivas, avanços e desafios na Baixada Fluminense. ANTP-Associação Nacional de Transportes Públicos, 2020. Disponível em: https://files.antp.org.br/2019/10/11/2019.10.10_comunicaotecnica_thadeu-andre-e-carlos-daniel_modif.pdf. Acesso em: 07 jul. 2026.

Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.



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