Os condenados da Baixada.
- BXD IN CENA
- 1 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: 1 de jun.
Texto: Josué Matheus.
Revisão: Fijó.

Neste segundo fim de semana de maio, no sábado (16), decidi assistir a “Fanon”, filme que conta uma parte da história do psiquiatra e revolucionário Frantz Fanon durante sua estadia na Argélia. A exibição do filme iniciou no dia 14 de maio nos cinemas da Estação Net de Cinema, na Gávea e em Botafogo.
É uma obra que toda pessoa, esteja estudando Fanon ou não, seja baixadense ou não, deveria assistir. A frase inicial, baseada em um trecho de Os Condenados da Terra, livro de Fanon, já faz valer o ingresso:
“Cada geração deve, em uma relativa opacidade, descobrir sua missão, cumpri-la ou traí-la.”
Frantz Fanon, em Os Condenados da Terra, 1961.
A minha geração, hoje, tornou-se muito interligada ao termo “militância”. E, sendo bem sincero, espero não fugir disso. Ser baixadense não me deixa fugir disso. Posso começar pelo fato de que, como a distribuição do filme se concentrou em uma região majoritariamente branca e de classe alta, na minha sessão, de pessoas negras, só estavam minha amiga Beatriz e mais uma mulher. Quando terminamos a sessão, iniciava outra e, na fila, havia pouquíssimas pessoas negras (não direi que não vi nenhuma, pois pode ser que houvesse alguma) para assistir ao filme.
Estação Net de Cinema, entenda: sabemos que não é culpa de vocês.
A obra de Jean-Claude Barny, diretor do filme, utiliza recursos que o próprio Fanon debate em seus livros, como a análise psicanalítica e a desenvoltura com que o racismo afeta o mente e o corpo, sempre sob uma visão anticolonial. Mas calma, aqui é sem spoiler.
Além da questão racial da sala, quero trazer duas verdades: consumir cinema e cultura é caro e distante para quem é baixadense.
Um filme como este, que trata de reflexões e conceitos críticos sobre o combate ao racismo, a luta anticolonial e o processo de descolonização da Argélia, nunca chegará a uma rede de cinema como as localizadas em Duque de Caxias e em São João de Meriti.
Eu, saindo de SJM, esperando ônibus e caminhando até a Estação de Metrô Pavuna para chegar à Estação de Botafogo, demorei uma hora e cinquenta minutos, no total. Um deslocamento inviável. Obviamente, para chegar rápido, nos adaptamos a pegar mototáxi, porque a espera pelo ônibus é quase incerta.
E quando digo “caro”, não me refiro à questão de valores financeiros. Falo de tempo. Tempo que poderíamos poupar, mas nossa região não é vista como receptora cultural de obras desse nível. Uma pessoa que trabalha na escala 6x1, dificilmente irá querer perder quase 2h da sua ida, sem contar a volta, para ir ao cinema em Botafogo.

Talvez por estar em francês e não ter dublagem, não o tenham remanejado para outros cinemas. Porém, me questiono: eu, como baixadense, não lembro de ter assistido a um filme sequer legendado nos cinemas da Baixada Fluminense. Para quem conhece cinema, a imersão, o apoio e as cargas emocionais na voz dos atores trazem uma mudança significativa na experiência. Apesar de eu apoiar, e seguir apoiando, a dublagem nacional.
E isso não é apenas uma impressão minha. Os mapas de desigualdade cultural da Casa Fluminense e os dados da ANCINE mostram ano após ano o óbvio: as salas de cinema de rua e os circuitos de arte estão concentrados na Zona Sul do Rio, criando verdadeiros 'desertos culturais' na Baixada.
Nós somos confinados aos blockbusters dublados dos shoppings, sob a falsa justificativa de que 'o povo não consome cultura cult'. Pode parecer algo meio “frágil”, mas hoje você não encontra cinema, teatro e livraria tão fácil na Baixada. E quantas daquelas pessoas naquela sessão sairiam para ver um filme na Baixada? Os nossos não têm a mesma capacidade de ver um filme legendado ou obras consideradas mais cults?
Provavelmente, o argumento que vem à sua cabeça é que o povo da Baixada não consome ou não gosta. Mas não consome porque não tem ou porque nunca foi ofertado como cultura? Apenas direcionado para pessoas de alta classe, sempre brancas e em regiões mais “caras”?

Cinema é cultura, é arte e é desenvolvimento social. Ideias podem surgir de filmes. Um profissional pode surgir ao assistir a um filme. Um sonho real de uma Baixada mais cultural pode surgir de um filme. Então, por que apenas afastar a cultura do povo?
Esta é apenas uma reflexão visando à Baixada, mas sei que ela pode se refletir em vários subúrbios e no interior do Rio de Janeiro. Não somos, hoje, condenados da Terra? Então, porque quem consome são os outros?

Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.




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