Resultados de busca
Buscar neste site
65 resultados encontrados com uma busca vazia
- Taca fogo no mito!
Como o baixadense se enxerga - pt. 10. Texto por: Fijó. Revisão: Josué Matheus. Vídeo: YouTube. Entre 2020 e 2022, o Brasil inteiro virou uma vala comum. Mais de 700 mil mortes por COVID-19, número que pode ser maior devido à possibilidade de subnotificação. A Baixada Fluminense, como sempre, foi uma das trincheiras mais expostas: transporte lotado, hospitais sem leito, trabalhadores essenciais voltando pra casa com o vírus no corpo e, enquanto o país enterrava seus mortos, o presidente da República à época, Jair Messias Bolsonaro, minimizava a pandemia, chamava de "gripezinha", atrasava a compra de vacinas por meio de seu ministério da saúde, estimulava aglomeração. Não era incompetência dos responsáveis à época: era projeto. "Expurgo", de Renan Fawe com participação de GBLL, é uma composição de protesto que nasce dessa bagunça planejada. Não é uma música sobre a pandemia somente, é uma música sobre o ódio que a familícia Bolsonaro produz pelo menos desde os anos 90. E essa raiva, quando exposta na música, vira fantasia. "Protestos pacíficos não surtem efeito Vou dar um, vou dar dois, três tiros no peito O demônio é o novo presidente eleito "Mate-o, mate-o" uma voz me diz toda vez que me deito Se for pra fazer, façamos bem feito (façamos bem feito) Irei torturar o governador e o prefeito Depois largá-los em largados leitos (largados leitos) Hospitais precários cheios de defeito Culpados são esses malditos sujeitos Investimentos em saúde são rarefeitos Irei explicar esse 'pseudoconceito' O Rio de Janeiro permanece putrefeito" A constatação que abre a música é que, na hora da raiva, protestar não adianta, o que adianta é a sentença. O eu-lírico propõe fazer justiça com as próprias mãos, mas o alvo não é qualquer um: é o presidente, o governador, o prefeito. É a cadeia de poder que produziu a precariedade dos hospitais, a raridade dos investimentos em saúde e, em larga escala, a putrefação do Rio de Janeiro. A vingança é bem detalhada: torturar o governador e o prefeito, depois largá-los em leitos precários, como se a morte deles fosse uma encenação do que a população vive. Não é uma ameaça da boca pra fora; é uma pedagogia do revide. O eu-lírico está dizendo: vocês vão sentir na pele o que a gente sentiu. E "se for pra fazer, façamos bem feito". O verso "O demônio é o novo presidente eleito" é uma constatação de que o mal, na verdade, está no governo que se orgulhava de ir na contramão das recomendações da OMS no que dizia respeito à pandemia. A voz que diz "mate-o" é uma voz que vem de dentro, que acompanha o eu-lírico até em seu sono. A vingança, para além do desejo, vira compulsão. É o que a alma pede quando já não há mais para onde recorrer. "Pacíficos demais, tudo que se faz Sangram nossos iguais, que são sempre aceitos Malditos, malditos, malditos, malditos Seu presidente é milico Vocês são racista' enrustido', fascista' enrustido' Apoiando o próprio inimigo do povo oprimido Malditos, malditos, malditos, malditos Taca fogo no mito Taca, taca fogo no mito Taca, taca fogo no mito" O refrão se repete como um mantra, e a palavra vai perdendo o significado, virando puro som de revolta. É o ódio que não se explica mais, que só se repete até virar catarse. O presidente é um militar, e os que o apoiam são "racistas enrustidos, fascistas enrustidos", gente que não se assume, mas que vota, pensa e age com quem oprime. A imagem criada do mito foi construída por ele mesmo: o salvador, o Messias. A música não pede que se mate o homem somente: pede a morte da imagem, que se queime o símbolo. "Esses cuzão' eu detesto Facada em forma de protesto Sabe, são tudo' corrupto Comprando as almas em púlpitos Malditos, malditos, malditos Foda-se seu veredito Melhor evitar conflito Racista, fascista é seu mito Seu herói que é o bandido Trazendo as coca' e os bico' Pros nossos entrarem em conflito" "Facada em forma de protesto" faz alusão ao incidente ocorrido pouco antes da eleição de Bolsonaro em 2018. Esse protesto não é somente direcionado ao "mito", é também direcionado contra os "corruptos que compram almas em púlpitos". Os púlpitos são as igrejas, palanques, meios de comunicação ideologicamente voltados ao bolsonarismo. O poder está também nos lugares onde a comunicação, a fé e a política se misturam. "Seu herói que é o bandido" inverte a lógica do crime. O bandido não é o jovem negro com a coca na mão: é o presidente que traz "as coca' e os bico'", estimula o conflito, lucra com a violência e alimenta o sistema que mata os nossos. A faixa aponta quem realmente lucra com o tráfico de drogas e a morte do povo preto e periférico. "E eles assistindo Sempre aplaudindo Mais um cria foi E eles postam rindo Pra onde estamos indo? O juiz está comprado Mas tá tudo lindo: o mal é o viciado" Esse trecho fala da indiferença de quem está no poder em relação à população periférica. "Eles assistindo, sempre aplaudindo, mais um cria foi, e eles postam rindo". "Eles" que debocharam da pandemia, que relativizaram os cuidados e que priorizaram a economia acima das vidas humanas... "Eles" são a plateia da barbárie, que paga com gosto o caro ingresso para assistir de camarote tudo acontecer. A justiça não é cega, só é comprada, porque no fim das contas a sociedade já arrumou seu bode expiatório: Os jovens negros, de classe social mais baixa, que moram nas periferias do território brasileiro. O mal, para estes, não é o sistema que se corrompe, não é o presidente que faz arminha pro ar e diz "não ser coveiro" ao perguntado sobre o aumento expressivo das mortes por COVID-19, não é o juiz comprado que faz vista grossa para os podres dos governantes. O mal, para estes, é o viciado, o jovem da periferia, o cria que foi. É a lógica da criminalização da pobreza, que a gente já conhece bem. "Que se foda educação O que salva é oração Jejum já é normal Tá difícil salvação Me diz pra que eleição Se é tudo ilusão Mataremos os malditos Pra sair da maldição Fé!" O final mostra que a educação foi abandonada, e o que sobra é a (má) fé. "Jejum já é normal", porque a fome virou rotina. "Tá difícil salvação", porque nem o deus cristão parece dar conta ou compactuar com o que era proposto por quem se dizia ser de "Deus, Pátria, Família e Liberdade". A solução que sobra é o expurgo: "mataremos os malditos pra sair da maldição". A palavra "expurgo" significa purificar, limpar, ou ainda em contexto político, pode significar afastamento ou exclusão por divergências de ideias ou descumprimento de regras. Mas é também a constatação de que não há saída institucional. A única saída é a vingança. Renan Fawe é multiartista e ilustrou todo o clipe da faixa sozinho. Foto: Reprodução / Renan Fawe. Conclusão "Expurgo" não é uma música necessariamente agradável. Não pede licença, não pede desculpa, não pede permissão. É um grito de raiva, gerado pelas atrocidades cometidas pela família Bolsonaro, antes e depois da pandemia, das quais territórios periféricos, como a nossa Baixada, conhecem bem as consequências. A música não oferece saída, oferece vingança. E a vingança, às vezes, traz sensação de alívio. O eu-lírico é um sobrevivente. Um sobrevivente que viu o presidente chamar a pandemia de gripezinha, que viu os hospitais colapsarem, que viu os "crias" sendo mortos enquanto "eles postam rindo". E que, no fundo, sabe que a eleição não muda nada, que o juiz está comprado, que a educação foi abandonada. A única coisa que sobra é o expurgo, a limpeza pela vingança, a purificação pelo fogo. A Baixada que a música apresenta não é a Baixada da resistência poética, nem a Baixada da festa, nem a Baixada da arte que salva, como dito em outros textos nessa coluna. É a Baixada do ódio. A Baixada que enterrou seus mortos e não esqueceu. A Baixada que, quando canta, canta pra não morrer. E se o canto pela vida é violento, é porque a vida também é. Precisamos sempre lembrar de como este governo e esta família lidaram com as vidas de brasileiros e brasileiras antes, durante e depois da pandemia de COVID-19. Precisamos, hoje, em dia de eleições, nas quais o filho do demônio está concorrendo, que o expurgo segue sendo opção. Senão, voltaremos a este cenário horripilante de violência que gera vingança, que gera retaliação, que gera revolta. Fijó é comunicador social, músico e produtor cultural. Idealizador do Ideias de Hermes Podcast/O Hermes da Baixada e do Shuffle BXD, criador da camisa "SARAPUÍ", integrante dos coletivos Instituto BXD e BXD IN CENA e coordenador/revisor do BXDISSE. Tecladista dos artistas Capelloni, Tabita Infinito, CAYÚ e Mtzyn ¿. Constrói no site do BXD IN CENA os estudos "Como o baixadense se enxerga?", buscando discutir obras musicais de artistas baixadenses e como funciona a representação do que é ser baixadense para essas pessoas.
- Manual do voto baixadense: não vote no filho.
Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo Partido Liberal, foi inserido na vida política pelo pai, o ex-presidente e atual presidiário Jair Messias Bolsonaro. Foto: Reprodução / O Globo. Nesse período de agosto até o final do ano, em todos os anos desde que me formei no ensino médio, meu pai conversa comigo para falar da possibilidade de fazer concurso. Nunca fui de querer fazer concurso por uma questão de disciplina de estudo e por não me ver encaixado nesse plano-carreira que parece perfeito, mas na minha cabeça me deixaria estagnado. Porém, é inegável que há a estabilidade que só os concursos públicos puderam um dia oferecer. Mas, como todo pai que pensa no futuro do filho, é dever dele me proporcionar essa conversa para que eu possa pensar em um futuro melhor na sonhada estabilidade. E, como filho, fico feliz de ter alguém que pensa no meu futuro, apesar de não ser como eu queria no quesito de empregabilidade e até pelo dever social que hoje eu me pego pensando em ter. Penso que o mesmo acontece com os políticos pais e parentes da BXD. Hoje, no nosso território, é impossível não pensar nos nomes que acabam pertencendo ao ciclo de estabilidade familiar. No último texto sobre o Manual do voto baixadense, citei o monopólio familiar de poder político. Posso citar a família Reis, em Duque de Caxias e a família Vieira, em SJM. Mas meu irmão Fijó fez isso muito bem e você pode ver as 13 famílias e nomes que vinculam o município ao poder. A relação de poder no território baixadense tem sua peculiaridade de subentender quem domina regiões em tempos e como essa circulação de poder visa a estabilidade familiar. Quem não quer garantir que o filho, irmão ou parente tenha uma carreira de sucesso? Esta relação de poder política é contraditória com a manutenção de um estado democrático. Para não ser muito técnico: pense que um mesmo síndico fica responsável pelo mesmo prédio por anos. É possível que ele vá ter variações na forma de governança. Mas, essencialmente, ele sabendo que está estável ali, porque as pessoas sempre votam nele, haverá uma mudança significativa no prédio? É muito relativo, eu sei. Pense nisso como um desejo interno. Por que as pessoas entram para a política? Para fazer mudanças. Como as coisas mudam? Com visões, fundamentos e desejos diferentes. Nada, na política, é feito sem uma subtrama. E quando se pensa na estabilidade desse monopólio de família, é uma forma de proteger e manter o poder concentrado nas mesmas pessoas, sem ciclo de mudança. Vale citar, apesar de eu não querer me aprofundar, que várias dessas famílias praticam atos de apadrinhar seus parentes também. Em SJM, Léo Vieira Filho foi indicado para o cargo de Secretário de Habitação, Urbanismo e Iluminação Pública. Acontece que o quem indicou foi o pai e prefeito da cidade, Léo Vieira. A experiência do filho? Vendedor de carros, estudante de Direito e filho do prefeito[1]. Immanuel Kant[2] dizia que a única ação verdadeiramente desinteressada na natureza é a das flores, que existem apenas para exalar a beleza. Todas as outras ações humanas, e principalmente as políticas, são movidas por interesses: miram vantagens, prestígio, benefício e reconhecimento. Isso reflete na relação de poder com a estabilidade predestinada aos filhos e apadrinhados. O poder não é um atributo natural e nem pertence a uma única pessoa: ele se constitui nas relações. Ele é uma invenção sócio-histórica, um exercício aprendido e colocado em circulação pelas pessoas ao longo do tempo (Foucault, [3]). Na Baixada, essas relações de poder subentendem quem domina cada região e como essa engrenagem roda para garantir a proteção do clã. A ciência política chama isso de patrimonialismo: a confusão entre o bem público e o patrimônio privado[4]. Eu, Josué, gostaria de chamar de coronelismo. Essa tática de converter capital político em herança familiar não é exclusivo-baixadense. A trajetória de Flávio Bolsonaro, alçado ao Senado no rastro do pai, é a prova de que a "política para o filho" funciona como um projeto nacional de perpetuação e proteção de clã, onde o sobrenome substitui qualquer requisito técnico ou comunitário. Não vote no filho. Não vote em pessoas que ganham cargos apadrinhados. Elas não representam eu ou você. Elas representam apenas a própria família. Eles por eles, nós por nós. E essa relação, se não quebrada, gera a tão sonhada estabilidade que pais querem tanto dar aos seus filhos. Léo Vieira e Léo Vieira Filho. Foto: Reprodução / Instagram: Léo Vieira. Refs de Cria: [1] TEMPO REAL RJ. Família Vieira: filho do prefeito de São João de Meriti filia-se ao PSDB para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. Tempo Real RJ, 3 abr. 2026. Disponível em: https://temporealrj.com/leozinho-vieira-psdb-candidato-alerj/. Acesso em: 3 out. 2026. [2] FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Organização e tradução de Roberto Machado. Rio de Janeiro: Ed. Graal, 1979. 295 p. [3] KANT, Immanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012. (Original publicado em 1790). [4] WEBER, Max. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Tradução de Regis Barbosa e Karen Elsabe Barbosa; revisão técnica de Gabriel Cohn. Brasília: UnB, 1999. 2 v. Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.
- Por que a Baixada precisa contar a própria história?
Uma reflexão Instituto BXD. Texto por: Fijó; Gab Blackk. Revisão: Fijó. As movimentações independentes de comunicação na Baixada Fluminense trazem visibilidade para os pontos fortes do nosso território que a grande mídia se recusa a mostrar. Foto: Acervo: ilovecamerinha / BXD IN CENA. A data de 3 de maio foi instituída pela UNESCO para lembrar ao mundo que uma imprensa livre, plural e responsável é um pilar essencial de qualquer democracia[1]. No entanto, liberdade não é licença. Ser livre demanda responsabilidade , e essa distinção, que parece abstrata em tempos de normalidade democrática, torna-se dramaticamente concreta quando revisitamos os períodos em que ela foi suprimida. O espelho da censura Durante a ditadura militar brasileira (1964–1985), a censura prévia e o confisco de edições inteiras de jornais foram instrumentos rotineiros de um Estado que não tolerava o contraditório. O jornal Movimento, fundado em 1975 por Raimundo Rodrigues Pereira e que se tornou um dos principais símbolos da resistência democrática, denunciava a violência do regime deixando espaços em branco nas páginas onde deveria haver texto , marcas visíveis da interferência da censura e da limitação à liberdade de imprensa[2]. Em 20 de setembro de 1972, o Correio do Povo teve sua edição inteira apreendida pelo Exército Brasileiro antes mesmo de circular. Os jornais foram levados para caminhões estacionados na rua Sete de Setembro, em Porto Alegre. Apenas alguns exemplares foram salvos por Francisca Espinosa, a “dona Chica”, funcionária do arquivo que desafiadoramente preservou a memória daquele dia sinistro de confisco[3]. Essa memória não é exercício de nostalgia: é um sinal brusco de alerta. A história demonstra que, quando uma única voz é autorizada a narrar os fatos, a verdade se torna refém. Charge abordando a situação dos trabalhadores da Baixada Fluminense no fim dos anos 1970. Fonte: Repositório / Jornal da Baixada. O perigo de uma história única e o que a Baixada sabe sobre isso A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, em sua conferência TED de 2009, formulou o conceito: “O perigo de uma história única é que ela rouba a dignidade das pessoas, torna difícil o reconhecimento da nossa humanidade compartilhada e enfatiza como somos diferentes em vez de como somos semelhantes”. Chimamanda Ngozi Adichie, em 2009, em seu TED Talks. O estereótipo, como diz Chimamanda, não é perigoso por ser falso, mas por ser incompleto. Reduzir toda a complexidade de um povo, de um território e de seu contexto a um só aspecto é, em suas palavras, o perigo da história única[4]. A Baixada Fluminense conhece esse perigo de perto. Durante décadas, a grande mídia contou apenas uma versão da região: a da violência, da carência, da “terra sem lei”. Essa geografia imaginativa, construída de fora, ignora a diversidade e a potência dos 13 municípios. A criação de espaços de diálogo em território baixadense é crucial para a produção e compartilhamento de saberes genuinamente nossos. Foto: Divulgação: Mylena Braga / Festival Caleidoscópio. Quem conta a história importa É exatamente contra essa história única que surgem, resistem e se multiplicam os veículos de mídia independente e periférica na Baixada Fluminense. Não se trata de substituir um monopólio narrativo por outro, se trata de garantir que a história da região seja narrada por quem a conhece, a vive e a ama. O Site da Baixada, fundado em 2006 por Wesley Brasil, define-se com clareza: “Somos uma plataforma de conteúdo que mostra pro mundo a Baixada Fluminense com o olhar de quem gosta de morar na região”[5]. O Brava Baixada, por sua vez, declara em sua descrição: “A Baixada Fluminense vai muito além da imagem violenta que a grande mídia mostra. Mostramos isso por meio de notícias, dados e análises”[6]. A esses somam-se O Hermes (IDHBXD), que também é podcast e projeto de comunicação que trata sobre a Baixada Fluminense através de artistas e outras personalidades do território, defendendo que a comunicação na região “tenha como ponto de partida a perspectiva do povo, de quem vive o cotidiano e as incertezas dele”[7], o Voz da Baixada, coletivo de mídia livre organizado por jovens moradores da Baixada Fluminense com foco nas questões sociais da região[8], e o BXD IN CENA, que inicia como uma plataforma digital para artistas periféricos e hoje tem site, Prêmio BXD IN CENA e eventos culturais todo mês em seu espaço cultural em Coelho da Rocha[9]. O que une esses veículos não é uma linha editorial uniforme, mas um compromisso comum: furar a bolha da história única. Cada produção textual sobre um evento cultural em Nilópolis, cada entrevista com um artista de Belford Roxo, cada análise de dados sobre mobilidade urbana na Baixada é um gesto de reparação histórica. É a afirmação de que a Baixada não é um problema a ser resolvido pelas narrativas externas e, além disso, é um território de produção cultural, pensamento e resistência. A disputa pela narrativa também passa pela preservação da memória. Em nosso território, grande parte da nossa história não foi registrada em livros, arquivos ou museus, e ainda assim permanece viva pela oralidade. São as histórias contadas pelos nossos mais velhos, as lembranças compartilhadas nas calçadas, nos quintais, nas cozinhas, nas rodas de conversa e nas festas populares que mantêm vivas as memórias de um território muitas vezes ignorado pelos registros oficiais. Valorizar essas narrativas é reconhecer que a memória também é um patrimônio coletivo. Quando escutamos quem veio antes de nós, preservamos não apenas acontecimentos, mas modos de viver, de resistir, de construir comunidade e de imaginar futuros. Defender a memória da Baixada é, portanto, defender o direito de um povo contar sua própria história, com suas vozes, seus costumes e suas lembranças. O Curumim Cria é uma iniciativa idealizada por Camilla Lemos, Anna Luiza e Ajami Dayo para democratizar o acesso à cultura e lazer para crianças e mulheres que maternam de forma itinerante. Esta pode ser uma nova forma de criar um espaço de produção e compartilhamento de saberes de geração em geração em nossa Baixada Fluminense através da oralidade. Foto: Divulgação / Curumim Cria. Liberdade com responsabilidade: o jornalismo que o território exige É aqui que retornamos ao ponto de partida. A jurisprudência brasileira consagra o “binômio liberdade com responsabilidade” — “a plena proteção constitucional à liberdade de imprensa é consagrada pelo binômio liberdade com responsabilidade, vedada qualquer espécie de censura prévia”[10]. O jornalismo que a Baixada produz e merece não abre mão nem da liberdade nem da responsabilidade. Porque a liberdade sem compromisso com o território é só mais uma forma de ocupação. Neste sentido, fazer comunicação comunitária no nosso território é reafirmar que a Baixada Fluminense tem o direito inegociável de contar sua própria história — em todas as suas camadas, contradições e belezas. E que esse direito se exerce com os pés no chão, o microfone na mão e a responsabilidade de quem sabe que a história única aprisiona, enquanto a multiplicidade de vozes liberta. Gab Blackk foi colaboradora na produção deste texto. Foto: Divulgação: Mylena Braga / Festival Caleidoscópio. Gab Blackk é comunicadora, produtora cultural e mobilizadora social de Paracambi, na Baixada Fluminense. Sua atuação conecta comunicação, cultura, educação popular e participação cidadã, com foco em juventudes e territórios periféricos. Desenvolve estratégias de engajamento, formações e ações culturais voltadas ao fortalecimento comunitário, à incidência em políticas públicas e à ampliação de direitos, narrativas e imaginários por meio da construção coletiva. Refs de Cria: [1] UNESCO. World Press Freedom Day. UNESCO, 3 maio 2026. Disponível em: https://www.unesco.org/en/days/press-freedom. Acesso em: 4 mai. 2026. [2] G1. Morre no Rio o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. g1, Rio de Janeiro, 2 maio 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/02/morre-jornalista-raimundo-rodrigues-pereira.ghtml. Acesso em: 4 mai. 2026. [3] CORREIO DO POVO. A edição que nunca chegou aos leitores. Correio do Povo, Porto Alegre, 1 out. 2015. Disponível em: https://www.correiodopovo.com.br/not%C3%ADcias/geral/a-edi%C3%A7%C3%A3o-que-nunca-chegou-aos-leitores-1.184047. Acesso em: 4 maio 2026. [4] GELEDÉS. Chimamanda Adichie: o perigo de uma única história. Geledés, 16 mar. 2010. Disponível em: https://www.geledes.org.br/chimamanda-adichie-o-perigo-de-uma-unica-historia/. Acesso em: 4 maio 2026. [5] SITE DA BAIXADA. Site da Baixada. [s.d.]. Disponível em: https://sitedabaixada.com.br/. Acesso em: 7 mai. 2026. [6] BRAVA BAIXADA. Brava Baixada. [s.d.]. Disponível em: https://bravabaixada.com.br/. Acesso em: 7 mai. 2026. [7] KUERQUES, Thiago. Fijó reúne música, esporte e comunicação como expressões de transformação na Baixada Fluminense. Site da Baixada, 15 nov. 2022. Disponível em: https://sitedabaixada.com.br/cultura/2022/11/15/fijo-reune-musica-esporte-e-comunicacao-como-expressoes-de-transformacao-na-baixada-fluminense/. Acesso em: 9 mai. 2026. [8] VOZ DA BAIXADA. Voz da Baixada (em reconstrução). Medium, [s.d.]. Disponível em: https://medium.com/@jornalvozdabaixada. Acesso em: 9 mai. 2026. [9] MEIA HORA. ‘BXD IN CENA’ na cena da Baixada. Meia Hora, Rio de Janeiro, 26 abr. 2026. Disponível em: https://www.meiahora.com.br/alo-comunidade/2026/04/7241196-bxd-in-cena-na-cena-da-baixada.html. Acesso em: 9 mai. 2026. [10] MIGALHAS. Veja o que mudou em tese do STF sobre responsabilidade de imprensa. Migalhas, 20 mar. 2025. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/quentes/426654/veja-o-que-mudou-em-tese-do-stf-sobre-responsabilidade-de-imprensa. Acesso em: 9 mai. 2026.
- Slam da Seda: Expansão da cultura seropedicense a partir da poesia marginal.
Texto por: Isis Cardoso. Revisão: Fijó. Ocupando a Sala de Cultura Eugênia Fernandes Matias Vale, na UFRRJ Campus Seropédica, a edição que finalizou a temporada 2025/2026 do Slam da Seda coroou uma trajetória de pouco mais de um ano de atuação cultural no município. Foto: Divulgação / Coletivo Encurta Distância. Seropédica, município da Baixada Fluminense, abriga uma população de mais de 80 mil habitantes segundo o Censo de 2022. O nome da cidade, “lugar onde se cultiva a seda”, se origina dos tempos do Império brasileiro - quando havia no local a Fazenda Seropédica do Bananal, onde se produzia seda no século XIX[1]. Dela, surgiu mais tarde a Imperial Companhia Seropédica Fluminense e, em homenagem a esse legado, se instituiu na cidade o Slam da Seda. O Slam da Seda é uma batalha de poesia falada que surgiu no final de 2025, como mais uma ação do Coletivo Encurta Distância. A idealização do projeto partiu de Amanda Trovão que, já atuante no cenário de Slams, sentiu uma necessidade de trazer essa cultura para a cidade de Seropédica. A edição de final de temporada aconteceu no dia 12 de setembro de 2026, tendo início às 15h na Sala de Cultura Eugênia Fernandes Matias Vale, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - Campus Seropédica. Apesar do Encurta Distância já estar construindo uma forte atuação cultural no território tendo o graffiti como foco, a intenção do coletivo era expandir as atividades e trazer outras linguagens de arte, abordando novas formas de se fazer cultura valorizando o território a partir da inquietude do fazer artístico. Embora o espaço público da UFRRJ seja bastante utilizado, o coletivo pretende tornar o Slam da Seda um evento itinerante no município. Muito disso se dá pelo fato de as ações do Encurta terem começado enquanto os idealizadores Douglas Mendonça - conhecido como Dougz - e Amanda Trovão moravam no alojamento estudantil, e também por acreditarem que promover cultura dentro do campus da UFRRJ é uma forma de integração real entre universidade e seropedicenses de maneira efetiva, não só no discurso. Lá, são recebidos artistas baixadenses e de outras regiões, não-estudantes, proporcionando assim a aproximação da sociedade com a academia através de um olhar não elitizado, com recursos do coletivo, sendo integrado por estudantes e egressos negros e periféricos. Vale lembrar também que, apesar da grande população e de abrigar a universidade federal que possui o maior campus horizontal da América Latina, Seropédica é um município apagado, tanto na região metropolitana quanto na Baixada Fluminense. Isso faz com que a produção cultural em Seropédica atraia olhares para a cidade como mais que um ato de resistência, mas também como um grito de existência. “Seropédica precisa ser vista, não mais apagada. As pessoas precisam entender que aqui já é um pólo de cultura e conhecimento, que pode ser muito maior com mais investimentos e integração territorial. Muitos nem sabem que a UFRRJ existe, por exemplo. Já rola um distanciamento entre o município e a universidade, o que isola a população seropedicense do acesso à educação e outros tipos de cultura para além de cavalgada e festa de cunho rural mais tradicionais. Essas formas culturais têm sua importância, mas não representam toda a diversidade da população. É preciso investir em outras formas de arte e cultura, principalmente que reforcem o pensamento crítico e a consciência social”. - Dougz e Amanda Trovão, idealizadores do Coletivo Encurta Distância e do Slam da Seda. Esta é a primeira temporada do Slam da Seda (2025-2026). A primeira edição seria realizada em outubro de 2025, entretanto, acabou acontecendo em novembro de 2025, já marcada pela crise climática que assola os municípios da Baixada - e em Seropédica não seria diferente. Já em 2026, o Slam da Seda explorou diversos formatos e colaborações. Desde o quadro “Verso Fino” nas redes sociais, um feat. com o Slam Caju na 2ª edição da temporada, a terceira edição em formato online até chegar, mais recentemente, ao evento “Três Slams Demais” em parceria com o Slam da Rampa (Paracambi) e o Slam Afro-Afeto (itinerante). O Slam da Seda também foi apoiador do Festival IntegralizArte, mas infelizmente o dia do slam foi atravessado novamente por questões climáticas e o dia acabou sendo cancelado. Para a edição de fim de temporada, o coletivo Encurta Distância contou com parcerias locais, construindo relações muito importantes, como por exemplo o Ilê Asé Omi Gbonã, um ponto de cultura que constrói também a Caminhada Pela Liberdade Religiosa anualmente e recentemente, o Festival Coisas de Preto. Estes ajudaram com o equipamento de som e a alimentação no dia da final, produzido pela Cozinha Omi Gbonã. Além disso, o evento contou com parceria audiovisual com A Firma e Nalu Ruavera, planejamento de comunicação sob a batuta de Amanda Trovão que também coordena produção executiva e relações públicas junto a Tayo e a direção criativa de Dougz. Como todo encerramento de um ciclo, a expectativa e a emoção estiveram altas até o final do evento, considerando o momento da colheita dos frutos plantados ao longo desse último ano, além de ser a primeira vez que Seropédica terá representação no Campeonato Estadual de Poesia (SLAM RJ). Para a próxima temporada, o Encurta Distância alça voos ainda mais altos com o Slam da Seda. O coletivo planeja unir mais a história da cidade com a cultura do Slam e seu aspecto literário, formar e descobrir novos poetas, atuando em espaços de educação e cultura da cidade, atrair novos produtores culturais para serem slammasters e buscar parcerias com outros espaços da cidade para realizar edições. A necessidade de investimentos e garantia de recursos se mostra como um desafio a ser vencido, afinal, o trabalho independente e coletivo é importante, mas é igualmente importante ver o reconhecimento e valorização de toda a equipe pelo trabalho impecável realizado em prol da cultura local e, consequentemente, da Baixada Fluminense. Refs de Cria: [1] BRAVA BAIXADA. Seropédica. Brava Baixada, [s.d.]. Disponível em: https://bravabaixada.com.br/municipios/seropedica/. Acesso em: 17 set. 2026. Isis Cardoso é estudante de Relações Públicas (UERJ), cantora, compositora e diretora musical. Atualmente, atua como artista solo sob a alcunha SCAR, co-dirige os shows de Aryelle e Capelloni e desenvolve a pesquisa “Match com Força: O efeito da plataformização das relações afetivas” como trabalho de conclusão de curso.
- O poder que não se alterna: como famílias controlam a política na Baixada Fluminense
Texto por: Fijó. Revisão: Josué Matheus. João, por Dudu de Morro Agudo. Vídeo: YouTube / Hulle Brasil. A Baixada Fluminense é uma das regiões de maior peso eleitoral do estado do Rio de Janeiro, com cerca de 3,8 milhões de eleitores. Mas o voto, na prática, tem se traduzido na perpetuação de um mesmo padrão: famílias que controlam prefeituras, assembleias e influenciam o Congresso Nacional de forma simultânea, utilizando o aparato público para garantir a continuidade de seus clãs. Esse fenômeno não é novo, e uma breve análise pode levar a concluir que a concentração de poder político em grupos familiares na Baixada está associada a processos históricos mais amplos: a formação tardia da periferia metropolitana, as emancipações municipais dos anos 1990 e a presença de estruturas paralelas de poder e, em alguns casos, a atuação até mesmo de poderes paramilitares. Em dados concretos, às vésperas das Eleições de 2026, a situação se apresenta da seguinte forma: Duque de Caxias - Família Reis O prefeito Netinho Reis (MDB) comanda o executivo municipal com 84% de aprovação da população[1], e a família Reis mantém sua hegemonia consolidada há vários mandatos. Em agosto de 2026, a família lançou oficialmente a campanha dos irmãos Rosenverg Reis (candidato a deputado estadual) e Gutemberg Reis (candidato a deputado federal), ambos pelo MDB, em evento que reuniu mais de 30 mil pessoas e contou com a presença do candidato a governador Eduardo Paes[2]. A família opera como uma rede coordenada: Washington Reis (ex-prefeito por três mandatos) é o principal nome da família; Jane Reis (irmã de Washington) foi indicada como candidata a vice-governadora na chapa de Eduardo Paes; Netinho Reis (sobrinho de Washington) é o atual prefeito; Rosenverg e Gutemberg (irmãos de Washington) disputam o legislativo. A aliança política da família, no entanto, apresenta uma peculiaridade: apesar de apoiar Eduardo Paes para o governo estadual, a família Reis tem pedido votos para o presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro[3], numa estratégia batizada pela imprensa de "BolsoPaes". O grupo voltou ao centro das articulações estaduais após essa aliança controversa. O primeiro mandato relacionado à Família Reis em Duque de Caxias foi em 2005, quando Washington Reis foi eleito com 51,91% dos votos válidos do segundo turno das Eleições de 2004. Foto: Reprodução / Instagram. Magé - Família Cozzolino A dinastia Cozzolino controla a política de Magé há mais de quatro décadas. Renato Cozzolino foi reeleito prefeito em 2024 com quase 90% dos votos, a maior votação da história do município[4]. Em abril de 2026, renunciou ao cargo para disputar uma vaga de deputado federal, passando o comando para sua irmã e vice-prefeita, Jamille Cozzolino (MDB)[5]. A nomeação de parentes para cargos comissionados é uma marca registrada. Jamille, antes de assumir a prefeitura, já era secretária de Educação e Cultura. O primo do prefeito, Fernando José Assunção Cozzolino, ocupa a Secretaria de Trabalho e Renda. Outro primo, Vinícius Cozzolino Abrahão, é secretário de Governo. Mauro Raphael Cozzolino Nascimento também integra a estrutura administrativa[6]. Em maio de 2026, o deputado estadual Vinicius Cozzolino se filiou ao PSD e passou a articular com Eduardo Paes, que esteve em Magé. Renato Cozzolino, por sua vez, filiou-se ao DC para disputar a Câmara Federal[5]. Vinicius Cozzolino (PSD) é primo de Renato Cozzolino (PP) e candidato à reeleição a deputado federal pelo Rio de Janeiro. Foto: Alex Ramos. Nilópolis - Família Abraão David Nilópolis é o exemplo mais emblemático da simbiose entre contravenção, escola de samba e poder político. O clã Abraão David governa o município há quase 30 anos com duas interrupções[7]. Abraãozinho (PL), filho do ex-prefeito Miguel Abraão, foi reeleito em 2024[8]. O patriarca Aniz Abraão David (Anísio), contraventor e presidente de honra da Beija-Flor, exibe publicamente seus candidatos em faixas na Avenida Mirandela[9]. O deputado federal Ricardo Abrão, sobrinho de Anísio e filho do ex-prefeito Farid Abrão David (que presidiu a Beija-Flor por 18 anos), também integra as movimentações políticas da família[10]. Em setembro de 2026, a Polícia Federal realizou uma operação contra compra de votos que teve Ricardo Abrão como alvo. A ação é desdobramento de apuração que levou à prisão de 24 pessoas em 2024, com buscas na casa do prefeito Abraãozinho[11]. A relação entre Abraãozinho e Ricardo Abrão, no entanto, está desgastada desde a eleição municipal de 2024. Anísio, insatisfeito com a gestão dos sobrinhos, tem demonstrado publicamente seu descontentamento[12]. O G.R.E.S. Beija-flor de Nilópolis, por meio de seu presidente de honra Aniz Abraão David (Anísio), faz parte da vida política do município há décadas. Foto: Alex Ferro - Riotur. Mesquita - Família Miranda A família Miranda construiu uma hegemonia eleitoral recente em Mesquita. Jorge Miranda (PL), ex-prefeito com a maior aprovação entre os 13 municípios da Baixada, segue ativo no cenário político como Secretário de Relações Institucionais. Seu irmão, Renato Miranda (PL), é deputado estadual[13]. O atual prefeito, Alex Maroto de Oliveira (conhecido como Marotto), foi escolhido como sucessor por Jorge Miranda. Marotto, que era subsecretário executivo de gabinete e considerado braço-direito do antecessor, adotou o sobrenome Miranda. Aos 27 anos, tornou-se o candidato do governo e venceu as eleições. Críticos apontam Marotto como herdeiro político de Jorge, que mantém forte influência sobre a gestão[14]. Jorge Miranda foi eleito prefeito de Mesquita em 2020 com 78,63% dos votos válidos, e em 2026 disputa uma vaga de deputado federal pelo PL. Foto: Reprodução/Facebook: Jorge Miranda. Belford Roxo - Waguinho/Daniela, Canella e a Crise de Sucessão Belford Roxo viveu uma transição conturbada em 2026. Márcio Canella (União Brasil) foi eleito prefeito em 2024, mas renunciou em janeiro de 2026 para disputar uma vaga no Senado. Sua vice, Mariana Malta, assumiu em 3 de abril de 2026[15]. A intenção era que Waguinho Carneiro (Republicanos), ex-prefeito e marido da deputada federal Daniela Carneiro, pudesse disputar o Senado. No entanto, o Ministério Público Eleitoral pediu o indeferimento da candidatura de Waguinho, que está inelegível após ter suas contas de gestão rejeitadas[16]. Em maio de 2026, a prefeita Mariana Malta classificou como "picuinha política" a falta de indicação de emendas à cidade por Daniela do Waguinho[17]. Márcio Canella tenta vaga no Senado, mas bagunça o cenário político da direita no Rio de Janeiro no processo. Foto: Divulgação. São João de Meriti - Família Vieira A família Vieira ocupa os três níveis de poder: executivo municipal, legislativo federal e estadual. Léo Vieira (Republicanos) é prefeito com 80% de aprovação[18] e seu irmão, Luciano Vieira, é deputado federal e preside o PSDB no estado. Leonardo Braga Vieira Mendes (Leozinho), filho do prefeito, é o mais novo integrante da família a ingressar na política. Foi secretário de Habitação, Urbanismo e Iluminação Pública e filiou-se ao PSDB para disputar uma vaga de deputado estadual. Em maio de 2026, o presidente da Câmara de Vereadores, Doca Brazão, declarou apoio a Leozinho Vieira para deputado estadual e a Luciano Vieira para deputado federal[18]. A família Vieira tem forte articulação nos bastidores da política fluminense. Eleito após decisão do TSE de indeferir o registro da chapa do candidato Professor Joziel (DC), Léo Vieira também tem familiares em outros âmbitos da vida política. Foto: Divulgação/Republicanos. Japeri - Família Ontiveros Fernanda Ontiveros (PT), filha do saudoso Dr. Carlos Ontiveros (primeiro obstetra da cidade e figura política respeitada), foi reeleita prefeita de Japeri. O município, no entanto, vive uma crise política institucional. Em julho de 2026, a Câmara Municipal autorizou a abertura de processo de impeachment contra Fernanda Ontiveros e o vice-prefeito Carlos Januário[19]. Em agosto de 2026, a Polícia Civil passou a investigar um esquema de corrupção na Câmara de Vereadores que teria como objetivo compor maioria parlamentar para afastar a prefeita. A prefeita afirmou ter denunciado tentativa de extorsão[20]. A irmã da prefeita, Caroline Ontiveros, foi secretária de Educação e alvo de CPI. O processo de impeachment avançou em setembro de 2026, com a intimação da prefeita e do vice para apresentar defesa[21]. Dr. Ontiveros, pai da Drª. Fernanda Ontiveros, foi o primeiro médico obstetra de Japeri, lembrado como o "médico do povo", e uma figura fundamental na emancipação e no desenvolvimento político e social do município. Foto: Reprodução/Facebook. Paracambi - Família Ceciliano Andrezinho Ceciliano (PT), filho do ex-prefeito e ex-presidente da ALERJ André Ceciliano, foi eleito prefeito de Paracambi em 2024 com 64,11% dos votos. A eleição "reafirmou o forte vínculo da família Ceciliano com a política de Paracambi"[22]. André Ceciliano, que foi prefeito de Paracambi por dois mandatos (2001-2008), é candidato a deputado estadual em 2026. O patriarca aproximou a família do presidente Lula, que chegou a passar um fim de semana no sítio da família[23]. André Ceciliano foi prefeito de Paracambi por dois mandatos e hoje é candidato a deputado estadual pelo PT. Foto: Reprodução/Facebook. Queimados - Kaizer/Picciani Glauco Kaizer (União Brasil) foi reeleito prefeito de Queimados em 2024 com 49,11% dos votos. Glauco tenta a expansão ao articular a candidatura de sua esposa, Cris Kaizer, a deputada estadual[24]. Queimados também já foi vista como “curral eleitoral” da família Picciani[25]. No começo do século, Jorge Picciani foi o principal padrinho político de Max Lemos (PDT), que se elegeu prefeito de Queimados em 2008 com o apoio do então governador Sérgio Cabral e do próprio Picciani[26]. Nas eleições de 2010, por exemplo, o TRE apreendeu três caminhões de propaganda irregular da família na cidade[27]. Na eleição seguinte, Jorge Picciani teve 11.330 votos para senador em Queimados, enquanto seus filhos, Leonardo (MDB - deputado federal) e Rafael (MDB - deputado estadual), também foram eleitos com o apoio local[28]. Registro da reunião de 2021 entre Leonardo Picciani e Glauco Kaizer Foto: Reprodução / Facebook. Seropédica - Família Dutra e Crise Judiciária Seropédica enfrenta uma grave crise institucional. Em maio de 2026, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) cassou os mandatos do prefeito Professor Lucas (PP) e da vice-prefeita Vandrea dos Santos por abuso de poder político e econômico nas eleições de 2024. O prefeito foi declarado inelegível por oito anos, até 2032[29]. Apesar da cassação, Professor Lucas recorre da decisão e segue no cargo. A primeira-dama, Isabel Ribeiro Dutra, é candidata a deputada federal. O prefeito também promove a candidatura de sua esposa[30]. Professor Lucas (PP) é acusado de ter inflado a folha de pagamento do município de forma artificial, saindo de pouco mais de 2,7mil funcionários no começo do ano para quase 6mil funcionários no meio do ano, demitindo boa parte destas pessoas depois da campanha eleitoral. Foto: Reprodução/ZM Notícias. Itaguaí - Oligarquia de Quatro Famílias Itaguaí mantém uma tradição de revezamento entre quatro famílias desde os anos 1980[31]. Entre os sobrenomes que se repetem nos cargos executivos e em nomeações de parentes estão Busatto, Goulart, Jesus, Sagário e Cicarino, todos com histórico de controle de secretarias e cargos comissionados. Haroldinho Jesus (PDT), que assumiu como prefeito interino em janeiro de 2025, foi oficializado candidato à eleição suplementar marcada para 25 de outubro de 2026[32]. Ele ainda recebeu a Medalha Tiradentes da ALERJ[33]. Haroldo Rodrigues Jesus Neto, o Haroldinho Jesus (PDT), foi homenageado pela Alerj com a Medalha Tiradentes, maior honraria do Parlamento fluminense. Foto: Cristiano Masruha. Guapimirim - Família Rocha Marina Rocha (Agir) foi reeleita prefeita de Guapimirim. Seu irmão, Júlio Rocha, lançou campanha em agosto de 2026 em evento organizado pela própria prefeita[34]. Em abril de 2026, Marina se tornou ré em ação de improbidade administrativa por fraude na Saúde, por meio da qual a Justiça bloqueou R$ 8,6 milhões da prefeita e de outros investigados[35]. Júlio Rocha (esquerda), Douglas Ruas (centro) e Marina Rocha (direita), no evento de lançamento da candidatura de Júlio a deputado estadual. Foto: Reprodução/Instagram: Júlio Rocha. Nova Iguaçu - Famíllia Bornier Nova Iguaçu foi historicamente dominada pela família Bornier. O patriarca, Nelson Roberto Bornier, foi o único prefeito eleito por três vezes na história do município (1996, 2000 e 2012) e deputado federal por cinco mandatos. Seu filho, Felipe Bornier, seguiu a carreira do pai e foi deputado federal por três mandatos. O domínio da família Bornier chegou ao fim em 2016, quando Nelson Bornier foi derrotado por Rogério Lisboa, e com sua morte em 2021, vítima da Covid-19[36]. Atualmente, o poder está com Dudu Reina (reeleito em 2024) e o ex-prefeito Rogério Lisboa, ambos do PP. Em agosto de 2026, oficializaram apoio a Eduardo Paes ao governo estadual. Apesar da alternância, o padrão de concentração de poder em um grupo político familiar permanece[37]. Nelson Bornier, patriarca da família, faleceu em abril de 2021 em decorrência de complicações relacionadas à Covid-19. Foto: Reprodução/Facebook. Alinhamentos Políticos na Disputa para ser Governador(a) do RJ: Apoio a Eduardo Paes (PSD): Netinho Reis (Duque de Caxias - MDB) Jamille Cozzolino (Magé - MDB) Léo Vieira (São João de Meriti - Republicanos) Dudu Reina (Nova Iguaçu - PP) Rogério Lisboa (Nova Iguaçu - PP) Glauco Kaizer (Queimados - União Brasil) Fernanda Ontiveros (Japeri - PT) Andrezinho Ceciliano (Paracambi - PT) Haroldinho Jesus (Itaguaí - PDT) Apoio a Douglas Ruas (PL): Abraãozinho (Nilópolis - PL) Marotto Miranda (Mesquita - PL) Marina Rocha (Guapimirim - Agir) Análise dos Padrões de Perpetuação do Poder A pesquisa revela quatro estratégias principais de perpetuação dos clãs políticos na Baixada Fluminense. Por sucessão hereditária direta, como nos casos das famílias Ceciliano em Paracambi, Ontiveros em Japeri e Cozzolino em Magé; domínio de casal ou núcleo familiar, como nos casos de Waguinho/Daniela em Belford Roxo, ou a família Vieira em São João de Meriti, nos quais irmãos e filhos ocupam múltiplos cargos; a Influência de clãs sobre sucessores, como os Miranda em Mesquita, no qual o padrinho político indica herdeiro que adota o sobrenome, e Reis em Duque de Caxias, no qual o tio passa o poder para o sobrinho e irmãos ocupam legislativo; e ainda o entrelaçamento com outras estruturas de poder, como é o caso de Abraão David em Nilópolis, no qual o jogo do bicho e a escola de samba funcionam como suportes institucionais e Picciani em Queimados, onde a influência familiar um dia já veio de fora do município. A concentração de poder político em grupos familiares na Baixada Fluminense apresenta duas características em quase todos os casos: a ocupação simultânea de mais de um nível de poder, executivo municipal, legislativo estadual e federal, com a nomeação de parentes em cargos comissionados; e estratégias de profissionalização e capital institucional, com as famílias adaptando-se ao sistema partidário e utilizando o aparato público para a perpetuação da parentela no poder. O ano de 2026 tem sido marcado por crises judiciais (Seropédica, Guapimirim, Japeri, Nilópolis, Belford Roxo), rachas internos (Nilópolis) e movimentações eleitorais intensas para a disputa estadual, com a maioria dos clãs alinhada a Eduardo Paes (PSD) ou a Douglas Ruas (PL). A literatura especializada sobre o tema do monopólio familiar de poder na Baixada Fluminense é escassa, mas os estudos existentes apontam para a centralidade das relações de parentesco e clientelismo na estrutura política da região. O cientista político e sociólogo Ricardo Costa de Oliveira, autor de Na teia do nepotismo: sociologia política das relações de parentesco, analisa o fenômeno das oligarquias familiares no Brasil, demonstrando como o nepotismo e a concentração de poder em grupos de parentesco são mecanismos centrais para a reprodução das elites políticas no país, especialmente em regiões periféricas e de formação política recente, como é o caso da Baixada Fluminense.[38]. Esse ano, teremos eleições para governo dos estados e distrito, deputados estaduais/distrital e federais, senado, e presidência da república. Foto: Reprodução. Considerações Finais A pergunta que fica ao final dessa extensa discussão é a mesma que meus pais faziam a si mesmos quando nos anos 1980 resolveram casar-se e morar em Duque de Caxias: que poder popular há no voto por si só? Em outras palavras: A mobilização popular comunitária se resume pura e simplesmente no ato de votar? Existe alguma forma de recuperar o interesse coletivo sem dinastizá-lo, tornando o interesse coletivo, inicialmente heterogêneo e desafiador, ao interesse de somente um grupo pequeno de pessoas da mesma família durante 15, 20, 40 anos? Caso não exista, estaremos sempre à mercê da boa vontade do mesmo grupo - juiz, acusador e advogado de si mesmo - para que atendam às nossas necessidades, que podem ser (e geralmente são) bem diferentes das necessidades deles. Ocupar o espaço político não como parlamentar, mas enquanto população que reivindica seus direitos e procura o bem-estar comum para o território se faz essencial para que "o poder que emana do povo" passe a emanar das mãos calejadas de tanto trabalho do povo baixadense. Refs de Cria: [1] SILVA, Igor. Prefeito de Duque de Caxias, Netinho Reis, tem aprovação de 84% da população. O Dia, Rio de Janeiro, 5 jul. 2026. Disponível em: https://odia.ig.com.br/duque-de-caxias/2026/07/7273609-prefeito-de-duque-de-caxias-netinho-reis-tem-aprovacao-de-84-da-populacao.html. Acesso em: 9 set. 2026. [2] AGÊNCIA O GLOBO. Netinho Reis lança pré-campanha ao lado de Eduardo Paes em Duque de Caxias. Extra, Rio de Janeiro, 1 ago. 2026. Disponível em: https://extra.globo.com/rio/noticia/2026/08/netinho-reis-lanca-pre-campanha-ao-lado-de-eduardo-paes-em-duque-de-caxias.ghtml. Acesso em: 17 ago. 2026. [3] O GLOBO. ‘BolsoPaes’: família Reis puxa dobradinha que une voto no ex-prefeito e em Flávio na Baixada Fluminense. O Globo, Rio de Janeiro, 25 ago. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/25/bolsopaes-familia-reis-puxa-dobradinha-que-une-voto-no-ex-prefeito-e-em-flavio-na-baixada.ghtml. Acesso em: 8 set. 2026. [4] HUBPOLÍTICO. Renato Cozzolino. HubPolítico, 8 ago. 2026. Disponível em: https://hubpolitico.com.br/perfil/renatocozzolino. Acesso em: 20 ago. 2026. [5] FOLHA DA BAIXADA. Jamille Cozzolino assume Prefeitura de Magé após renúncia de Renato Cozzolino. Folha da Baixada, 9 abr. 2026. Disponível em: https://folhadabaixada.com.br/noticia/jamille-cozzolino-assume-prefeitura-de-mage-apos-renuncia-de-renato-cozzolino/. Acesso em: 20 ago. 2026. [6] VENTURA, Larissa. Prefeito de Magé nomeia 7 familiares em menos de uma semana. Diário do Rio, 6 jan. 2021. Disponível em: https://www.diariodorio.com/prefeito-de-mage-nomeia-sete-familiares-em-menos-de-uma-semana/. Acesso em: 21 ago. 2026. [7] ALVES, Marroni. Prefeito de Nilópolis está sedado e intubado com Covid-19. Diário do Rio, 3 dez. 2020. Disponível em: https://www.diariodorio.com/prefeito-de-nilopolis-esta-sedado-e-intubado-com-covid-19/. Acesso em: 21 ago. 2026. [8] G1. Eleições 2024: Abraãozinho, do PL, é eleito prefeito de Nilópolis no 1º turno. g1, Rio de Janeiro, 7 out. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/eleicoes/2024/noticia/2024/10/07/eleicoes-2024-abraaozinho-do-pl-e-eleito-prefeito-de-nilopolis-no-1o-turno.ghtml. Acesso em: 21 ago. 2026. [9] ULTIMA HORA. Doutor Luizinho e João Drummond: bicheiro mais poderoso da Baixada exibe seus candidatos em faixa. Ultima Hora Online, 18 jan. 2026. Disponível em: https://www.ultimahoraonline.com.br/noticia/doutor-luizinho-e-joao-drummond-bicheiro-mais-poderoso-da-baixada-exibe-seus-candidatos-em-faixa. Acesso em: 21 ago. 2026. [10] O GLOBO. Em Nilópolis, clã do bicheiro, patrono da Beija-Flor, entra rachado na eleição. O Globo, Rio de Janeiro, 30 ago. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/30/em-nilopolis-cla-do-bicheiro-patrono-da-beija-flor-entra-rachado-na-eleicao.ghtml. Acesso em: 3 set. 2026. [11] AGÊNCIA O GLOBO. PF faz operação contra compra de votos em Nilópolis; deputado Ricardo Abrão é alvo. Extra, Rio de Janeiro, 3 set. 2026. Disponível em: https://extra.globo.com/rio/noticia/2026/09/pf-faz-operacao-contra-compra-de-votos-em-nilopolis-deputado-ricardo-abrao-e-alvo.ghtml. Acesso em: 11 set. 2026. [12] MARTINS, Bruna; COPLE, Júlia; YOUSSEF, Leila. Relação desgastada e divergência eleitoral: a briga por trás da operação contra clã da Beija-Flor. O Globo, Rio de Janeiro, 3 set. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/09/03/relacao-desgastada-e-divergencia-eleitoral-a-briga-por-tras-da-operacao-contra-cla-da-beija-flor.ghtml. Acesso em: 7 set. 2026. [13] SALLES, Maicon. Jorge Miranda mantém atuação política e reforça diálogo institucional em Mesquita. Ultima Hora Online, 17 mar. 2026. Disponível em: https://www.ultimahoraonline.com.br/noticia/jorge-miranda-mantem-atuacao-politica-e-reforca-dialogo-institucional-em-mesquita. Acesso em: 24 ago. 2026. [14] PIRES, Elizeu. “Miranda, fica esperto com Mesquita”, alertam por lá. Elizeu Pires, 20 ago. 2026. Disponível em: https://elizeupires.com/artigos/politica/111485-miranda-fica-esperto-com-mesquita-alertam-por-la/. Acesso em: 25 ago. 2026. [15] PIRES, Elizeu. Belford Roxo está novamente em mãos femininas: vice-prefeita assume após renúncia de Canella, que vai concorrer ao Senado. Elizeu Pires, 6 abr. 2026. Disponível em: https://elizeupires.com/artigos/politica/85905-belford-roxo-esta-novamente-em-maos-femininas-vice-prefeita-assume-apos-renuncia-de-canella-que-vai-concorrer-ao-senado/. Acesso em: 26 ago. 2026. [16] ASSAD, Paulo. MPE pede indeferimento de candidatura de Waguinho ao Senado. O Globo, Rio de Janeiro, 18 ago. 2026. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/08/18/mpe-pede-indeferimento-de-candidatura-de-waguinho-ao-senado.ghtml. Acesso em: 26 ago. 2026. [17] SALOMÃO, Mateus. Prefeita critica Daniela do Waguinho após corte de emendas: “Picuinha”. Metrópoles, 11 maio 2026. Disponível em: https://www.metropoles.com/colunas/tacio-lorran/prefeita-critica-daniela-do-waguinho-apos-corte-de-emendas-picuinha. Acesso em: 26 ago. 2026. [18] REDAÇÃO AGENDA DO PODER. Aprovação de Léo Vieira chega a 80% e impulsiona candidaturas de Luciano Vieira e Léo Filho em São João de Meriti. Agenda do Poder, 8 set. 2026. Disponível em: https://agendadopoder.com.br/aprovacao-de-leo-vieira-chega-a-80-e-impulsiona-candidaturas-de-luciano-vieira-e-leo-filho-em-sao-joao-de-meriti/. Acesso em: 11 set. 2026. [19] FREIRE, Quintino Gomes. Rito de impeachment avança em Japeri: Fernanda Ontiveros e Carlos Januário são intimados por edital. Diário do Rio, 18 jul. 2026. Disponível em: https://www.diariodorio.com/rito-de-impeachment-avanca-em-japeri-fernanda-ontiveros-e-carlos-januario-sao-intimados-por-edital/. Acesso em: 27 ago. 2026. [20] G1. Polícia Civil cumpre mandados na Câmara de Vereadores de Japeri. g1, Rio de Janeiro, 21 ago. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/08/21/policia-civil-cumpre-mandados-na-camara-de-vereadores-de-japeri.ghtml. Acesso em: 28 ago. 2026. [21] G1. Nova CPI em Japeri investiga contrato da Educação após comissão apontar desvio de R$ 143 milhões na Saúde. g1, Rio de Janeiro, 8 jul. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/07/08/nova-cpi-em-japeri-investiga-contrato-da-educacao-apos-comissao-apontar-desvio-de-r-143-milhoes-na-saude.ghtml. Acesso em: 28 ago. 2026. [22] FREIRE, Quintino Gomes. Andrezinho Ceciliano vence a eleição e será o novo prefeito de Paracambi. Diário do Rio, 6 out. 2024. Disponível em: https://www.diariodorio.com/andrezinho-ceciliano-vence-a-eleicao-e-sera-o-novo-prefeito-de-paracambi/. Acesso em: 28 ago. 2026. [23] RJ NO AR. André Ceciliano e Dr Luizinho fortalecem aliança para ampliar investimentos na Baixada Fluminense. RJ no Ar, 17 ago. 2026. Disponível em: https://rjnoar.com.br/andre-ceciliano-dr-luizinho-investimentos-baixada-fluminense/. Acesso em: 29 ago. 2026. [24] FREIRE, Quintino Gomes. Eduardo Paes e Glauco Kaizer reúnem apoiadores em Queimados. Diário do Rio, 11 jun. 2026. Disponível em: https://www.diariodorio.com/eduardo-paes-e-glauco-kaizer-reunem-apoiadores-em-queimados/. Acesso em: 31 ago. 2026. [25]PIRES, Elizeu. Família Picciani pode ter seu próprio candidato a governador. Elizeu Pires, 2 mar. 2018. Disponível em: https://elizeupires.com/artigos/politica/4321-familia-picciani-pode-ter-seu-proprio-candidato-a-governador/. Acesso em: 31 ago. 2026. [26] CARVALHO, Felipe. Aliança ameaçada em Queimados. O Dia, Rio de Janeiro, 5 nov. 2014. Disponível em: https://odia.ig.com.br/odiabaixada/2014-11-05/alianca-ameacada-em-queimados.html. Acesso em: 31 ago. 2026. [27] O GLOBO. TRE apreende três caminhões de propaganda da família Picciani. O Globo, Rio de Janeiro, 28 ago. 2010. Disponível em: https://oglobo.globo.com/politica/tre-apreende-tres-caminhoes-de-propaganda-da-familia-picciani-2959331. Acesso em: 1 set. 2026. [28] REDE TV MAIS. Max Lemos, pré-candidato a prefeito de Queimados, era aliado de antigos políticos como Cabral, Pezão e Picciani. Rede TV Mais. Disponível em: https://redetvmais.tv/max-lemos-pre-candidato-a-prefeito-de-queimados-era-aliado-de-antigos-politicos-como-cabralpezao-e-picciani/. Acesso em: 1 set. 2026. [29] G1. TRE-RJ cassa mandatos do prefeito e da vice de Seropédica por abuso de poder nas eleições de 2024. g1, Rio de Janeiro, 25 maio 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/25/tre-mandatos-prefeito-e-vice-de-seropedica.ghtml. Acesso em: 1 set. 2026. [30] GAZETA DO POVO. Isabel Ribeiro: candidata a deputado federal pelo RJ. Gazeta do Povo, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/eleicoes/2026/candidatos/rj/deputado-federal/isabel-ribeiro-pp-1144/. Acesso em: 6 set. 2026. [31] SANTANA, J. S.; GUEDES, C. A. M.; VILLELA, L. E.. Desenvolvimento territorial sustentável e desafios postos por megaempreendimentos: o caso do município de Itaguaí - RJ. Cadernos EBAPE.BR, v. 9, n. 3, p. 846–867, set. 2011. Disponível em: https://www.scielo.br/j/cebape/a/VcNkHcprzpddQCHzVhkMNBR/?lang=pt&goto=next#4 Acesso em: 3 set. 2026. [32] O DIA. PDT oficializa Haroldinho Jesus como candidato a prefeito de Itaguaí. O Dia, Itaguaí, 20 ago. 2026. Disponível em: https://odia.ig.com.br/itaguai/2026/08/7293391-pdt-oficializa-haroldinho-jesus-como-candidato-a-prefeito-de-itaguai.html. Acesso em: 3 set. 2026. [33] FREIRE, Quintino Gomes. Alerj aprova Medalha Tiradentes para Haroldinho, prefeito de Itaguaí. Diário do Rio, 21 maio 2026. Disponível em: https://www.diariodorio.com/alerj-aprova-medalha-tiradentes-para-haroldinho-prefeito-de-itaguai/. Acesso em: 3 set. 2026. [34] CAVALCANTI, Pablo. Milhares de pessoas acompanham lançamento da campanha de Júlio Rocha. O Dia, Rio de Janeiro, 29 ago. 2026. Disponível em: https://odia.ig.com.br/guapimirim/2026/08/7296554-milhares-acompanham-lancamento-da-campanha-de-julio-rocha.html. Acesso em: 3 set. 2026. [35] DIÁRIO DO RIO. Justiça bloqueia R$ 8,6 milhões da prefeita de Guapimirim por suspeita de fraude em licitações. Diário do Rio, 15 abr. 2026. Disponível em: https://diariodorio.com/justica-bloqueia-r-86-milhoes-da-prefeita-de-guapimirim-por-suspeita-de-fraude-em-licitacoes/. Acesso em: 2 set. 2026. [36] G1. Nelson Bornier, ex-prefeito de Nova Iguaçu, morre aos 71 anos. g1, Rio de Janeiro, 11 abr. 2021. Disponível em: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2021/04/11/nelson-bornier-ex-prefeito-de-nova-iguacu-morre-aos-71-anos.ghtml. Acesso em: 2 set. 2026. [37] FREIRE, Quintino Gomes. Eduardo Paes percorre Nova Iguaçu ao lado de Rogério Lisboa e Dudu Reina. Diário do Rio, Rio de Janeiro, 6 set. 2026. Disponível em: https://www.diariodorio.com/politica/2026/09/06/eduardo-paes-percorre-nova-iguacu-ao-lado-de-rogerio-lisboa-e-dudu-reina.html. Acesso em: 9 set. 2026. [38] OLIVEIRA, Ricardo Costa de. Na teia do nepotismo: sociologia política das relações de parentesco. Curitiba: Editora Appris, 2020.
- Minha liberdade satisfaz o meu prazer.
Como o baixadense se enxerga - pt. 9. Vídeo: YouTube. Mudanças bruscas, normalmente, não se explicam, a gente simplesmente faz. Geralmente, quando elas se fazem necessárias, é porque o silêncio ou a inércia já causaram consequências irreversíveis. Akascagrossa, cria do Complexo de Mali, pegou essa sensação e jogou na faixa "Magia", lançada em 2024. Ela parece só mais uma música triste de término, mas quem sente a música sabe que ali se canta outra coisa: a decisão de não ser mais definido pelo passado. E essa decisão acaba virando um jogo, uma brincadeira, uma negociação entre o que se era e o que se pode vir a ser. Me desapegar, confesso foi difícil Minha abstinência, você sempre foi meu vício Tanto tempo junto, mas nunca quis compromisso Como acreditar nesse seu amor fictício? A palavra "abstinência" não está ali por acaso, ela carrega o peso de quem sabe que o que parecia sustentar também era o que fazia mal. A pessoa amada é tratada como uma substância, ou ao menos o corpo respondia como se fosse. O vício não é a droga, o compromisso nunca veio, e o amor era fictício. Mesmo com isso tudo, ainda doeu largar. Se pensar em me ligar, Sabe, eu não vou atender O nosso lance terminou Eu não quero mais saber de Nada que vem de você Baby, o que passou ficou pra' trás "Não vou atender" não é uma ameaça, é uma sentença. A música, nesse ponto, já não pede mais nada, só atesta, porque o que vem depois não é vingança, não é rancor, é o silêncio de quem já não precisa responder. Tô levando a vida E já faz tempo que eu nunca senti Mudei meu endereço, CEP, chip, telefone aqui Cortei todos os laços que me levavam até você Não me interessa nada que 'cê pretende fazer Essa estrofe fala sobre se tornar outro. Trocar o chip, o número, o endereço... Cada um desses gestos é uma camada que se desprende, dando a impressão de que é preciso uma reconfiguração, mas que vem de dentro pra fora. O corte dos laços não é violência, e pouco interessa o que vai ser feito: Seu feitiço não me pega, Sua magia já não faz efeito Eu não caio nessa De ficar sendo só seu brinquedo Me valorizei Eu acho que deu certo De tudo o que já passei, esse é o melhor momento Truque só funciona enquanto a gente acredita, enquanto a gente não vê a mão que faz o feitiço. O eu-lírico, ao entender o que está acontecendo, diz que se valorizou, como quem precisava ver para crer, e crer em si mesmo(a). Me esquivando da sua lábia e também do seu golpe Não me espere em casa, porque talvez eu não volte Guarda na memória todas as vezes que eu já te amei Ninguém vai te tratar da maneira que eu te tratei Aqui, depois de entender o jogo de quem se aproxima sem se entregar, o eu-lírico demonstra sua escolha: talvez não volte, e talvez seja bom guardar na memória os momentos bons, pois ninguém vai agir como ele(a) agiu com você. Isso reforça a ideia de que o que foi entregue que não vai ser novamente. Sigo meu destino (Hmmm) Não preciso mais do seu sorriso pra' viver Não morro iludido (Não) Minha liberdade satisfaz o meu prazer O destino não é o que acontece, são as escolhas que a gente toma. A liberdade, aqui, é pura e simplesmente o prazer da autossuficiência. Saber que não precisa de mais nada nem ninguém além de si faz com que a ilusão não mate mais. A realidade sou eu, e eu sou suficiente. Akascagrossa, no Brasil Grime Show que aconteceu no dia 20 de junho de 2026, no VidaDura, centro do Rio. Foto: Reprodução: Spaike / Brasil Grime Show. O deslocamento do eu-lírico é o que Stuart Hall[1] chamaria de reposicionamento narrativo: a identidade não é uma essência que se carrega, mas uma história que se reconta a partir de onde a gente está. Partindo deste ponto, cada repetição do refrão parece ser um gesto que vai constituindo o sujeito livre, sem essência, e sim por um efeito de atos repetidos. O eu-lírico não descreve a liberdade, mas a torna real cada vez que canta o refrão. Em Butler[2], podemos dizer que aqui o gesto, ou a repetição deles, cria aquilo que nomeia. E, pensando numa terceira nuance, ao cantar, Akascagrossa embaralha tudo: não se sabe mais se ela canta sobre si ou sobre a história de quem está ouvindo. O "eu" da música é tão específico que parece autobiográfico mas, ao mesmo tempo, é também tão aberto que qualquer pessoa que já tenha precisado recomeçar pode se reconhecer ali. Essa identificação vem da empatia de saber o que aquela situação significa. É nesse ponto que, para Maria José de Abreu[3], a performance é uma "terra de ninguém", um espaço onde as fronteiras entre o íntimo e o público, entre o eu e o outro, se dissolvem. A artista, ao cantar, oferece um gesto, uma situação, uma dor... um lugar que pode ser habitado por qualquer um. A especificidade da experiência não a torna fechada, a torna um lugar de passagem, fazendo com que quem ouve esteja tanto testemunhando uma história alheia quanto encontrando a própria. Nessa comunhão entre o particular e o coletivo, o sujeito baixadense se expande. A "terra de ninguém" deixa de ser um vazio para virar um campo de possibilidades onde a experiência pessoal se torna matéria de encontro. Akascagrossa (direita), Cuteshawty (esquerda) e Diniboy (centro), na gravação de mais um episódio para o Brasil Grime Show. Foto: Reprodução / Instagram: DiniBoy. Akascagrossa canta no singular, mas sua voz se espalha como se fosse plural. O que começa como um desabafo íntimo termina como um gesto coletivo: a liberdade que satisfaz o prazer não é só dela, é de quem ouve e se reconhece. A música não entrega uma resposta, entrega uma escolha. Trocar o chip, cortar os laços, dizer "não vou atender"... Tudo isso é reescrever a própria história a partir de um lugar novo. A Baixada, território de recomeços, é o cenário onde essa escolha faz mais sentido porque, aqui, a gente aprende que a única magia que não se desfaz é a que a gente faz com a própria vida. O refrão se repete como quem confirma a decisão. O que passou ficou pra trás. O que vem agora é da conta de quem escolheu. Refs de Cria: [1] HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. [2] BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. [3] ABREU, Maria José A. de. Pessoalidade ou a terra de ninguém da performance. In: A terra do não-lugar: Diálogos entre antropologia e performance. Florianópolis: EDUFSC, 2013. Disponível em: https://repositorio.usp.br/item/002470112. Acesso em: 24 ago. 2026. Fijó é comunicador social, músico e produtor cultural. Idealizador do Ideias de Hermes Podcast/O Hermes da Baixada e do Shuffle BXD, criador da camisa "SARAPUÍ", integrante dos coletivos Instituto BXD e BXD IN CENA e coordenador/revisor do BXDISSE. Tecladista dos artistas Capelloni, Tabita Infinito, CAYÚ e Mtzyn ¿. Constrói no site do BXD IN CENA os estudos "Como o baixadense se enxerga?", buscando discutir obras musicais de artistas baixadenses e como funciona a representação do que é ser baixadense para essas pessoas.
- Manual do voto baixadense: vote pelo território.
Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Território: o espaço geográfico transformado pela ação humana, atravessado por relações de poder, técnicas e vida social. Essa definição é de Milton Santos[1] para o que é território. Quando leio essa definição, me parece que pode ser muito raso o entendimento que um território como a BXD esteja sempre associado aos votos de candidatos contrários às políticas públicas que estruturam nosso ambiente. Não só essa definição como toda, mas especificamente "relações de poder", para a BXD, significa muitos conceitos. Poder paralelo como as milícias e o tráfico. Poder evangélico. Monopólio familiar de poder político. Na Baixada Fluminense, ou em qualquer território sucateado no RJ, temos um fenômeno de votos mais distantes da realidade que queremos, com melhorias de infraestrutura. Isso porque somos levados a votar em conjunto pelas relações de poder. Falar que há lugares no nosso território que há imposição de voto é mais do mesmo. Todos sabemos que há essa imposição e persuasão. Alguns lugares mais explícitos do que outros. Ainda assim, há uma sequência e, consequentemente, quebra dessa sequência que podemos fazer: votar no nosso território. Mantendo com as palavras de Milton Santos: "O território não é apenas o conjunto dos meios naturais e dos meios construídos de que uma sociedade dispõe. O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade, a identidade pertencente à realidade e ao sentimento de pertencer ao que nos cerca." (SANTOS, 2002)[2]. Quando você pensa em quem votar, você também pensa em identidade sobre as pautas que mais se alinham com seu posicionamento ideológico, certo? Sendo assim: Por que não pensamos em um voto mais identitário com a nossa BXD? O baixadense precisa ver os seus não só como número representativo, mas com ações distributivas, efetivas e construtivas. Um ponto de partida é enxergar os candidatos que se posicionam no território para além do período eleitoral. E isso também é enxergar o passado desse pessoal. Eles carregam e ocupam o mesmo espaço que a gente no transporte diário, na ausência de saneamento na tua área e, principalmente, se esses candidatos não estão ligados ao poder político familiar que vende nosso território para o poder paralelo. Voto político é muito simples. Você escolhe com quem mais simpatiza ou quem a igreja pede voto. Ou quem fala que vai fazer uma obra na região. E isso faz um cara com esquemas ligados a ex-parlamentares presos, investigados e cassados ter repertório para ganhar espaço no nosso território. Não só ganhar espaço, mas também ganhar eleitorado com forte rejeição de quem realmente quer construir uma Baixada Fluminense melhor. "Fundamento", de Eufena e R.Diop, discute as prioridades do Estado em relação à juventude negra periférica. Fonte: YouTube / Eufena - Topic. Nosso território não é convite de passagem. É espaço para a nossa ocupação, nossas lutas e nossas disposições para sonhos reais. Queremos infraestrutura, mas também feiras artísticas. Queremos trabalhar sem demorar 2h no transporte. Queremos o avanço na materialização das Unidades de Saúde. Queremos espaços e ruas seguras, pensadas por quem sabe como é morar em um lugar marginalizado. Queremos estar tranquilos com um transporte menos sucateado e, além das ruas asfaltadas, ter o nosso lazer por aqui. Não é por acaso que, mesmo representando cerca de 25% de todo o eleitorado do Estado do Rio de Janeiro, a Baixada ainda abriga municípios entre os piores do Brasil em tratamento de esgoto[3] e onde a classe trabalhadora perde mais de 2 horas por dia em trens e ônibus sucateados. As "relações de poder" usam nosso voto, mas não devolvem dignidade. Mesmo concentrando 1 em cada 4 votos do estado, nosso território continua refém de propostas assistencialistas em vez de projetos orçamentários estruturantes de longo prazo. "Somos um povo novo que nasce da desorganização de matrizes tantas, mas que se inventa na dor e na resistência para criar uma civilização própria no tropico." (RIBEIRO, 1995)[4]. Charge abordando a situação dos trabalhadores da Baixada Fluminense no fim dos anos 1970. Fonte: Repositório / Jornal da Baixada. Quem sou eu para falar com você em quem deve votar em 2026. Não tenho nem repertório político o suficiente para isso. Tenho 24 anos, participei de 3 eleições, podendo votar para Estadual e Federal. Estudo Ciência Política, mas sei que a teoria acaba sendo ultrapassando a prática. E a prática ainda acaba sendo avaliada por território. Refs de Cria: [1] SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: Técnica e Tempo, Razão e Emoção. 4. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (Edusp), 2006. [2] SANTOS, Milton. O chão e a população. SANTOS, Milton. O País Distorcido: ensaios de cidadania e territorialidade. São Paulo: Publifolha, 2002. [3] BRASIL DE FATO. Baixada Fluminense tem os piores índices de saneamento entre os 100 maiores municípios do país. Brasil de Fato, Rio de Janeiro, 22 mar. 2022. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2022/03/22/baixada-fluminense-tem-os-piores-indices-de-saneamento-entre-os-100-maiores-municipios-do-pais. Acesso em: 28 ago. 2026. [4] RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.
- Se der um mapa, quem nos acha?
Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Da esquerda para a direita: Os candidatos Anthony Garotinho, Douglas Ruas, William Siri e André Marinho, e a jornalista Adriana Araújo na Band. Foto: Lucas Figueiredo/Band. No domingo (09/08), tivemos o primeiro debate entre os pré-candidatos ao governo do Estado do Rio de Janeiro. Assisti ao debate tanto para saber quem são os candidatos e suas propostas, tanto para saber se eles iam fazer uma coisa em específica: citar a Baixada Fluminense. E não, não citaram. A não ser que você considere que o candidato André Marinho (NOVO), citando a Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, cita inadequadamente o município de Nova Iguaçu. Antes de começar o debate, eu achei que essa “pesquisa” minha seria distante da realidade. Isso porque, quando se fala em debate, se falar em governar para o macro. As propostas são vigentes para todo o Estado. Mas durante o debate televisionado, tive uma leve impressão de que talvez não fosse algo tão distante. Não vou listar todos os pontos do Rio de Janeiro que eles citaram, mas falaram da Zona Sul, Zona Oeste, Copacabana e Ipanema. E nada de BXD. Talvez, novamente, por debater o macro e todo o Estado, citar a BXD não seja sempre algo tão necessário. Mas me pego para pensar em: Como falar de mobilidade e não citar a Baixada? Como falar de segurança e não citar a Baixada? Como falar das áreas afetadas pelo crime e não citar a Baixada? Como alguém consegue falar de melhorias para o Rio de Janeiro e não citar como os 13 municípios do território baixadense serão beneficiados? Integração do BRT com a Baixada por meio do Terminal Margaridas vira moeda política nas Eleições de 2026 para governador do estado do Rio de Janeiro. Foto: Erica Martin / Agencia O Dia. Quero citar Paulo Freire[1] aqui para discutir sobre como totalizam nossos problemas e não debatem de forma séria como resolver. Não só como resolver, apresentar, planejar e avaliar os projetos que entram em vigor e tem suas peculiaridades nas regiões da Baixada Fluminense. “Mais uma vez é imperiosa a conquista para que os oprimidos realmente se convençam de que estão sendo defendidos. Defendidos contra a ação demoníaca de ‘marginais desordeiros’, ‘inimigos de Deus’, pois que assim são chamados os homens que viveram e vivem, arriscadamente, a busca valente da liberdade dos homens.” (FREIRE, 1987)[1] Ano eleitoral. Falar disso na BXD é quase um tabu. Tabu não, um mito ou um evento de muita importância, mas que acaba passando sem marcar nada, sabe? Acho quase igual uma tarde do dia 1º de janeiro de todo ano. Você sente a importância, mas ok, o que vem depois? Particularmente, acho pior, porque em 1º de janeiro ainda temos a leve ilusão das nossas atitudes refletidas. Já o ano de eleição, temos a falsa sensação de coletivo que busca algo melhor, mas que nunca é atendido. Ou raramente. Ou depende do quanto você tem de influência para isso, se sua área é influenciada por poderes paramilitares que "permitem" (ou não) que os direitos cheguem até você ou se o único direito que temos é do estado com uma arma apontada. Voltaremos a ser citados ou podem nos generalizar? "Afago", por RaH BXD e produção de Buzu. Vídeo: YouTube / RaH BXD. Refs de Cria: [1] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.
- Desenvolvimento do setor cultural da Baixada.
Texto por: Bruno Lima. Revisão: Fijó. ATO 1: O pulo do gato chamado "Economia Criativa". Se tem uma coisa que não podemos negar é que a execução dos recursos da Lei Aldir Blanc (LAB), da Lei Paulo Gustavo (LPG) e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) foi uma conquista histórica, fruto da mobilização do movimento cultural da Baixada Fluminense, ainda em um cenário adverso, pandêmico. Ainda que seja assim, devemos procurar analisar estas leis indo para além do montante de recursos. Se a LAB e a LPG possuíam como premissa ser um auxílio ao setor cultural devido à Covid-19, a PNAB é regulamentada em outro cenário. Analisando sua lei, é possível sintetizar seus objetivos no estímulo às ações e projetos culturais; financiamento e manutenção de ações e espaços; e democratização e acesso à fruição e à produção cultural[1]. "Investimentos na Cultura", charge de Tayná Luyse, maio de 2022, para o Portal Communicare. Fonte: Reprodução / Communicare. A partir desses objetivos, devemos observar a PNAB como ela deve ser vista de fato, uma política em prol do estímulo ao setor, que estimula para algo (no caso, o desenvolvimento do setor), e não um auxílio emergencial (premissa da LAB e LPG). Mas como alcançar tais objetivos de desenvolvimento se, na prática, o que se vê é a reprodução da mesma lógica de recursos federais repassados a estados e municípios, que são distribuídos para os agentes culturais locais, em sua maioria, através de editais de concorrência? Afinal, desenvolver o setor significa justamente dar bases para que esses agentes culturais vivam de fato disso, sem precisarem de outra renda complementar, especialmente em uma região que não tinha grande apoio do poder público anteriormente. Em outras palavras, e juntando as questões, por que se começa esse apoio através de editais de concorrência, sendo que os agentes culturais partem de posições desiguais, se a intenção é justamente desenvolver o setor? Um dos caminhos para responder essa pergunta passa por compreender que a adoção do edital como mecanismo de distribuição dos recursos, que se sobressai aos demais possíveis mecanismos, é o reflexo de como o financiamento público da cultura no Brasil se alinhou a uma nova racionalidade, pautada numa lógica mercadológica da cultura. Isso ocorreu ao longo da década de 1980 e se consolidou na década de 1990, quando a noção de cultura enquanto atividade econômica foi ressignificada a partir do conceito de "economia criativa". De maneira resumida, economia criativa seria o resultado de um processo de alargamento gradual do que antes se considerava a economia da cultura, que era mais restrita às artes, ao patrimônio e ao espetáculo ao vivo, e passou a englobar setores como design, moda, publicidade e arquitetura, sob o argumento de que a criatividade seria um atributo comum a toda a economia, como definem Canedo e Dantas [2]. A questão aqui não recai sobre esse alargamento do setor em si, mas sobre as finalidades políticas e econômicas para as quais essa expansão estava sendo usada naquele momento. Movimentações culturais na Baixada Fluminense se autossustentam, mas não precisam de incentivo do poder público para permanecerem. Foto: Reprodução / Batalha do Bilac - Tina Diores. O conceito ganha força na década de 1990, quando a Austrália, em sua primeira política cultural federal, declarou que "cultura cria riqueza" e que as indústrias culturais eram também uma política econômica. Pouco depois, o governo do Reino Unido incorporou o conceito de indústrias criativas ao seu plano de governo, consolidando a ideia de que o talento e a criatividade poderiam gerar emprego, renda e competitividade internacional, como também apontam Canedo e Dantas[2]. À primeira vista, ouvir que a cultura ganhou centralidade nas agendas econômicas poderia parecer um grande avanço. E é aí que entra o problema do conceito de economia criativa nessa sua origem: ele surge possibilitando a ascensão de uma visão estritamente mercadológica, e não valorizando a cultura em si. Ao associar a economia criativa à exploração da propriedade intelectual, como fizeram a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) nos anos 1990, essa definição passou a privilegiar apenas iniciativas com potencial de lucro em escala. O resultado foi uma exclusão não declarada de manifestações como o artesanato, a cultura popular e as artes de rua, que, embora gerassem renda para seus profissionais, dificilmente se enquadravam nessa lógica de alta rentabilidade. Um exemplo das consequências do avanço do conceito e de todo o ideário narrativo que ele carregava pode ser visto no caso das negociações em torno das produções audiovisuais no âmbito do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT) ainda na década de 1990, como analisa o pesquisador George Yúdice[3]. Na ocasião, os Estados Unidos pressionaram para que os bens audiovisuais fossem tratados como mercadorias comuns, submetidos às mesmas regras de livre mercado como qualquer outro produto comercial. Porém, houve forte resistência de países como a França e do bloco europeu, baseada na premissa de que um bem cultural, como sabemos, não é um produto qualquer, já que carrega consigo identidades, marcas de um território e diferentes visões de mundo. Entregar a produção cultural à livre concorrência significaria submeter todo esse conteúdo simbólico ao domínio e à padronização. Essa resistência impediu que a lógica mercantil prevalecesse de imediato e forçou um rearranjo institucional que culminou, em 2005, na aprovação da Convenção da UNESCO para a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais, que redirecionou o debate do protecionismo nacional para a defesa da sustentabilidade de expressões culturais plurais, ameaçadas pelos grandes conglomerados midiáticos, e acabou por impulsionar governos a incorporar grupos historicamente marginalizados no financiamento e na visibilidade pública. Para Yúdice[3], foi exatamente nesse caldo político-institucional de disputas e rearranjos que a produção simbólica passou a ser colocada como um vetor estratégico para a diversificação produtiva, a inovação e a competitividade internacional dos países. Organismos multilaterais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), por meio de relatórios, passaram a exaltar o potencial desse setor para atrair capitais, gerar ocupação e promover inclusão social, sobretudo em nações periféricas, onde micro e pequenos empreendimentos costumam ser predominantes. Entretanto, o próprio autor afirma que a participação da América Latina e do Caribe na riqueza criativa global segue modesta, e a informalidade, que já atinge a região com taxas altíssimas, costuma ser ainda mais aguda nos segmentos culturais. Como resultado, a maioria dos empregos gerados nesse âmbito sofre com a falta de estabilidade e precarização de direitos, exigindo dos trabalhadores a permanente busca por rendas complementares fora do circuito cultural. Essa precarização, conforme argumenta a pesquisadora Isaura Botelho[4], é a própria espinha dorsal da economia criativa, porque o modelo de organização do trabalho cultural passou por uma transformação significativa nas últimas décadas. Se antes as grandes indústrias culturais se configuravam como empresas estáveis e de longo prazo, agora a economia criativa promove a substituição dessas estruturas por redes de curta duração, articuladas em torno de projetos temporários e de duração limitada. A autora demonstra que essa nova forma de organização aparentemente mais autônoma e flexível para o trabalhador, disfarça, na verdade, a substituição de vínculos estáveis por contratações temporárias. Foi dessa maneira que a nomenclatura de "economia criativa" representou uma disputa política e ideológica que, sob a aparência de inovação, abriu os caminhos para a conversão da precariedade na cultura em escolha pelo empreendedorismo e a ausência de proteção social em mera questão de mérito pessoal. Claro que muitos agentes culturais e gestores utilizam o termo de forma mais operacional, descolado de sua origem, enxergando nele apenas uma forma prática de falar sobre geração de renda, sobrevivência e até de inclusão. Não se trata de invalidar quem usa essa expressão no corre do dia a dia para tentar viabilizar o seu trabalho. Mas é importante não esquecermos o contexto em que esse conceito nasceu e as amarras que ele plantou dentro da máquina pública ao longo das últimas décadas. A implementação do conceito de "economia criativa" e sua exaltação da flexibilidade e da versatilidade do trabalho cultural encontraram as reformas neoliberais nos anos 1990, pautadas pela lógica de metas e eficiência da atuação estatal. Se essa nova racionalidade mercadológica transformou o fazer cultural comunitário e contínuo em uma mera sucessão de ‘projetos temporários’ em disputa, o Estado precisava de uma régua para medir e decidir qual deles merecia o dinheiro para sobreviver. É exatamente para cumprir esse papel, isto é, o de peneirar o dito melhor projeto e legitimar a concorrência sob o falso manto da neutralidade, que entra em cena a figura do edital. Em consequência, como a maior parte do financiamento público passou a ser distribuída por esse mecanismo competitivo (o fenômeno da editalização da cultura), os agentes são obrigados a converter suas práticas contínuas em propostas de curto prazo para conseguirem acessar o recurso. O problema é que a lógica passageira do projeto, com seu começo, meio e fim, não combina com o fazer cultural que é construído no território. Na prática, o edital acaba por impor uma temporalidade estranha à cultura na Baixada Fluminense, onde ela se estruturou em décadas de resistência diária e fazer contínuo, e não em ciclos de alguns meses. Até porque a vida não para quando o edital acaba. No próximo texto, abordarei como essa ferramenta burocrática do edital se consolidou no financiamento cultural do Brasil e analisaremos algumas características da editalização a partir do estudo de caso da execução do primeiro ciclo da PNAB na cidade de Nova Iguaçu. Charge de 10 de maio de 2026. Fonte: Reprodução / Vvale.com.br. Refs de Cria: [1] BRASIL. Lei nº 14.399, de 8 de julho de 2022. Institui a Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB). [2] CANEDO, Daniele; DANTAS, Marcelo. Da economia da cultura à economia criativa: considerações sobre a dualidade entre cultura e economia In: VLADI, Nadja (Org.). Olhares interdisciplinares: fundamentos em cultura, linguagens e tecnologias aplicadas. Cruz das Almas: Editora UFRB, 2016. p. 215-236. [3] YÚDICE, George. Inovações na política cultural e no desenvolvimento na América Latina. Políticas Culturais em Revista, Salvador, v. 12, n. 1, p. 121-156, jan./jun. 2019. [4] BOTELHO, Isaura. Dimensões da cultura: políticas culturais e seus desafios. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2016. Bruno Lima é japeriense, vascaíno, doutorando em Economia pela UFF e mestre pela PUC-SP, com bolsa da CAPES. Membro do Observatório Baixada Cultural (OBAC), pesquisa políticas públicas de cultura, Lei Aldir Blanc, economia criativa, carnaval e cultura popular na Baixada. Foi pesquisador na Fundação Casa de Rui Barbosa e professor substituto na UFRRJ.
- Se deus não existe, quem escreve pra mim?
Como o baixadense se enxerga? - pt. 8. Texto por: Fijó. Revisão: Jéz; Josué Matheus. Fonte: FED Ent./ YouTube. Sabe aquela voz que aparece quando você tá sozinho, na calmaria que vem depois da tempestade, e que parece vir de fora mas também de dentro? Não é um pensamento, não é uma lembrança — é uma ordem. Ela não pede, não sugere, não explica. Ela só diz: "confia", e a gente nunca sabe de onde ela vem. O Hashi, cria de Mesquita, lançou em 2021 uma música que muito cedo virou um hino para mim, pessoalmente. Acreditar no meu trabalho não por ouvir o que vem de fora; acreditar no meu trabalho por entender o que vem de dentro. Junto com Black, ele lançou a música "Confia". Amor, o rap vai acabar me deixando rico A cerveja deixando pobre E eu te deixando leve, mina Foda é que tu me lembra Lilith, do tipo que só fode comigo e sai por cima Bolando um beck e bolando um plano pra roubar a cena que os cara' não desconfia, mano Às vezes, penso em desistir, só que parece que o destino olha pra mim e diz 'confia, mano' Hashi expõe uma confissão que parece despretensiosa, mas já carrega o peso de quem vive entre três forças que não se alinham. Três direções: a arte que promete sustento, o vício que consome e o afeto que não se fixa. Não existe equilíbrio, mas existe muita tensão. E é nesse campo minado que Lilith vem à memória, como alguém que não se apega e, ao mesmo tempo, alguém que não se curva. Nesse cenário de caos, a voz aparece. O destino não parece ser uma força abstrata; ele olha. Ele diz. A voz tem presença, tem rosto, e profere uma única palavra: "Confia". Não é um consolo, uma sugestão ou uma possibilidade. É uma ordem. Quem narra essa história não "escolhe" confiar; é "convocado" a isso. A Baixada, vista por esse ângulo, é uma eterna negociação com uma entidade - ou coleção de fatos inevitáveis - que exige obediência antes de qualquer outra coisa. O "confia" é o mandamento que não explica, não justifica. Só manda. Daria um filme, os cana' de Corolla E o Laranjinha ter que ir no presídio visitar o Acerola E pros Macaulay Culkin mal de Coca-Cola Quando eu digo 'saudade, MD', eu não falo de droga Aqui, o Hashi mistura cinema, tráfico, cultura pop, saudade, memória afetiva. É um gesto de autonomia sobre sua arte, como se dissesse "não sou o que você pensa que eu sou, minha letra não é o seu clichê vazio". Por essa ótica, a pergunta "quem escreve?" é, no fundo, uma pergunta sobre legitimidade: quem autoriza essa voz a existir? Se for Deus, a voz é sagrada. Se for o rap, a voz é arte. Se for a rua, a voz é testemunho. Mas se for "só" o Hashi ou o Black... Aí a voz precisa se sustentar sozinha. E isso é assustador. Pai, eu sei que tudo que vai volta, Mas na real eu não sei se isso me assusta ou me motiva A afirmação não traz certeza, e a incerteza, na periferia, é para poucos. Na nossa realidade hesitar é parar, e parar é morrer. Mesmo assim, o artista hesita no verso, sendo talvez o ato mais corajoso da música: dizer "não sei" em voz alta, sem a proteção de uma resposta pronta. Vou ganhar o mundo e depois lavar a louça E por mão na massa pra ter pão na mesa Bota minha tropa no flyer, que teu evento lota Se Deus não existe, quem escreve minhas letra'? No refrão, a promessa de "ganhar o mundo" é imediatamente seguida pela volta pra casa - ou "lavar a louça". Não existe fuga atrelada à melhoria, existe permanência. O mundo que ele vai ganhar é um mundo que cabe na pia da cozinha de casa. A louça é um ponto fixo: é ela que o artista usa pra se recusar à narrativa do "favela, venceu, saiu". O sujeito quer ganhar o mundo, mas o que mede o começo do mundo é a louça, é o cotidiano, o trabalho, a família, a mesa (farta, de preferência, e) posta. Nosso território é a base de onde se parte e a casa para onde se volta. "Ser baixadense" não se define pela saída, mas pela capacidade de retorno. E, no meio dessa negociação entre o sonho e o corre, a pergunta que rasga o ouvinte: se o deus (provedor) não existe, de onde vêm o dom? Claramente não é uma pergunta sobre teologia, é uma pergunta sobre autoria. Se a voz que diz "confia" não vem de Deus, vem de onde? Do rap? Da rua? Da memória de quem já morreu? Do próprio Hashi, que duvida tanto quanto acredita? A ordem "confia" exige obediência, mas o sujeito que obedece não sabe nem quem está mandando. Ele só sabe que algo o impulsiona, o faz seguir em frente. Black traz, depois do primeiro refrão, sua visão da mesma situação. Amor, o rap já me deixou forte Cerveja pra mim é lixo Agora vou trazer os cria' comigo Nós somos forte', não porque queremo', e sim porque é preciso Se eu miro, acerto, porque sou preciso A força aqui não é escolha; é necessidade. Black não é forte simplesmente porque acredita, ele é forte porque a realidade exige. É a resposta mais sóbria ao comando do destino: se o Hashi recebe a ordem "confia" e pergunta quem escreve, o Black diz: "escreve quem precisa sobreviver". A autoria, pra ele, é uma consequência da falta, não um dom vindo da abundância. Pra variar, fui frio e calculista Não descarreguei pro céu, guardei pra largar nesses cara' Que pra me alcançar, vão ter que gastar a sola da Kenner Enquanto Hashi atira pro céu, derruba anjos e paga o preço no inferno astral no primeiro bloco da letra, Black guarda as balas pra quem está na terra igual a ele. Um briga com o divino, o outro briga com o terreno, mas os dois compartilham a mesma vontade de ganhar o mundo e lavar a louça. O que fica na minha cabeça é que existe, ao mesmo tempo, um enfrentamento com o invisível e a resistência com o visível. Nenhuma vale mais que a outra, só são respostas diferentes à mesma ordem: "confia". Garota, eu lembro das promessa' de pra sempre junto' Mas hoje eu nem faço mais questão do teu contato salvo Artigo 33, Cidade de Cristo Fala! O que era crime, hoje é poesia Nesse sentido, se deus não existe, quem escreve é a vivência do território. A mão que segura o microfone é a mesma que segurou o pente, no entanto a diferença está no destino que a música dá à violência. Essa transformação é a prova de que a autoria é um fenômeno real e perceptível: o crime não deixou de existir; ele foi reescrito. A poesia não apaga a violência, só a transforma em outra coisa. Clipe de "Confia", por Hashi e Black. Direção: Max Chagas. Foto: Reprodução / YouTube. Conclusão: No fim das contas, o "confia" não é uma ordem pra acreditar em Deus. É uma ordem pra acreditar no processo. Confia que a repetição vai te levar a algum lugar. Confia que, se você continuar escrevendo, a autoria vai se revelar. Confia que, mesmo sem saber quem escreve, você pode ser o que está sendo escrito. Porque, na Baixada, a pergunta não é "Deus existe?". A pergunta é: se não existir, quem vai ocupar o lugar dele? A música do Hashi responde: a poesia. O verso. A voz que se recusa a calar, mesmo quando o destino ordena silêncio. Quem escreve? A gente escreve. A gente que ouve a ordem e, ao obedecer, se torna autor. Marisa Vorraber Costa[1] nos lembra que a arte também ensina com gestos, repetições e perguntas que ficam no ar. E "Confia" ensina algo que escola nenhuma ensina: perguntar. O refrão não resolve a dúvida sobre a autoria, ele a repete como um eco que passa de um verso pro outro, do Hashi pro Black, do Black pro ouvinte. E, ao repetir a pergunta, a música vai formando uma identidade que não aceita respostas prontas. Porque, na Baixada, as respostas prontas são as que matam — a do crime, a do destino, a do silêncio. A música ensina a desconfiar delas e a ocupar o lugar vazio da autoria com a própria voz. O "confia", nesse sentido, não é um mandamento; é uma provocação pedagógica: confia que a pergunta vale mais que a resposta. Refs de Cria: [1] COSTA, Marisa Vorraber (Org.). Estudos culturais em educação: mídia, arquitetura, brinquedo, biologia, literatura, cinema.... 2. ed. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000. Fijó é comunicador social, músico e produtor cultural. Idealizador do Ideias de Hermes Podcast/O Hermes da Baixada e do Shuffle BXD, criador da camisa "SARAPUÍ", integrante dos coletivos Instituto BXD e BXD IN CENA e coordenador/revisor do BXDISSE. Tecladista dos artistas Capelloni, Tabita Infinito, CAYÚ e Mtzyn ¿. Constrói no site do BXD IN CENA os estudos "Como o baixadense se enxerga?", buscando discutir obras musicais de artistas baixadenses e como funciona a representação do que é ser baixadense para essas pessoas.
- Áreas ociosas em estações ferroviárias podem virar zonas verdes?
Texto por: Alan Santana. Revisão: Fijó. *Nota do Editor: Nesta produção textual, serão utilizados os nomes Comendador Soares e Morro Agudo para se referirem ao mesmo bairro do município de Nova Iguaçu, devido à disputa de narrativas ainda existente na região. Fonte: DUTRA, 2014 (referência completa ao final do texto.) Terrenos degradados dentro da faixa de domínio das estações de trem, afastados dos trilhos por segurança, podem virar zonas de amortecimento arborizadas. A estação de Comendador Soares, em Morro Agudo (Ramal Japeri, Nova Iguaçu), é o ponto de partida: o entorno tem espaço de sobra para o plantio de árvores nativas e um sistema de drenagem ecológico, como jardins de chuva e florestas de bolso. Por que essas faixas ferroviárias importam Grande parte da malha ferroviária metropolitana do Rio de Janeiro atravessa bairros que sofrem com ilhas de calor: pouca cobertura vegetal, solo impermeabilizado e temperaturas altas. Os terrenos ociosos ao lado das linhas, hoje degradados, ficam justamente nesses pontos e raramente são aproveitados. Foto de cima da área total da estação Comendador Soares Fonte: Google Earth. Foto de um trecho do terreno da estação Reprodução: Nilson Santos/Google Maps. Foto de área ociosa localizada na parte à esquerda da imagem Reprodução: Carlos Eduardo Dias Souza/Google Maps. O que é uma zona de amortecimento e como funcionaria neste caso? Zona de amortecimento é o termo usado, na ecologia e no planejamento ambiental, para uma faixa de transição que filtra os impactos entre duas áreas diferentes, geralmente aplicada ao redor de unidades de conservação. Aqui, a lógica se repete em escala menor: uma faixa vegetada entre os trilhos e a cidade, absorvendo calor, poluição e parte da água da chuva antes que cheguem às ruas. Uma faixa arborizada ao longo do terreno poderia reunir o plantio de árvores nativas com técnicas agroecológicas, gerando alimento enquanto as mudas crescem; além de dispositivos de infiltração (valas, jardins de chuva, calçamento permeável) para reduzir o escoamento superficial da água da chuva; e ainda distância mínima de segurança em relação aos trilhos, já prevista pela própria faixa de domínio. Simulação feita com Gemini de uma zona de amortecimento na estação. Ganhos para a população e para a TrensRJ Esta intervenção atenderia a quatro frentes ao mesmo tempo: O bem-estar da população, com menos calor, mais sombra e ar mais limpo no entorno das estações; o aumento da infiltração das águas da chuva, com menos água escoando pelos trilhos, o que reduz o risco de alagamentos no entorno; a compensação ambiental com o uso de terrenos ociosos para cumprir obrigações de reflorestamento e gestão hídrica; e a construção/manutenção da reputação da nova operadora, percebendo que o consórcio Nova Via Mobilidade, que assumiu a operação dos trens metropolitanos do Rio em maio de 2026 no lugar da SuperVia, ganha uma ação concreta de impacto social logo no início da nova concessão. Um exemplo premiado: os jardins de chuva da CPTM Nem toda estação tem espaço para uma faixa arborizada completa. Para esses casos, existe uma alternativa mais pontual e já testada no Brasil: os jardins de chuva. Jardins de chuva são canteiros com relevo rebaixado e solo preparado em camadas, com plantas que absorvem e retêm a água como uma esponja, reduzindo enchentes e enviando água mais limpa para o lençol freático. A CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos, do Governo do Estado de São Paulo) ficou em segundo lugar no Prêmio Melhores Práticas 2021 da Associação Internacional de Transporte Público (UITP Latin America), com o projeto de jardins de chuva como infraestrutura de drenagem nas estações. A primeira a receber a intervenção foi a Estação Jaraguá, na Linha 7-Rubi, que sofria com alagamentos no acesso principal. Jardim de chuva na Estação Jaraguá Foto: Divulgação/CPTM. Uma ação que pode ser por todo o ramal Vale levantar, estação por estação, quais trechos da faixa de domínio têm espaço e viabilidade técnica para esse tipo de intervenção. Morro Agudo pode servir de piloto: um projeto pequeno, mensurável, com resultado visível em poucos meses de crescimento das mudas. Além da estação de Comendador Soares, em Morro Agudo, outras estações têm terrenos ociosos com potencial semelhante: Austin, na Baixada Fluminense e Prefeito Bento Ribeiro, na Zona Norte, que já conta com algumas árvores, mas ainda carece de dispositivos de infiltração. Estação Prefeito Bento Ribeiro, na Zona Norte Foto: Google Maps. Parcerias com instituições acadêmicas e sociedade civil Essa ação pode ser feita em parceria com instituições e coletivos tanto da sociedade civil, quanto da academia. Tal organização faria com que estudantes e formandos de engenharia ambiental, biologia e áreas relacionadas, além de praticantes de permacultura e agroecologia, poderiam aplicar esses conceitos na prática. Bem planejadas, essas faixas também podem funcionar como pequenas ilhas verdes, pontos de passagem para pássaros que dispersam sementes entre fragmentos florestais maiores. Como os locais onde seriam feitas as intervenções recebem pouca circulação de pessoas, diferente de parques e áreas de reflorestamento mais movimentadas, esses trechos também servem como um protótipo de baixo custo: um lugar para observar, ao longo do tempo, como as mudas crescem com o mínimo de intervenção humana. Por que agir agora? O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) já monitora a formação de um novo El Niño para o segundo semestre de 2026, com chance superior a 80% de se tornar um dos mais fortes já registrados. Na Baixada Fluminense, a previsão inclui calor intenso, baixa umidade e chuvas mais fortes — o mesmo padrão de rajadas de vento e ar seco que moradores da região já começam a sentir. A estação chuvosa se aproxima, e as políticas de adaptação climática não podem esperar. Essa urgência não é nova, Há anos, a Coalizão O Clima é de Mudança, que reúne organizações periféricas no enfrentamento ao racismo ambiental e na pauta da adaptação climática, cobra resposta do poder público. Em 2024, a coalizão reuniu diversos coletivos do estado em um ciclo formativo que resultou na cartilha “O Que Queremos no Plano de Adaptação Antes do Próximo Verão”, voltada à incidência junto a gestores públicos. Essas áreas vegetadas precisam ser criadas, e Morro Agudo pode ser o ponto de partida: um piloto pequeno e mensurável para uma Baixada Fluminense que já sofre com a crise climática. Refs de Cria: TrensRJ (Nova Via Mobilidade) assume a operação dos trens urbanos do Rio de Janeiro no lugar da SuperVia - Governo do Estado do Rio de Janeiro, 30 de maio de 2026. https://www.rj.gov.br/transporte/node/1007. Estação Comendador Soares - TrensRJ, Ramal Japeri (Nova Iguaçu). https://www.supervia.com.br/sua-viagem-e-servicos/conheca-as-estacoes/comendador-soares/. El Niño de 2026 pode ser um dos mais fortes da história e acende alerta na Baixada Fluminense — Site da Baixada, 22 de julho de 2026. https://sitedabaixada.com.br/geral/2026/07/22/el-nino-de-2026-pode-ser-um-dos-mais-fortes-da-historia-e-acende-alerta-na-baixada-fluminense. Lei nº 9.985/2000 (institui o SNUC), art. 2º, inciso XVIII — define zona de amortecimento. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9985.htm. Jardim de chuva na Estação Jaraguá é premiado por reduzir impacto das chuvas e melhorar conforto ambiental — Folha Noroeste. https://folhanoroeste.com.br/regional/jardim-de-chuva-na-estacao-jaragua-e-premiado-por-reduzir-impacto-das-chuvas-melhorar-o-conforto-ambiental-e-fomentar-a-biodiversidade/. Os jardins que podem aumentar a resiliência climática e reduzir alagamentos em São Paulo — ((o))eco. https://oeco.org.br/reportagens/os-jardins-que-podem-aumentar-a-resiliencia-climatica-e-reduzir-ala gamentos-em-sao-paulo/. Coalizão O Clima é de Mudança — cartilha “O Que Queremos no Plano de Adaptação Antes do Próximo Verão”, via RioOnWatch, 2024. https://rioonwatch.org.br/wp-content/uploads/2024/11/Plano-Verao-de-Ada/. DUTRA, Amanda Nogueira. Morro Agudo ou Comendador Soares? O conflito de memória em relação ao nome de um bairro de Nova Iguaçu 2014. 42 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História)–Instituto Multidisciplinar, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, 2014. Disponível em: https://centrodemoriagitaldenovaiguacu.wordpress.com/wp-content/uploads/2018/02/dutra-amanda-nogueira-2014.pdf. Acesso em: 12 ago. 2026. Alan Santana é nascido em Queimados, Licenciado em Biologia (UERJ), Pesquisador de Soluções Baseadas na Natureza e Tecnologias Sociais, Artesão de Plástico do tipo PEAD (Polietileno de Alta densidade), Produtor Cultural formado pelo CPPEC no Quilombo Enraizados e filho de uma Recifense. Co-fundador do Horto do São Miguel, também em Queimados, uma iniciativa agroecológica e de reciclagem criativa que é seu laboratório de quintal onde cria e testa Tecnologias pensadas por e para ajudar a periferia a resistir as mudanças climáticas.
- Um homem morto.
Texto por: Josué Matheus. Revisão: Fijó. Foto: Reprodução // MetrôRio. Na segunda-feira, dia 8 de junho, enquanto eu descia as escadas do metrô na Pavuna, voltando do trabalho, percebi uma movimentação mais agitada e acelerada. Eram aproximadamente 20h10. A movimentação não parecia atrapalhar quem estava querendo fazer o mesmo que eu: voltar para casa. Ninguém que estava descendo as escadas pareceu entender o contrafluxo de pessoas. Seguindo até o ponto, no meio da divisa entre São João e Pavuna, encontro uma mulher desesperada, gritando pelo seu acompanhante que acabara de morrer ali no local. Ele estava com um pano tampando a cabeça, casaco azul-escuro e bermuda jeans. Não fiquei para saber a causa da morte. Ele morreu, ela gritava pedindo ajuda. Não fiquei nem para ajudar, para saber se podia fazer algo, ou se alguém já havia ligado para a ambulância. A conversa que rolava por alto era de que ele tinha sido morto a tiros, com disparos na cabeça. Minha pressa toda era para chegar em casa. Eu pego o ônibus às 20h40 para chegar, no mínimo, às 21h20 em casa. Atrasar 5 minutos é perder 1h. Mas eu não fiquei para saber por que um morador da Baixada morreu violentamente. Nem o instinto jornalístico veio; era a minha vontade de ir para casa falando que, para mim, já deu. Eu passei por um corpo, de um homem que parecia ter entre 28 e 32 anos, e agi como se a minha pressa fosse mais importante que saber e ajudar. Eu não sou apático. Não sou indiferente. Mas a minha "cidade-dormitório" exigia meu descanso. Não era justo o meu descanso também? Eu poderia saber o que aconteceu depois. Pois bem, pesquisei depois. Não achei informações. Será que eu me tornei insensível? Na verdade, acho que foi só a correria mesmo. O fato de morar a quase 2h de distância do trabalho, sempre esperar mais de 30 minutos para pegar um transporte em uma região que está até cogitando acabar com linhas de ônibus essenciais para a locomoção... A Baixada é cruel. Ela massifica muitas informações, muitos atos e muitas coisas que você achava que eram inconcebíveis. Talvez isso tenha me feito passar direto e não saber nem a causa da morte. Não posso ignorar que, morando na Baixada, se eu ficasse e a causa da morte fosse realmente por disparos, todas as interrogações viriam à mente e você não quer ficar para saber. Não há necessidade de explicar quais perguntas vinham à mente, mas elas apareceram para confrontar uma verdade absoluta também: Não temos tempo para os nossos. "Eu sou do relógio da Central, eu mermo', de Saracuruna", trecho de "Cidade Cemitério", pelos artistas NATÖ e Rojão. Foto: Reprodução // Severino Silva / Agência O Dia. Eu não conhecia aquele homem que estava jogado no chão, nem a mulher dele que estava pedindo ajuda. Mas ele deveria ser da Baixada. É um dos nossos. Quantas vezes deixamos de ter tempo para os nossos só porque vivemos no trabalho e voltamos com pressa para as "cidades-dormitório", que é a nossa BXD? Pensei sobre o meu próprio distanciamento, percebi que o que vivi ali não foi um lapso de caráter ou uma insensibilidade egoísta. Foi a materialização viva do que Milton Santos[1] conceitua como a "espoliação do tempo" e as "cidadanias mutiladas". Como geógrafo e pensador do nosso território, Milton Santos nos ensina que o espaço urbano não é neutro: ele é desenhado para segregar. A Baixada Fluminense, como cidade-dormitório, funciona como uma engrenagem que reduz o indivíduo à sua mera força de trabalho. Nós somos empurrados para as margens e obrigados a viver distantes. O tempo gasto no transporte, essas três ou quatro horas diárias trancadas em transportes precários, é, na verdade, um tempo alienado. Um tempo que nos é roubado. E quando digo tempo, também quero reforçar a empatia e a assistência com o próximo. Isso, talvez, seja um problema geral das sociedades. Mas nós, da Baixada, somos vítimas pelo depósito de uma mão de obra que mora e trabalha distante. Não foi somente eu que não ajudei aquela mulher. Várias pessoas passaram e não ajudaram. Mas prefiro trazer essa discussão em primeira pessoa, justamente para não trazer sempre a responsabilidade para um “alguém” que não sabemos se vai aparecer. Refs de Cria: [1] SANTOS, Milton. A Urbanização Brasileira. 5. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP), 2005. Josué Matheus é cria de Venda Velha, São João de Meriti, jornalista, fotógrafo e ativista.












