Taca fogo no mito!
Como o baixadense se enxerga - pt. 10.
Texto por: Fijó. Revisão: Josué Matheus.
Entre 2020 e 2022, o Brasil inteiro virou uma vala comum. Mais de 700 mil mortes por COVID-19, número que pode ser maior devido à possibilidade de subnotificação. A Baixada Fluminense, como sempre, foi uma das trincheiras mais expostas: transporte lotado, hospitais sem leito, trabalhadores essenciais voltando pra casa com o vírus no corpo e, enquanto o país enterrava seus mortos, o presidente da República à época, Jair Messias Bolsonaro, minimizava a pandemia, chamava de "gripezinha", atrasava a compra de vacinas por meio de seu ministério da saúde, estimulava aglomeração. Não era incompetência dos responsáveis à época: era projeto.
"Expurgo", de Renan Fawe com participação de GBLL, é uma composição de protesto que nasce dessa bagunça planejada. Não é uma música sobre a pandemia somente, é uma música sobre o ódio que a familícia Bolsonaro produz pelo menos desde os anos 90. E essa raiva, quando exposta na música, vira fantasia.
"Protestos pacíficos não surtem efeito
Vou dar um, vou dar dois, três tiros no peito
O demônio é o novo presidente eleito
"Mate-o, mate-o" uma voz me diz toda vez que me deito
Se for pra fazer, façamos bem feito (façamos bem feito)
Irei torturar o governador e o prefeito
Depois largá-los em largados leitos (largados leitos)
Hospitais precários cheios de defeito
Culpados são esses malditos sujeitos
Investimentos em saúde são rarefeitos
Irei explicar esse 'pseudoconceito'
O Rio de Janeiro permanece putrefeito"
A constatação que abre a música é que, na hora da raiva, protestar não adianta, o que adianta é a sentença. O eu-lírico propõe fazer justiça com as próprias mãos, mas o alvo não é qualquer um: é o presidente, o governador, o prefeito. É a cadeia de poder que produziu a precariedade dos hospitais, a raridade dos investimentos em saúde e, em larga escala, a putrefação do Rio de Janeiro.
A vingança é bem detalhada: torturar o governador e o prefeito, depois largá-los em leitos precários, como se a morte deles fosse uma encenação do que a população vive. Não é uma ameaça da boca pra fora; é uma pedagogia do revide. O eu-lírico está dizendo: vocês vão sentir na pele o que a gente sentiu. E "se for pra fazer, façamos bem feito".
O verso "O demônio é o novo presidente eleito" é uma constatação de que o mal, na verdade, está no governo que se orgulhava de ir na contramão das recomendações da OMS no que dizia respeito à pandemia. A voz que diz "mate-o" é uma voz que vem de dentro, que acompanha o eu-lírico até em seu sono. A vingança, para além do desejo, vira compulsão. É o que a alma pede quando já não há mais para onde recorrer.
"Pacíficos demais, tudo que se faz
Sangram nossos iguais, que são sempre aceitos
Malditos, malditos, malditos, malditos
Seu presidente é milico
Vocês são racista' enrustido', fascista' enrustido' Apoiando o próprio inimigo do povo oprimido
Malditos, malditos, malditos, malditos
Taca fogo no mito
Taca, taca fogo no mito
Taca, taca fogo no mito"
O refrão se repete como um mantra, e a palavra vai perdendo o significado, virando puro som de revolta. É o ódio que não se explica mais, que só se repete até virar catarse.
O presidente é um militar, e os que o apoiam são "racistas enrustidos, fascistas enrustidos", gente que não se assume, mas que vota, pensa e age com quem oprime. A imagem criada do mito foi construída por ele mesmo: o salvador, o Messias. A música não pede que se mate o homem somente: pede a morte da imagem, que se queime o símbolo.
"Esses cuzão' eu detesto
Facada em forma de protesto
Sabe, são tudo' corrupto
Comprando as almas em púlpitos
Malditos, malditos, malditos
Foda-se seu veredito
Melhor evitar conflito
Racista, fascista é seu mito
Seu herói que é o bandido
Trazendo as coca' e os bico'
Pros nossos entrarem em conflito"
"Facada em forma de protesto" faz alusão ao incidente ocorrido pouco antes da eleição de Bolsonaro em 2018. Esse protesto não é somente direcionado ao "mito", é também direcionado contra os "corruptos que compram almas em púlpitos". Os púlpitos são as igrejas, palanques, meios de comunicação ideologicamente voltados ao bolsonarismo. O poder está também nos lugares onde a comunicação, a fé e a política se misturam.
"Seu herói que é o bandido" inverte a lógica do crime. O bandido não é o jovem negro com a coca na mão: é o presidente que traz "as coca' e os bico'", estimula o conflito, lucra com a violência e alimenta o sistema que mata os nossos. A faixa aponta quem realmente lucra com o tráfico de drogas e a morte do povo preto e periférico.
"E eles assistindo
Sempre aplaudindo
Mais um cria foi
E eles postam rindo
Pra onde estamos indo?
O juiz está comprado
Mas tá tudo lindo: o mal é o viciado"
Esse trecho fala da indiferença de quem está no poder em relação à população periférica. "Eles assistindo, sempre aplaudindo, mais um cria foi, e eles postam rindo". "Eles" que debocharam da pandemia, que relativizaram os cuidados e que priorizaram a economia acima das vidas humanas... "Eles" são a plateia da barbárie, que paga com gosto o caro ingresso para assistir de camarote tudo acontecer.
A justiça não é cega, só é comprada, porque no fim das contas a sociedade já arrumou seu bode expiatório: Os jovens negros, de classe social mais baixa, que moram nas periferias do território brasileiro. O mal, para estes, não é o sistema que se corrompe, não é o presidente que faz arminha pro ar e diz "não ser coveiro" ao perguntado sobre o aumento expressivo das mortes por COVID-19, não é o juiz comprado que faz vista grossa para os podres dos governantes. O mal, para estes, é o viciado, o jovem da periferia, o cria que foi. É a lógica da criminalização da pobreza, que a gente já conhece bem.
"Que se foda educação
O que salva é oração
Jejum já é normal
Tá difícil salvação
Me diz pra que eleição
Se é tudo ilusão
Mataremos os malditos
Pra sair da maldição
Fé!"
O final mostra que a educação foi abandonada, e o que sobra é a (má) fé. "Jejum já é normal", porque a fome virou rotina. "Tá difícil salvação", porque nem o deus cristão parece dar conta ou compactuar com o que era proposto por quem se dizia ser de "Deus, Pátria, Família e Liberdade".
A solução que sobra é o expurgo: "mataremos os malditos pra sair da maldição". A palavra "expurgo" significa purificar, limpar, ou ainda em contexto político, pode significar afastamento ou exclusão por divergências de ideias ou descumprimento de regras. Mas é também a constatação de que não há saída institucional. A única saída é a vingança.

Conclusão
"Expurgo" não é uma música necessariamente agradável. Não pede licença, não pede desculpa, não pede permissão. É um grito de raiva, gerado pelas atrocidades cometidas pela família Bolsonaro, antes e depois da pandemia, das quais territórios periféricos, como a nossa Baixada, conhecem bem as consequências. A música não oferece saída, oferece vingança. E a vingança, às vezes, traz sensação de alívio.
O eu-lírico é um sobrevivente. Um sobrevivente que viu o presidente chamar a pandemia de gripezinha, que viu os hospitais colapsarem, que viu os "crias" sendo mortos enquanto "eles postam rindo". E que, no fundo, sabe que a eleição não muda nada, que o juiz está comprado, que a educação foi abandonada. A única coisa que sobra é o expurgo, a limpeza pela vingança, a purificação pelo fogo.
A Baixada que a música apresenta não é a Baixada da resistência poética, nem a Baixada da festa, nem a Baixada da arte que salva, como dito em outros textos nessa coluna. É a Baixada do ódio. A Baixada que enterrou seus mortos e não esqueceu. A Baixada que, quando canta, canta pra não morrer. E se o canto pela vida é violento, é porque a vida também é.
Precisamos sempre lembrar de como este governo e esta família lidaram com as vidas de brasileiros e brasileiras antes, durante e depois da pandemia de COVID-19. Precisamos, hoje, em dia de eleições, nas quais o filho do demônio está concorrendo, que o expurgo segue sendo opção. Senão, voltaremos a este cenário horripilante de violência que gera vingança, que gera retaliação, que gera revolta.

Fijó é comunicador social, músico e produtor cultural. Idealizador do Ideias de Hermes Podcast/O Hermes da Baixada e do Shuffle BXD, criador da camisa "SARAPUÍ", integrante dos coletivos Instituto BXD e BXD IN CENA e coordenador/revisor do BXDISSE. Tecladista dos artistas Capelloni, Tabita Infinito, CAYÚ e Mtzyn ¿. Constrói no site do BXD IN CENA os estudos "Como o baixadense se enxerga?", buscando discutir obras musicais de artistas baixadenses e como funciona a representação do que é ser baixadense para essas pessoas.




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