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Por que a Baixada precisa contar a própria história?

há 9 minutos
6 min de leitura

Uma reflexão Instituto BXD.

Texto por: Fijó; Gab Blackk. Revisão: Fijó.


As movimentações de comunicação na Baixada Fluminense trazem visibilidade para os pontos fortes do nosso território que a grande mídia se recusa a mostrar. Foto: Acervo: ilovecamerinha / BXD IN CENA.
As movimentações independentes de comunicação na Baixada Fluminense trazem visibilidade para os pontos fortes do nosso território que a grande mídia se recusa a mostrar. Foto: Acervo: ilovecamerinha / BXD IN CENA.

A data de 3 de maio foi instituída pela UNESCO para lembrar ao mundo que uma imprensa livre, plural e responsável é um pilar essencial de qualquer democracia[1]. No entanto, liberdade não é licença. Ser livre demanda responsabilidade ,  e essa distinção, que parece abstrata em tempos de normalidade democrática, torna-se dramaticamente concreta quando revisitamos os períodos em que ela foi suprimida.


O espelho da censura

Durante a ditadura militar brasileira (1964–1985), a censura prévia e o confisco de edições inteiras de jornais foram instrumentos rotineiros de um Estado que não tolerava o contraditório. O jornal Movimento, fundado em 1975 por Raimundo Rodrigues Pereira e que se tornou um dos principais símbolos da resistência democrática, denunciava a violência do regime deixando espaços em branco nas páginas onde deveria haver texto , marcas visíveis da interferência da censura e da limitação à liberdade de imprensa[2]. Em 20 de setembro de 1972, o Correio do Povo teve sua edição inteira apreendida pelo Exército Brasileiro antes mesmo de circular. Os jornais foram levados para caminhões estacionados na rua Sete de Setembro, em Porto Alegre. Apenas alguns exemplares foram salvos por Francisca Espinosa, a “dona Chica”, funcionária do arquivo que desafiadoramente preservou a memória daquele dia sinistro de confisco[3].


Essa memória não é exercício de nostalgia: é um sinal brusco de alerta. A história demonstra que, quando uma única voz é autorizada a narrar os fatos, a verdade se torna refém.


Charge abordando a situação dos trabalhadores da Baixada Fluminense no fim dos anos 1970. Fonte: Repositório / Jornal da Baixada.
Charge abordando a situação dos trabalhadores da Baixada Fluminense no fim dos anos 1970. Fonte: Repositório / Jornal da Baixada.

O perigo de uma história única  e o que a Baixada sabe sobre isso

A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em sua conferência TED de 2009, formulou o conceito:

“O perigo de uma história única é que ela rouba a dignidade das pessoas, torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade compartilhada e enfatiza como somos diferentes em vez de como somos semelhantes”. Chimamanda Ngozi Adichie, em 2009, em seu TED Talks.

O estereótipo, como diz Chimamanda, não é perigoso por ser falso, mas por ser incompleto. Reduzir toda a complexidade de um povo, de um território e de seu contexto a um só aspecto é, em suas palavras, o perigo da história única[4].


A Baixada Fluminense conhece esse perigo de perto. Durante décadas, a grande mídia contou apenas uma versão da região: a da violência, da carência, da “terra sem lei”. Essa geografia imaginativa, construída de fora, ignora a diversidade e a potência dos 13 municípios.


A criação de espaços de diálogo em território baixadense é crucial para a produção e compartilhamento de saberes genuinamente nossos. Foto: Divulgação: Mylena Braga / Festival Caleidoscópio.
A criação de espaços de diálogo em território baixadense é crucial para a produção e compartilhamento de saberes genuinamente nossos. Foto: Divulgação: Mylena Braga / Festival Caleidoscópio.

Quem conta a história importa

É exatamente contra essa história única que surgem, resistem e se multiplicam os veículos de mídia independente e periférica na Baixada Fluminense. Não se trata de substituir um monopólio narrativo por outro, se trata de garantir que a história da região seja narrada por quem a conhece, a vive e a ama.


O Site da Baixada, fundado em 2006 por Wesley Brasil, define-se com clareza: “Somos uma plataforma de conteúdo que mostra pro mundo a Baixada Fluminense com o olhar de quem gosta de morar na região[5]. O Brava Baixada, por sua vez, declara em sua descrição: “A Baixada Fluminense vai muito além da imagem violenta que a grande mídia mostra. Mostramos isso por meio de notícias, dados e análises[6].


A esses somam-se O Hermes (IDHBXD), que também é podcast e projeto de comunicação que trata sobre a Baixada Fluminense através de artistas e outras personalidades do território, defendendo que a comunicação na região “tenha como ponto de partida a perspectiva do povo, de quem vive o cotidiano e as incertezas dele[7], o Voz da Baixada, coletivo de mídia livre organizado por jovens moradores da Baixada Fluminense com foco nas questões sociais da região[8], e o BXD IN CENA, que inicia como uma plataforma digital para artistas periféricos e hoje tem site, Prêmio BXD IN CENA e eventos culturais todo mês em seu espaço cultural em Coelho da Rocha[9].


O que une esses veículos não é uma linha editorial uniforme, mas um compromisso comum: furar a bolha da história única. Cada produção textual sobre um evento cultural em Nilópolis, cada entrevista com um artista de Belford Roxo, cada análise de dados sobre mobilidade urbana na Baixada é um gesto de reparação histórica. É a afirmação de que a Baixada não é um problema a ser resolvido pelas narrativas externas e, além disso, é um território de produção cultural, pensamento e resistência.


A disputa pela narrativa também passa pela preservação da memória.

Em nosso território, grande parte da nossa história não foi registrada em livros, arquivos ou museus, e ainda assim permanece viva pela oralidade. São as histórias contadas pelos nossos mais velhos, as lembranças compartilhadas nas calçadas, nos quintais, nas cozinhas, nas rodas de conversa e nas festas populares que mantêm vivas as memórias de um território muitas vezes ignorado pelos registros oficiais. Valorizar essas narrativas é reconhecer que a memória também é um patrimônio coletivo. Quando escutamos quem veio antes de nós, preservamos não apenas acontecimentos, mas modos de viver, de resistir, de construir comunidade e de imaginar futuros. Defender a memória da Baixada é, portanto, defender o direito de um povo contar sua própria história, com suas vozes, seus costumes e suas lembranças.


O Curumim Cria é uma iniciativa idealizada por Camilla Lemos, Anna Luiza e Ajami Dayo para democratizar o acesso à cultura e lazer para crianças e mulheres que maternam de forma itinerante. Esta pode ser uma nova forma de criar um espaço de produção e compartilhamento de saberes de geração em geração em nossa Baixada Fluminense através da oralidade. Foto: Divulgação / Curumim Cria.
O Curumim Cria é uma iniciativa idealizada por Camilla Lemos, Anna Luiza e Ajami Dayo para democratizar o acesso à cultura e lazer para crianças e mulheres que maternam de forma itinerante. Esta pode ser uma nova forma de criar um espaço de produção e compartilhamento de saberes de geração em geração em nossa Baixada Fluminense através da oralidade. Foto: Divulgação / Curumim Cria.

Liberdade com responsabilidade: o jornalismo que o território exige

É aqui que retornamos ao ponto de partida. A jurisprudência brasileira consagra o “binômio liberdade com responsabilidade” — “a plena proteção constitucional à liberdade de imprensa é consagrada pelo binômio liberdade com responsabilidade, vedada qualquer espécie de censura prévia”[10]. O jornalismo que a Baixada produz e merece não abre mão nem da liberdade nem da responsabilidade. Porque a liberdade sem compromisso com o território é só mais uma forma de ocupação.


Neste sentido, fazer comunicação comunitária no nosso território é reafirmar que a Baixada Fluminense tem o direito inegociável de contar sua própria história — em todas as suas camadas, contradições e belezas. E que esse direito se exerce com os pés no chão, o microfone na mão e a responsabilidade de quem sabe que a história única aprisiona, enquanto a multiplicidade de vozes liberta.


Gab Blackk foi colaboradora na produção deste texto. Foto: Divulgação: Mylena Braga / Festival Caleidoscópio.
Gab Blackk foi colaboradora na produção deste texto. Foto: Divulgação: Mylena Braga / Festival Caleidoscópio.

Gab Blackk é comunicadora, produtora cultural e mobilizadora social de Paracambi, na Baixada Fluminense. Sua atuação conecta comunicação, cultura, educação popular e participação cidadã, com foco em juventudes e territórios periféricos. Desenvolve estratégias de engajamento, formações e ações culturais voltadas ao fortalecimento comunitário, à incidência em políticas públicas e à ampliação de direitos, narrativas e imaginários por meio da construção coletiva.





Refs de Cria:

[1] UNESCO. World Press Freedom Day. UNESCO, 3 maio 2026. Disponível em: https://www.unesco.org/en/days/press-freedom. Acesso em: 4 mai. 2026.

[2] G1. Morre no Rio o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. g1, Rio de Janeiro, 2 maio 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/02/morre-jornalista-raimundo-rodrigues-pereira.ghtml. Acesso em: 4 mai. 2026.

[3] CORREIO DO POVO. A edição que nunca chegou aos leitores. Correio do Povo, Porto Alegre, 1 out. 2015. Disponível em: https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/geral/a-edi%C3%A7%C3%A3o-que-nunca-chegou-aos-leitores-1.184047. Acesso em: 4 maio 2026.

[4] GELEDÉS. Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história. Geledés, 16 mar. 2010. Disponível em: https://www.geledes.org.br/chimamanda-adichie-o-perigo-de-uma-unica-historia/. Acesso em: 4 maio 2026.

[5] SITE DA BAIXADA. Site da Baixada. [s.d.]. Disponível em: https://sitedabaixada.com.br/. Acesso em: 7 mai. 2026.

[6] BRAVA BAIXADA. Brava Baixada. [s.d.]. Disponível em: https://bravabaixada.com.br/. Acesso em: 7 mai. 2026.

[7] KUERQUES, Thiago. Fijó reúne música, esporte e comunicação como expressões de transformação na Baixada Fluminense. Site da Baixada, 15 nov. 2022. Disponível em: https://sitedabaixada.com.br/cultura/2022/11/15/fijo-reune-musica-esporte-e-comunicacao-como-expressoes-de-transformacao-na-baixada-fluminense/. Acesso em: 9 mai. 2026.

[8] VOZ DA BAIXADA. Voz da Baixada (em reconstrução). Medium, [s.d.]. Disponível em: https://medium.com/@jornalvozdabaixada. Acesso em: 9 mai. 2026.

[9] MEIA HORA. ‘BXD IN CENA’ na cena da Baixada. Meia Hora, Rio de Janeiro, 26 abr. 2026. Disponível em: https://www.meiahora.com.br/alo-comunidade/2026/04/7241196-bxd-in-cena-na-cena-da-baixada.html. Acesso em: 9 mai. 2026.

[10] MIGALHAS. Veja o que mudou em tese do STF sobre responsabilidade de imprensa. Migalhas, 20 mar. 2025. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/quentes/426654/veja-o-que-mudou-em-tese-do-stf-sobre-responsabilidade-de-imprensa. Acesso em: 9 mai. 2026. 

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