Manual do voto baixadense: não vote no filho.
Texto por: Josué Matheus.
Revisão: Fijó.

Nesse período de agosto até o final do ano, em todos os anos desde que me formei no ensino médio, meu pai conversa comigo para falar da possibilidade de fazer concurso. Nunca fui de querer fazer concurso por uma questão de disciplina de estudo e por não me ver encaixado nesse plano-carreira que parece perfeito, mas na minha cabeça me deixaria estagnado.
Porém, é inegável que há a estabilidade que só os concursos públicos puderam um dia oferecer. Mas, como todo pai que pensa no futuro do filho, é dever dele me proporcionar essa conversa para que eu possa pensar em um futuro melhor na sonhada estabilidade. E, como filho, fico feliz de ter alguém que pensa no meu futuro, apesar de não ser como eu queria no quesito de empregabilidade e até pelo dever social que hoje eu me pego pensando em ter.
Penso que o mesmo acontece com os políticos pais e parentes da BXD.
Hoje, no nosso território, é impossível não pensar nos nomes que acabam pertencendo ao ciclo de estabilidade familiar. No último texto sobre o Manual do voto baixadense, citei o monopólio familiar de poder político. Posso citar a família Reis, em Duque de Caxias e a família Vieira, em SJM. Mas meu irmão Fijó fez isso muito bem e você pode ver as 13 famílias e nomes que vinculam o município ao poder.
A relação de poder no território baixadense tem sua peculiaridade de subentender quem domina regiões em tempos e como essa circulação de poder visa a estabilidade familiar. Quem não quer garantir que o filho, irmão ou parente tenha uma carreira de sucesso?
Esta relação de poder política é contraditória com a manutenção de um estado democrático. Para não ser muito técnico: pense que um mesmo síndico fica responsável pelo mesmo prédio por anos. É possível que ele vá ter variações na forma de governança. Mas, essencialmente, ele sabendo que está estável ali, porque as pessoas sempre votam nele, haverá uma mudança significativa no prédio?
É muito relativo, eu sei. Pense nisso como um desejo interno. Por que as pessoas entram para a política? Para fazer mudanças. Como as coisas mudam? Com visões, fundamentos e desejos diferentes. Nada, na política, é feito sem uma subtrama. E quando se pensa na estabilidade desse monopólio de família, é uma forma de proteger e manter o poder concentrado nas mesmas pessoas, sem ciclo de mudança.
Vale citar, apesar de eu não querer me aprofundar, que várias dessas famílias praticam atos de apadrinhar seus parentes também. Em SJM, Léo Vieira Filho foi indicado para o cargo de Secretário de Habitação, Urbanismo e Iluminação Pública. Acontece que o quem indicou foi o pai e prefeito da cidade, Léo Vieira. A experiência do filho? Vendedor de carros, estudante de Direito e filho do prefeito[1].
Immanuel Kant[2] dizia que a única ação verdadeiramente desinteressada na natureza é a das flores, que existem apenas para exalar a beleza. Todas as outras ações humanas, e principalmente as políticas, são movidas por interesses: miram vantagens, prestígio, benefício e reconhecimento. Isso reflete na relação de poder com a estabilidade predestinada aos filhos e apadrinhados.
O poder não é um atributo natural e nem pertence a uma única pessoa: ele se constitui nas relações. Ele é uma invenção sócio-histórica, um exercício aprendido e colocado em circulação pelas pessoas ao longo do tempo (Foucault, [3]). Na Baixada, essas relações de poder subentendem quem domina cada região e como essa engrenagem roda para garantir a proteção do clã. A ciência política chama isso de patrimonialismo: a confusão entre o bem público e o patrimônio privado[4]. Eu, Josué, gostaria de chamar de coronelismo.
Essa tática de converter capital político em herança familiar não é exclusivo-baixadense. A trajetória de Flávio Bolsonaro, alçado ao Senado no rastro do pai, é a prova de que a "política para o filho" funciona como um projeto nacional de perpetuação e proteção de clã, onde o sobrenome substitui qualquer requisito técnico ou comunitário. Não vote no filho.
Não vote em pessoas que ganham cargos apadrinhados. Elas não representam eu ou você. Elas representam apenas a própria família. Eles por eles, nós por nós. E essa relação, se não quebrada, gera a tão sonhada estabilidade que pais querem tanto dar aos seus filhos.

Refs de Cria:
[1] TEMPO REAL RJ. Família Vieira: filho do prefeito de São João de Meriti filia-se ao PSDB para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. Tempo Real RJ, 3 abr. 2026. Disponível em: https://temporealrj.com/leozinho-vieira-psdb-candidato-alerj/. Acesso em: 3 out. 2026.
[2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1979. 295 p.
[3] KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. (Original publicado em 1790).
[4] WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa; revisão técnica de Gabriel Cohn. Brasília: UnB, 1999. 2 v.

Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.

![Território: o espaço geográfico transformado pela ação humana, atravessado por relações de poder, técnicas e vida social. Essa definição é de Milton Santos[1] para o que é território. Quando leio essa definição, me parece que pode ser muito raso o entendimento que um território como a BXD esteja sempre associado aos votos de candidatos contrários às políticas públicas que estruturam nosso ambiente.](https://static.wixstatic.com/media/9264e0_fee21d5ec0cb47c99e140e8ea83d6307~mv2.jpg/v1/fill/w_980,h_1329,al_c,q_85,usm_0.66_1.00_0.01,enc_avif,quality_auto/9264e0_fee21d5ec0cb47c99e140e8ea83d6307~mv2.jpg)


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